Chapeuzinho Vermelho, os Atalhos da Vida e o Lobo Mau


Lobo MauContos de fadas não são só histórias para crianças. Elas trazem noções universais sobre o ser humano e nossa condição de vida que valem para todas as pessoas em todas as épocas e todos os tempos. Não é à toa que grande parte dos contos de fadas sobrevive há séculos entre nós. Não vou entrar aqui no mérito dos “contos de fadas politicamente corretos” – ainda – pois esse não é o nosso foco no momento. O que quero mostrar é o valor que essas histórias – em seu original – têm para nossas vidas.

Os contos trazem, representados em seus personagens, valores e atitudes humanas. Elas trazem noções arquetípicas, ou seja, apresentam padrões de comportamento universais e atemporais. De certa forma, elas funcionam muito como mitos ao fazerem isso (para mais sobre mitos e mitologia, aconselho ouvirem o Papo Lendário). A grande diferença é que os contos de fadas são mais universais, pois fazem referência a uma terra distante, em um tempo distante, diferente de um mito que faz referência sempre a uma determinada cultura. Toda história que começa com “era uma vez” ou “há muito tempo atrás” ou ainda “Em uma terra muito distante” pode ser considerada um conto de fadas. Jung e os Junguianos trataram bastante do tema, desde os mitos até os contos de fadas, relacionando-os com questões arquetípicas e comportamentais. Era uma vez Star Wars...

Tendo feito essa breve introdução ao tema, gostaria então de falar sobre meu tema de hoje: a história de Chapeuzinho Vermelho. Não vou aqui relatar a história dessa história, seus autores ou as variações. Vou simplesmente tratar das temáticas mais conhecidas desse conto e o que ela mostra de comportamento humano. Mas antes, gostaria de relatar as experiências que me fizeram pensar sobre essa história.

Nesse último final de semana fui dar uma aula de psicopatologia para uma turma de enfermeiros. Como muitas das profissões relacionadas à saúde, os enfermeiros – infelizmente – acabam por entrar no paradigma médico, onde a principal ação é a medicação ao invés de tratarmos da pessoa. Muito do questionamento que me fora trazido tinha a ver com o uso de medicação e como devemos usar os remédios no tratamento de certas psicopatologias. Eu disse quase que enfaticamente que os remédios não devem ser usados no tratamento ou como único recuros – que é o que acaba acontecendo pela facilidade de uso dos medicamentos.

PsicofarmacosAlém disso, tenho alguns pacientes que chegam até a mim já tomando remédios e em TODOS os casos percebo que eles tomam os remédios ou por influência médica ou para encontrar um atalho rápido para resolver algum problema pessoal. Infelzimente questões como tristeza, irritabilidade, euforia, alucinações, delírios e ansiedade NÃO SÃO problemas, são sim SINTOMAS que apontam para os verdadeiros problemas que em geral são inconscientes. Tomar os remédios vai resolver os sintomas, mas os verdadeiros problemas que geraram tais sintomas continuam lá, inconscientes e despercebidos. Tomar os remédios seria tentar resolver os problemas por suas manifestações, tentando quase que encontrar um atalho rápido para os problemas, mas que no fundo não os resolve.

Chapeuzinho VermelhoÉ nesse ponto que me lembrei de Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Mau. Na história, uma menina que usava um gorro vermelho saiu pelo bosque para levar uma cesta com comida para sua avó que estava doente. Sua mãe dissera que ela seguisse o caminho principal, a rua principal, sem pegar atalhos, pois neles se encontram muitos perigos. E foi isso o que ela fez, até encontrar na beira da estrada, o Lobo Mau. O Lobo não iria fazer nada com a menina pois ela estava muito visível na estrada, então ele tentou convencê-la a pegar um atalho para a casa da avó. Ao aceitar, ela foge do caminho principal, o que permitiu que o próprio Lobo conseguisse pegar um outro caminho e chegasse antes na casa da vovozinha. Ao chegar lá, ele a devorou e se fez passar pela pobre velhinha, para enganar a menina quando ela chegasse. Ela chegou e em pouco tempo e com bastante enganação, o lobo conseguiu devorar a pobre Chapeuzinho Vermelho.

O engraçado, talvez por influência da psicanálise de Freud, o foco principal de análise desse conto é do aspecto sexual que ele apresenta, por causa da tensão entre a chapeuzinho e o lobo, apontando aspectos da sexualidade infantil. Mas poucos se atentam no processo do caminho, com a jornada da menina. E essa jornada e caminho tem um aspecto importante: o atalho.

AtalhoEm nossas vidas, sempre queremos encontrar atalhos para resolver nossos problemas de forma mais fácil. É a “Lei do Menor Esforço” que acaba prevalencendo. E eu vejo os remédios psicoativos, os psicofármacos, como esse atalho. Mas, como na história da menina do capuz vermelho, tomar esse atalho e tentar fazer as coisas do jeito mais fácil, acaba trazendo consequências desastrosas.

O atalho leva para caminhos de enganos e decepções, de mentiras e falsidade onde nos levam a acreditar que tudo está bem, mas que no fundo, nada é o que parece e só tarde demais que percebemos isso. Os psicofármacos agem justamente assim, enganando o usuário a acreditar que ele não possui problemas, pois os sintomas são eliminados ou disfarçados. Com eles, achamos que resolvemos o nosso problema e não tivemos que enfrentar grandes dificuldades e sofrimentos para tal, bastando tomar alguns comprimidos durante um tempo.

O Caminho da DepressãoMas ao fazer isso não percebemos que o problema não é os nossos setimentos e emoções. Os nossos problemas são os conflitos não resolvidos, os impasses criados, a falta de flexibilidade que impomos na vida, e uma série de outras questões que em NADA tem a ver com os sintomas manifestos. Na realidade, esses sintomas são formas que o nosso organismo encontra para tentar – com sérias falhas – resolver os nossos problemas inconscientes. Por exemplo, uma depressão força o sujeito a diminuir o ritmo de vida acelerado e a sentir as dores e sentimentos do corpo que são esquecidos e abandonados em nossas vidas corridas, agitadas e anestesiadas pelo excesso de estimulos que estão presentes em nossas cidades; uma hipocondria força a pessoa a olhar irracionalmente para o seu corpo aparentemente doente que fora abandonado  em nome de um caminho de vida lógico, racional e perfeccionista. E podemos ver em cada “doença” que ela em si, seus sintomas, apresentam uma possível solução para os problemas da pessoa.

O Burro e o Dragão de ShrekIgnorar os sintomas, anestesiá-los ao tomar os remédios, seria tomar o atalho apontado tentadoramente pelo Lobo Mau. Pensamos assim que resolvemos o nosso problema, mas na realidade entramos em um caminho de decepção. Os remédios não irão resolver os nossos problemas, pois eles só nós poderemos resolver. Mas para isso é necessário encontrá-los e reconhecê-los. Só então é possível saber se devemos enfrentá-los ou simplesmente aceitá-los. Vale lembrar um outro conto de fadas moderno, Shrek, onde o dragão quando era enfrentado ele se tornava um inimigo feroz que matou vários heróis, mas quando ele foi aceito por quem é, ele se tornou o maior aliado do herói. Os nossos problemas são os dragões. E não existem atalhos para lidar com eles.

O lobo mauAo trazer essas imagens, espero não ter confundido mais do que o necessário. Mas são muitas coisas, muitas referências e muitas imagens para trazer uma mensagem simples: não devemos procurar atalhos para resolver os nossos problemas, pois os atalhos da vida não são como os atalhos geográficos: os problemas da vida precisam ser resolvidos de uma forma clara e direta e fugir deles procurando por atalhos só nos levará para mais problemas pois os nossos serão ignorados, abandonados e com toda a liberdade para crescer e tornar-se mais complexos. Quem tem medo do Lobo Mau? Aparentemente todos que fogem dele, mas não deveriam, pois a coragem de enfrentá-lo que o caçador na história tem, é suficiente para saber que é possível sobreviver ao lobo e aos nossos problemas.

Comments (5)

  1. [...] This post was mentioned on Twitter by Pablo de Assis and Pablo de Assis, Pablo de Assis. Pablo de Assis said: #nbp Chapeuzinho Vermelho, os Atalhos da Vida e o Lobo Mau http://bit.ly/hfqln5 [...]

  2. [...] a próxima semana e, uma vez prontos, ficarão aqui para consulta. Mas antes de ouvirmos sobre a Chapeuzinho Vermelho ou sobre As Roupas Novas do Imperador, vamos começar com o [...]

  3. Vitor Hugo

    Oi… aqui alguns erros ortográficos que encontrei no texto:

    “Não é à toa que grande parte dos contos de vadas…”

    “…apontando aspectos da sexualidade infantir.”

    “…alguns comprimidos duante um tempo.”

    Embora esse seja meu segundo comentário, e novamente tendo conteúdo para correção do texto, saiba que só faço isso pq quero ajudar blog… espero não estar passando por chato…

    o

  4. Vitor Hugo

    …pq quero ajudar *o blog… faltou o “o”…

  5. […] Chapeuzinho Vermelho, os atalhos da vida e o Lobo Mau – Será que existe problemas em pegarmos atalhos para resolver facilmente os nossos problemas, mesmo aqueles que parecem enormes e sem solução? Se pegarmos o conto da Chapeuzinho Vermelho podemos usá-lo como metáfora para compreender o valor do caminho mais longo e os riscos reais dos atalhos que nos oferecem – principalmente quando vemos quem é o lobo que nos oferece tal atalho… […]

Deixe um comentário