Quem observa os observadores? Uma Introdução


Who watches the WatchmenQuis Custodiet Ipso Custodet” é uma frase muito antiga do poeta romano Juvenal que quer dizer literalmente “Quem vai guardar aqueles que guardam” ou às vezes, “quem observa os observadores”. Essa frase, para quem assistiu ao filme Watchmen ou leu a graphic novel, sabe que essa frase aparece algumas vezes como forma de protesto contra os heróis mascarados. O engraçado é que em nenhum momento da história eles são chamados de Watchmen (ao menos no original do Alan Moore), mas esse nome vem justamente da referência a essa frase.

Mas, independente de Alan Moore, essa frase reflete um pouco em como pode ser nossa vida na internet. Quem possui vida online é constantemente observado. Ao mesmo tempo, também observa. Vale ver como funciona, por exemplo, o Orkut. Lá, cada vez que olhamos o perfil de alguém, o sistema avisa o observado quem o observou. Somos constantemente vigiados.

Outro lugar onde isso acontece é o Twitter. Seguimos pessoas e somos seguidos por outras. Quem segue, observa. Quem é seguido é observado. Como todos seguimos e somos seguidos, somos ao mesmo tempo observador e observado. Neste caso, a resposta à pergunta “quem observa os observadores” seria “os observados”. Hoje em dia, isso dá uma ideia bem diferente sobre o que seria o Panóptico de Jeremy Bentham (o que pode ser assunto para outro post).

Isso é um prato cheio para quem sofre de alguma forma de Paranóia. Paranóia, para quem não conhece, é chamada brevemente como “mania de ser observado”. É aquela sensação de que alguém o está vigiando, observado o tempo todo, geralmente por alguém que não conhecemos. É aquela impressão que temos quando alguém está longe e nos olha brevemente e achamos que ela nos está observando há tempos.Olho

Mas como funciona isso? A base da paranóia é o delírio. O delírio, segundo Hillman, é o único sintoma que é 100% psicológico, ou seja, não existe nenhuma base fisio, neuro ou sociológica para o delírio. O delírio pode ser caracterizado como uma crença infundada em alguma coisa. Podem ser crenças bizarras ou não-bizzaras, mas sempre essas crenças não vem como fundamento. Algumas pessoas, inclusive, dizem que acreditar na existência de Deus é um delírio já que não existem fundamentos reais para tal, somente a fé. Ele é 100% psicológico porque, se a qualquer momento forem encontrados fundamentos para a crença, ele deixa de ser delírio.

É claro que neste breve espaço, não é possível falar muito sobre isso, inclusive sobre as inplicações disso como, por exemplo, o fato de algumas empresas vigiarem ou controlarem a vida virtual de seus empregados. Isso muitas vezes vai além do fato de alguns sites e serviços online serem bloqueados da rede da empresa, mas também um controle sobre as comunidades do Orkut ou sobre o que a pessoa twitta. Em breve, falarei um pouco mais sobre isso, aprofundando sobre questões tecnológicas e psicológicas desse tema para compreendermos quem somos os observados que observamos nós, os observadores.

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