Nossa amiga, a Sombra


Nossa sombraA Sombra é um dos conceitos mais importantes da teoria junguiana, ou seja, do psicólogo Carl Gustav Jung que desenvolveu a linha psicológica que conhecemos como Psicologia Junguiana ou Psicologia Analítica ou Psicologia Complexa… Sim, são vários nomes para uma mesma teoria, o que mostra sua diversidade de entendimentos.

A Sombra é um dos conceitos centrais presentes em praticamente todas as formas de se compreender a psicologia de Jung, mas, novamente, cada forma tem uma maneira diferente de compreendê-la. Vou aqui descrever como eu a concebo.

A Sombra é a parte mais obscura da nossa psique (psique não é mente. Em breve vou escrever sobre como mente e psique são dois conceitos diferentes e sobre como eu não acredito em “mente”). Ela recebe tudo aquilo que não aceitamos como parte da nossa personalidade ou “identidade” ou “Ego”, chamado de “Complexo de Eu”. Aqui vale uma breve explicação sobre o que é complexo:

Complexo Ideo-Afetivo é uma associação de ideias e afetos em torno de um núcleo temático comum. Então, o Complexo do Ego são todas as ideias e afetos (experiências, memórias, sonos, aspirações, desejos, traumas, etc) que relaciono com aquilo que chamo de “Eu”. Da mesma forma, a Sombra é um complexo e ela reune tudo aquilo que chamo de “não-eu”. Bastante simples, por sinal.

A sombra nos é inconscienteO complicado é percebermos a Sombra. Como toda boa sombra, ela sempre fica atrás de nós (se estamos olhando para a fonte de Luz) e dificilmente vemos ela chegando. Também, se está escuro, não vemos a sombra. E geralmente só percebemos a Sombra porque ela está projetada em algo.

Projeção aqui é o conceito chave pra compreender tudo isso. Basicamente, tudo o que nos é inconsciente (e a Sombra se inclui nisso, por motívos óbvios) só nos é percebido quando é projetado. E o que isso quer dizer? Basicamente que quando eu olho para algo e eu reconheço que isso é diferente de mim, eu estou projetando nela a minha sombra; principalmente se além de reconhecer a diferença eu coloco repulsa ou algo que me separe ainda mais disso.

Como a Sombra reune tudo o que reconheço (inconscientemente, a princípio) como sendo não-Eu, basicamente tudo o que vejo como não-eu no mundo se torna projeção da minha sombra. Em outras palavras, quando eu vejo isso, eu estou vendo no outro o que reconheço como sendo não-eu em mim mesmo.

O mecanismo pode parecer um pouco complicado, mas basicamente funciona assim: como não reconheço determinada característica em mim, então eu reprimo isso, que fica inconsciente. Mas isso não fica esquecido, mas sim jogado no mundo, no outro, que é visto como portando isso que não reconheço em mim, que é minha sombra. Eu posso conscientizar isso, mas não internalizo como sendo eu.

Sombra!?Um bom exemplo disso, e um exemplo bem banal: José é um cara preguiçoso, mas ele não quer reconhecer isso. A preguiça nele é reconhecida como sendo um não-eu, já que ele não reconhece para si nem para os outros que ele é preguiçoso. Ele então pede a Pedro que está sentado ao seu lado para fazer o favor de alcançar uma pasta que está na outra mesa. Pedro lamenta e diz que não pode e que o próprio José poderia pegar a pasta, já que a distância é a mesma. José então fica indignado e chama Pedro de preguiçoso porque ele foi incapaz de se levantar para pegar a pasta. O engraçado é que o próprio José também foi incapaz de levantar para pegar a pasta, o que o torna, segundo seus próprios critérios, um preguiçoso. Mas como a preguiça no José faz parte de sua Sombra, ele não reconhece como sendo de si mesmo, mas sim projetado no outro e como sendo o outro.

Na nossa Sombra, geralmente colocamos os nossos defeitos, nossas culpas, vergonhas, coisas ruins que são socialmente ou pessoalmente reprovados ou qualquer coisa que nos é reprimida. Colocamos também tudo aquilo que nos foi proibido por culpa ou vergonha, quando estavamos cantarolando e criando e então disseram para nos calar. Só que isso não é ruim!

É importante perceber que nossa psique é como a natureza: ela não é moral. Qualidades e defeitos são valores conscientes que damos a características nossas. Raiva, por exemplo, pode ser visto como defeito, mas pode ser uma qualidade para quem sabe canalizar esse sentimento de forma proveitosa. Se não sabemos e nos ensinam (ou aprendemos) que devemos reprimir isso e/ou negar determinado sentimento/desejo/pensamento, ele acaba virando sombra.

A sombra fica no nosso péE como toda boa sombra, ele fica no nosso pé. Quanto maior a luz da consciência, maior é a projeção da sombra. Quanto mais perto está a fonte da luz, mais nítida é a sombra projetada. Em outras palavras, quanto maior é a dominação da consciência, maior é a projeção da nossa Sombra no mundo e nos outros e menor é a compreensão de nós mesmos.

Nossa Sombra pode ser nossa amiga. Na verdade ela é uma realidade que não pode ser negada. Se deixamos nossa sombra inconsciente, ela vira nossa inimiga e acaba mostrando que no mundo existem vários inimigos, que no mundo existe um Mau que não pertence à mim (mas que na realidade, esse mau somos nós mesmos). Infelizmente é isso o que acontece com os vários tipos de fanatismo: sempre existe um inimigo, sejam os partidos de direita, os ateus ou simplemente aqueles que pensam diferente de nós. Esse inimigo nada mais é do que a projeção da nossa sombra inconsciente.

Mas se essa Sombra é tratada como amiga, sempre quando reconhecemos que algo fora nos incomoda, trazemos isso para nós e perguntamos: o que tenho eu dessa característica que vejo como sendo ruim nos outros? Quando reconhecemos que o mau do outro é na verdade um mau nosso, crescemos como pessoa. Nesse passo fazemos uma maior integração da sombra e ela se torna nossa amiga.

Uma Sombra amiga dá abrigo em dias de sol e luz forte, ela descansa nossos olhos, ela nos serve de fonte de diversão e entretenimento quando brincamos com suas diferentes projeções. Para para isso, temos que aprender a mexer com a sombra, ela precisa ser integrada e nossas características ruins precisam ser vistas como sendo nossas e a sombra, nossa amiga.Sombra de árvore

Comments (20)

  1. Eu tinha uma noção desse conceito, mas não com essas palavras, assim, bem definidinho.
    Observei que eu projetava meus defeitos nos outros, e que os outros também faziam o mesmo. Graças a isso, quando começo a taxar as pessoas de determinado modo, me pergunto se isso não é defeito meu. Geralmente é. Reflete uma insatisfação pessoal.

    Li que o budismo diz pra vivermos com a mente focada no presente, sem julgar, o que acho sensacional. Assim, a sombra não se torna uma coisa tão forte, ou pelo menos podemos lidar melhor com ela. Agora, se a gente vive em uma realidade social e complicada (e não isolados em mosteiros), fazer isso é bem difícil.

    • ilseilsem

      gostei do seu jeito didático e versátil.

    • Eu gostei o texto. Estou lendo o Livro Vermelho, há muito faço psicoterapia “junguiana”. Bem, o Partido de Direita pode ser o bode expiatório. Concordo! Mas o Partido de Esquerda também. Além da sombra há na sociedade uma estrutura de classes que é inegável, e, também, interesses de classe. Não podemos e não devemos reduzir tudo à psicologia e muito menos à sociologia ou antropologia, história… O próprio Jung não esperava que existissem “junguianos”, assim como Carlos Marx marxistas. Pensadores livres…. ? ! Bem o que é liberdade? Quem sofre na fila do SUS ou comete suicídio no trabalho (karoshi- mortes por overdose de trabalho) sabe o que não é liberdade. Perguntemos a um “boia-fria” Sabe?
      Nem só de Jung vivem os homens. Nem só de Marx vivem os homens.
      Loucura do Trabalho de C. Dejours também é um bom pensador. Há outras e outros!Salve!
      Parabéns, Felipe Luiz Gomes e Silva.

  2. […] que o ajudaram a moldar suas principais teorias, como os complexos ideo-afetivos, o Ego, a Sombra, a Persona, o Self, a Anima e o Animus, entre vários […]

  3. oi pablo,

    descobri seu site quando procurava uma imagem sobre a sombra… a sombra que faz um objeto que intercepta a luz!
    dei com o seu post explicando o conceito de sombra e gostei do seu jeito didático e versátil.

    bem, eu sou o chico abelha, um tipo de cicerone numa rede social de autoconhecimento e troca de experiências.
    nosso trabalho é inspirado em joseph campbell e jung… que mitos estaríamos vivendo nós hoje?
    o nome da rede é YuBliss e convido você a dar uma olhada na gente e ver onde podemos trocar (lembre-se que somos uma rede social aberta, tem todo tipo de gente).
    quem sabe você não dá um fórum virtual, temos um modalidade que se chama “com o especialista”, você poderia escolher um tema e desenvolveríamos por 5 dias, ao longo dos quais vc responde nos horários que puder, não é preciso ficar online o tempo todo.

    espero você lá no http://www.yubliss.com

    abraço,

    chico.

  4. […] esteja vivo. Da mesma forma, para que algo possa viver, ele tem que poder morrer também. Uma é a sombra da outra e uma é tão necessária quanto a outra. Compreender isso e aceitar isso já é o […]

  5. Comentando o que o amigo ali em cima disse, realmente esse tipo de pensamento faz sentido estar numa religião que pregue a fraternidade. Acho que tem disso no cristianismo também. “E por que atentas tu no argueiro que está no olho de teu irmão, e não reparas na trave que está no teu próprio olho?”. Não sou cristão, mas esses ditados passam por DNA.

  6. […] Uma vítima é alguém que sofre alguma agressão. Neste caso, o agressor é o bully. Mas é interessante notar que, psicologicamente falando, todos temos uma parcela vítima e uma parcela agressora em nós mesmos. Jung notou que tudo o que aparece de forma consciênte apresenta um oposto inconsciente. Ou seja, se conscientemente eu sou vítima, inconscientemente eu também sou agressor, e vice-versa. Se eu me identifico com meu Ego, a minha Sombra sempre vai trazer o meu oposto dentro de mim. […]

  7. maria

    Gostei muito do que li, e para mim foi de muita ajuda. Pois me dei conta de que sou muito implicante, rabugenta, e vejo defeito na maioria das pessoas. Só gosto de pessoa boazinha e que não oferece perigo.
    percebi isso com muita dor, pois venho sofrendo muitas humilhações, seja lá onde eu estou ou me encontro por um determinado tempo, no trabalho por exemplo.
    Procuro ajuda pois esse tipo de situação, vem me tirando o ânimo de viver, o medo aumenta e a insegurança também.
    POr isso digo que foi esclarecedor, o fato de saber que é a minha sombra que está fazdendo isso comigo. Vou procurar ser amiga de minha sombra, quem sabe ela me ajuda a ser mais feliz e viver em paz.

  8. César

    Acho que agora entendí um pouco melhor essa ideia de sombra. Mas Pablo, ao aceitar a sombra não podemos cair no erro de estagnar em nosos desenvolvimento ?

    Usando o exemplo do cara preguiçoso. Imagina que ele agora percebeu que é preguiçoso, parou de projetar em todo mundo. Será que agora ele não vai aceitar a preguiça como parte dele, em vez de tentar ser menos preguiçoso ?

    Obrigado.

  9. Olá, César!
    Obrigado pelo comentário e pela pergunta. Respondendo brevemente, existe uma diferença entre aceitar a sombra e se identificar com ela. As identificações são sempre arriscadas em qualquer direção, até mesmo – e principalmente – as identificações com o Ego são perigosas (leia sobre isso aqui: http://pablo.deassis.net.br/2011/03/nosso-inimigo-o-ego/). Aceitar não significa se identificar. A pessoa preguiçosa que se aceita assim mas não se identifica irá mudar, pois reconhece o erro e melhora. A pessoa que se identifica como preguiçosa se prende nesse pólo, da mesma forma como se prendia no outro lado sem o reconhecimento da Sombra. Faz sentido?
    Abraços!

  10. Helen Alcantara

    Muito bom o texto!

  11. André

    Olá Pablo!
    Gostaria de tirar uma dúvida. Quando uma pessoa faz algo que nos incomoda, nos causa decepção, enfim… necessariamente estamos diante de nossa sombra? Mesmo que não venha a ser alimentado nenhum sentimento negativo posteriormente?
    Ou seja: quando percebemos que seria uma simples observação?

    • Olá, André!
      Muito boa a sua pergunta e ela pode ser respondida brevemente com uma simples reflexão: aquilo que percebo no outro faz parte de quem eu sou? Se sim, então você percebe algo que é seu. Se não, então você percebe algo que você não identifica como sendo seu. Nesse último caso, você está percebebdo questões sombrias!
      Mas sempre? Sim, sempre… Por quê? Pare pra pensar: você pode perceber tanta coisa em uma pessoa, por que “escolheu” perceber justamente aquelas questões do outro, que não lhe pertencem? Você só consegue perceber aquilo que já faz parte de você de alguma forma… Se você se identifica com isso, isso também é seu; se não se identifica, ela está sombria…
      Faz sentido?
      Abraços e obrigado pelo comentário!

  12. […] temos tanto medo assim da nossa própria espécie, dos nossos semelhantes? Será que temos tanto medo e repulsa assim de nós mesmos, de quem somos, de quem nos […]

  13. Adriano Felix azarias

    Quanto mais olhamos pra JESUS que é a Luz, mais projetada fica no nossa sombra e cheia de amor, misericórdia, paz, alegria e salvação. Hoje existem muitos caminhos, mas a única Luz que nunca se apagou mesmo depois de morta e brilha ainda mais forte é JESUS, o qual quer que nossas sombras sejam projetadas Nele.

  14. Mateus

    Obrigado pelo texto, ficou bom demais!

  15. Muito interessante essa teoria, encontrei ao acaso e me fez refletir sobre muita coisa.
    Mas como tolerar? superar? conviver? com tudo o que eu repudio no outro? Existe algum exercício mental além da reflexão sobre o assunto?

    Grata.

  16. Irá

    Gostei! Muito bom!

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