Quem observa os observadores: Mídia e Psicopatologia


Quem observa os observadores?Faz um tempo tenho observado algumas propagandas e como elas vendem seus produtos. É claro que é objetivo do publicitário ao produzir essas campanhas de vender a imagem do produto, mas acredito que muitas vezes eles pegam um pouco pesado. Eles acabam vendendo algo que não precisaria vender e criam necessidades desnecessárias.

O que mais me chama a atenção é o excesso de propagandas que vendem a felicidade. Sejamos sinceros: ninguém consegue vender felicidade porque, como diz o clichê ditado pupoplar, dinheiro não compra felicidade! Isso porque felicidade é um sentimento que temos ao alcançarmos objetivos de vida, sejam eles simples ou complexos. A felicidade que temos ao comprar vem do fato de a compra ser um objetivo que alcançamos. Mas felicidade mesmo não pode ser comprada ou vendida ou mensurada ou feito nada com ela além de ser sentida e vivida.

Alguém já parou pra perceber isso?Acontece que quando estamos felizes – e isso é algo que a mídia de forma geral tenta nos convencer que precisamos – acabamos comprando mais e alimentamos mais o sistema. Na nossa sociedade acabou que é praticamente proibido ser triste, ficar deprimido, pois quando fazemos isso, não trabalhamos, não produzimos, não ganhamos dinheiro e consequentemente não gastamos. Mas não pense que isso é culpa do capitalismo, já que em um sistema comunista ou socialista ficar deprimido significa não contribuir para o bem social. Isso é um problema da nossa sociedade moderna que olha mais para fora do que para dentro.

A depressão  – por incrível que pareça – é algo necessário, pois com ela podemos refletir sobre nossas escolhas, sobre nosso caminho e sobre nossa vida. É tão necessário que os antigos gregos já reconheciam duas artes do teatro, a comédia que falava sobre as felicidades e eventos cômicos da vida, e a tragédia que falava das nossas tristezas e servia de cano de escape para os nossos sofrimentos.

É claro que ninguém quer ser triste ou sofrer, mas não podemos negar o valor e a necessidade disso. Infelizmente, não é isso que querem as empresas, o comércio e o mercado. Não há lugar para tristeza nesses meios, já que a prerrogativa deles é vender, comprar e consumir. Como exemplo, deixo aqui a propaganda de uma loja de departamentos conhecida. Seu slogan é “Vem ser feliz” e em vários momentos nessa peça podemos ver pessoas felizes, correndo e os funcionários da loja dizendo que eles querem fazer as outras pessoas felizes.

Nada contra a felicidade, mas quando ela é tratada como mercadoria, começamos a ter um grande problema, principalmente porque cada vez mais as pessoas irão comprar para poderem ser felizes. O mercado adora isso! Mas não as pessoas, já que elas não sabem o que é ser feliz.

Um outro caso que me chamou muito a atenção é de uma marca de sabonete que vende literalmente a proteção a doenças que podem matar pessoas. É essa a imagem ao menos que acabamos tendo com a propaganda que passa na televisão. Vemos frazes do tipo: “Há bactérias em tudo que tocamos, que podem te deixar doente” ou “Previna-se contra doenças” ou ainda “você deve lavar as mãos várias vezes”, impondo o consumo excessivo do sabonete.

Posso pensar aí em dois grandes problemas psicopatológicos: o Transtorno Obsessivo Compulsivo e a Paranóia, ou Transtorno Delirante.

O Transtorno Obsessivo Compulsivo se caracteriza por atos compulsivos utilizados para livrar a ansiedade de um pensamento obsessivo. Se esse pensamento for que tudo à nossa volta está contaminado (“Há bactérias em tudo que tocamos, que podem te deixar doente“), um ato compulsivo relacionado a isso pode ser o de lavar as mão várias e várias vezes para livrar-nos da contaminação (“Você deve lavar as mãos várias vezes” e “Previna-se contra doenças“).

Já o Transtorno Delirante é caracterizado pela presença de delírios, ou seja, de crenças irracionais sem fundamento. Acreditar que existem bactérias em tudo o que tocamos e que elas podem provocar doenças não é um delírio, já que isso é um fato. O delírio começa a acontecer quando acreditamos que essas bactérias podem estar atrás de nós e se nós não utilizarmos o tal sabonete para nos prevenir de doenças, vamos morrer. Isso já é delírio e beira a paranóia, que é o delírio de perseguição. Para mais detalhes sobre esses quadros, leiam este post: Uma breve história das doenças mentais.

Cuidado com as bactérias?

Cuidado com as bactérias?

A grande questão que deixo agora é: a gente para pra pensar sobre os anuncios que vemos todos os dias na televisão e sobre a imagem que eles estão vendendo? Essas duas propagandas aqui são só dois exemplos de propagandas que criam necessidades desnecessárias, um de comprar felicidade e outro de superproteção à doenças mortais. Mas existem tantas outras, certo? Cada uma ou alimenta esses padrões de mercado ou  colocam objetivos irreais para pessoas reais. Só para citar mais UM exemplo (que depois irei comentar), a imagem de belexa anoréxica de vários comerciais de roupa íntima feminina.

Muitas vezes ficamos passivos diante de tudo isso, sendo somente observados como gado que consome o que nos empurram. Mas devemos perceber que também podemos observar tudo isso e sim podemos dizer não ao que nos vendem as propagandas. Podemos querer ser felizes, mas para isso basta colocar pequenos objetivos diários a serem alcançados e não precisar comprar qualquer coisa para isso. Podemos querer não ficar doentes, mas bactérias também fazem bem à saúde. O que precisamos é ficar atentos ao que nos é vendido, é tornarmos observadores ao invés de simples observados.

Comments (5)

  1. […] adotar o nome de TCC, agregando o “comportamental” ao seu nome. A tentativa era de marketing, para agregar uma marca conhecida a um produto desconhecido. Alguns terapeutas comportamentais […]

  2. […] do sofrimento humano. A humanidade sempre sofreu e sempre sofrerá, mas parece que cada vez mais não podemos passar por isso. Medicalizamos o sofrimento e transformamos isso em doença tratável. Mas, qual é o problema em […]

  3. […] perceberem bem, a frase continua bem além da proibição de pronunciamento público, em meios de comunicação de massa – sejam eles a televisão, revistas ou até mesmo blogs e a internet -, complementando que […]

  4. […] mídia nos vende uma ideia: de que precisamos ser, a todo custo, felizes e para termos essa felicidade precisamos de dinheiro. Isso é mais do que simples anúncios: isso […]

  5. […] Quem observa os observadores: mídia e psicopatologia – Por que a mídia insiste em vender felicidade? Qual o problema do sofrimento? Porque ela utiliza o medo para vender saúde? A manipulação dos sentimentos humanos ocorre com o objetivo principal de venda e nada mais. […]

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