Bullying, a vítima e a vitimização


Zangief Kid agride seu agressorFaz algum tempo queria escrever sobre bullying, não só porque esse tema está em voga, mas eu também sofri com isso na escola e quando era menor. Mas as contingências afetaram o meu tempo e quando consegui tempo para escrever, tive que atualizar o WordPress. Até parece que meu blog estava fazendo bullying comigo!

Mas quando saiu o vídeo do “menino Zangief” e todas as suas variáveis, eu achei interessante comentar sobre isso. Princialmente depois de ver um twit de um amigo sobre uma notícia de uma entrevista com o próprio menino, Casey Heynes. Ele, como várias vítimas de bullying, foi vítima desse ato cruel por vários anos. Mas, ao contrário de várias vítimas, ele não se vitimizou com o fato. Quero aqui fazer distinção entre essas duas posturas – entre a vítima e a vitimização – e afirmar que em nenhum momento estou desmerecendo o sofrimento de quem passa por isso.

Veja o Video no Videolog.tv.

Uma vítima é alguém que sofre alguma agressão. Neste caso, o agressor é o bully. Mas é interessante notar que, psicologicamente falando, todos temos uma parcela vítima e uma parcela agressora em nós mesmos. Jung notou que tudo o que aparece de forma consciênte apresenta um oposto inconsciente. Ou seja, se conscientemente eu sou vítima, inconscientemente eu também sou agressor, e vice-versa. Se eu me identifico com meu Ego, a minha Sombra sempre vai trazer o meu oposto dentro de mim.

Toda vítima já sonhou ou imaginou revidar a agressão ou ainda colocar seus agressores na posição de vítimas. Isso mostra como temos esse aspecto em nós mesmos, por mais que não o manifestemos. Ao mesmo tempo, todo agressor ou bully tem um lado vítima em si mesmo e que muitas vezes ele tenta esconder em suas agressões. Muitas vezes ele é vítima em sua casa ou ainda mesmo na escola por não ter notas tão altas quanto seus colegas – que acabam sendo suas vítimas em troca. Por isso, a psicologia popular diz que essas pessoas no fundo sentem inveja de suas vítimas e ao ridicularizá-las, só estão manifestando o desejo de ser como elas. Isso demonstra essa realidade psicológica de termos em nós mesmos o nosso oposto.

Claro, estou 100% atrás de você. Por que você pensa o contrário?

Claro, estou 100% atrás de você. Por que você pensa o contrário?

Essa relação vítima-agressor está presente em todos e é muito importante percebermos essa dinâmica justamente para não a ignorá-la. Pois, quando isso acontece, entra o papel da vitimização. Essa dinâmica ocorre quando a vítima não reconhece o seu papel de agressor, se identifica unicamente como vítima e acaba, dessa forma, agindo de forma agressiva com os outros – mesmo que inconscientemente. É o que os americanos chamam de “passive-agression” ou agressão passiva.

Os passivo-agressivos, ao se identificarem com a vítima e assim ignoram o seu lado agressor, acabam agredindo aos outros enquanto na aparência estão se colocando na posição de vítima. Isso é muito comum em casamentos, quando um conjuje se vitimiza e age como vítima enquanto agride psicologica e moralmente seu suposto agressor.

Por exemplo, um marido passivo-agressivo nunca irá bater em sua mulher, pois ele se reconhece como vítima de seus maus-tratos, falta de atenção, greves de sexo e qualquer outra manobra agressiva que o marido possa identificar. Ele, porém, ao se colocar como vítima, acaba agredindo a esposa. Ele pode dizer que “por mais uma vez” ele abre mão de sua sexualidade por causa das dores de cabeça da esposa, ou ainda “a comida estava ruim porque ela não o ama mais”, mostrando sutís ataques que à princípio não são percebidos mais com o acúmulo dessas agressões, elas podem provocar tanto ou mais mal do que um soco direto nos dentes.

Nas escolas, não é diferente. Vítimas de bullying acabam sofrendo muito nas mãos de seus agressores. Muitos entram no estado de vitimização e acabam, enquando se colocam como vítimas, agredindo seus agressores. Um menino que, ao menor sinal de ameaça corre para os professores na esperança de que seus bullies sejam punidos está sendo agressor também, mas de forma velada. Uma menina que, ao se sentir ofendida por outras meninas espalha mentiras e boatos na escola como forma de defesa, está se vitimizando e agredindo as bullies. Um jovem que se sente ofendido pode desabafar em seu blog sobre isso, mas acaba xingando e agredindo verbal e moralmente seus agressores enquanto se vitimiza. Não estou aqui falando de mérito ou se os agressores merecem ou não essa revidação, mas somente que a pessoa vitimizada também se torna uma agressora passiva e velada.

O vitimizado é o verdadeiro lobo em pele de cordeiro

O vitimizado é o verdadeiro lobo em pele de cordeiro

Não temos como fugir da relação agressor-vítima. Todos temos esses dois lados. Quando fugimos de sermos agressores, nos vitimizamos, identificando com a posição de vítima e assim agindo inconscientemente – e frequentemente negando a ação – como agressores, agimos como passivo-agressivos. Sob a pele de vítima acaba surgindo um grande agressor. O vitimizado é o verdadeiro “lobo em pele de cordeiro”.

Ao invés de alimentarmos a cultura da vitimização, devemos sim reconhecer a dinâmica vítima-agressor. Não estou dizendo que devemos valorizar a agressão, mas sim reconhecê-la como real. Todo agressor é também vítima em algum nível e se queremos reconhecer o problema do bullying, devemos também reconhecer essa realidade dos bullies. E toda vítima também deve se reconhecer como agressor e, se necessário, deve agir com agressividade direta e não velada. A ação passivo-agressiva é mais prejudicial que a agressividade direta, pois na primeira tornamos a vítima a única responsável pela agressão sofrida. Entra aí a dinâmica prejudicial da culpa novamente.

Casey Haynes, a vítima de bullyinhg que não se vitimizouA lição que devemos aprender com Casey Haynes, o Zangief Kid, é que não devemos nos vitimizar: ao contrário, devemos nos colocar como principais agentes da nossa vida e fazer algo com ela. Se nos colocamos passivamente à mercê dos mais fortes, a vida nunca irá acontecer para nós. Mas se conseguirmos enfrentar o nosso problema de frente, sem querer fugir dele, pode ser que saiamos com um osso quebrado ou algum machucado, mas teremos ao menos a satisfação de saber que somos donos da nossa própria vida e que sim, temos a condição de enfrentar os nossos problemas de frente e não atacando de forma passiva-agressiva.

Se a escola quer resolver o problema, não adianta coibir a agressão, pois ela vai continuar existindo justamente através da proibição que é agressiva. A escola precisa reconhecer o problema e identificar onde o bully está sendo vítima ou como essa dinâmica está acontecendo entre os alunos. Só então será possível fazer alguma coisa. Ou por acaso alguém pensou que o bully de Casey Heynes pode se sentir uma vítima também?

Se uma coisa os anos de bullying sofrido na escola me ensiraram é que não adianta fugir de nossos problemas, pois eles sempre existirão. Pensei em mudar de escola para fugir dos agressores, mas percebi que só encontraria novos bullies. Mas também não adianta aceitarmos passivamente, pois aí nos transformamos em agressores também. Devemos sim olhar de frente quem nos agride e tentar resolver da melhor forma possível o problema, mas sem nunca apelar para a vitimização.

Comments (22)

  1. olá estou sendo vitima de bulling fiquei bravo até pensei em brigar eu estou certo o que posso fazer qual melhor coisa que posso fazero que fazer com a pessoa que faz isso ,como denunciar é necessario denunciar?

  2. Kathyellen

    Sim Rogério, o melhor que tem a fazer é denunciar, conta para seus familiares a amigos também o que você tem passado, brigar não resolve nada e se calar também não!

  3. joao neto

    gostei muito sobre sua historia…

  4. Keila

    Minha filha esta sendo vitima de bully na escola,e eu nao sei o que fazer ja procurei o direção da escola e não resolveu,no dia 28/09 ela apanhou muito na porta da escola,esta com ematomas,e com depressão não sei o faço.

  5. […] e o Zangief Kid Bullying, a vítima e a vitimização Propaganda do pai com vergonha do filho Pó de Cash sobre Assédio Moral Monacast 95 – Bullying e […]

  6. Yasmin Baron

    Por isso que as crianças que sofrem nunca realmente melhoram. Psicólogos de merda como você as colocam como culpadas do proprio sofrimento. Há uma cultura ridicula no mundo atual de aceitar os agressores como verdadeiros e pessoas que tentam ser boas como falsas e hipocritas. Vocês psicologos não ajudam em nada.

    • Olá, Yasmin!
      Não tenho costume de responder aos comentários no blog, mas o seu me chamou a atenção por um fator bem bacana que havia comentado no meu post: a postura passivo-agressiva. No meu texto, coloquei um link para uma imagem que ilustra bem o que é isso. Vou colocar essa imagem aqui para você ver com calma:

      Essa imagem diz: “Decidi gastar mais tempo criticando coisas que não compreendo”, mostrando a postura passivo-agressiva de só mostrar defeitos em coisas que não compreendo. Quero agradecer o seu comentário, pois ele ilustrou muito bem o que quis mostrar com isso!
      Quero aproveitar e convicá-la a ler meu artigo sobre a Culpa e seus problemas. E também fiz um episódio do meu podcast sobre isso, onde converso com um amigo justamente sobre a culpa e esclareço esse conceito. Mas só para adiantar, existe uma diferença fundamental entre “culpa” e “responsabilidade”, da mesma forma que existe uma diferença entre “vítima” e “vitimizado”: um deles é ruim e o outro é bom. Será que se você estudar mais um pouco consegue finalmente compreender a diferença?
      Enfim, novamente, muito obrigado por comentar aqui no meu blog e sinta-se à vontade para voltar e responder quando quiser!

      • suzeli

        Muito boa sua explicação, pois muitas vitimas as vezes são a culpadas por serem agredidas ou ofendidas, quem nos garante que antes dela agredir alguém elas já não tenham uma grande bagagem de frustrações desaforos e humilhações das que possivelmente se diz vitima.

  7. waldecir

    Achei interessante seu texto, mas tenho dúvidas sobre uma questão:
    Se você tivesse um filho que sofreu agressão no colégio a ponto de ficar com hematomas, e por fim agressor viesse até você procurar tratamento, visto que ele também é vítima, qual seria a sua posição? A como você pode fazer algo que não lhe Classifique como agressor ou passivo agressor? De quer maneira você se classificaria como agressor tanto quanto o agressor de seu filho?
    Se possível gostaria que respondese diretamente no blog, ajudaria não só a sanar minha dúvida, mas com certeza de outros que leram seu texto. Obrigado.

  8. […] e atual, tanto é que fui convidado pelo pessoal do Papo de Gordo para gravar um podcast sobre bullying! A conversa foi muito bacana e foi muito bem recebida. Porém, como todo papo polêmico, teve […]

  9. bomm,eu acho bullying uma as cosias mais seria do mundo,se eu por ex fosse o vila,q bate em tds,eu pararia pq isso nn leva a nem um lugar,quer dizer so leva p caminho mal da vida,cm drogas e brigas e tds mais.eu to dizendo isso pq ja sofri bullying quand estava na quinta serie,bom eu tinha errado mais tinha me desulpado,so q as minhas colegas foram longe dms,dms mesmo,eu nn iria td hr fica me perdoando,
    elas q diziam q eras minhas amgs e agoras umas delas nem olha p minha cara.so sei q eu acho q sofri,se vcs sober da minha historia,acho q vcs vao perceber ;]
    PAREM COM O BULLYING, ISSO É SERIO.

  10. Ronan Rocha

    Mais uma vez, estamos aqui reunidos para debater um tema que causou tragédia em algum lugar do país…e só depois disso, como sempre, (Típico costume brasileiro) é que autoridades, responsáveis e interessados no assunto se manifestam. O antigo bullying.
    se formos analisar bem, o bullying existe em todo o mundo, não só nas escolas mas em todo canto, inclusive o próprio governo pratica bullying com a população, de uma forma bem indireta. e como combater isso? NÃO EXISTE SOLUÇÃO! e sinceramente, os responsáveis pela educação já tiveram chances e tempo demais para resolver esse antigo problema. De nada adianta tentar educar nossas crianças para o amanhã se hoje o mundo, através da TV e da mídia, influencia os mesmo a serem violentos, burros e retardados. Na minha opinião, e na realidade mesmo, é só assistir a decadência humana para o pior.

    Ronan Rocha

  11. Felipe

    Você simplesmente reduziu relações complexas a um esquema dual de interação entre passividade e agressividade…Concordo que Yasmim se exaltou em sua crítica, porém simpatizo com a raiva fundamentada que ela sente, não creio que uma pessoa que sofra violências desenvolva um comportamento passivo-agressivo por puro gozo. Conheço muito pouco de Jung, mas sinto um certo maniqueísmo aí, bem e mal, passivo e agressivo, etc…são teorias um tanto cristãs, feitas para uma sociedade cristã em que moralmente agredir ao outro é uma transgressão ética sinistra, pois corrompe a natureza “divina” do “individuo moderno” (que só é sagrado até que interesses de outras ordens o dessacralizem)…agora, qual será a solução que você oferecerá para Yasmim? Dizer que ela é passiva-agressiva é a solução? Rotulá-la? transformá-la em um sintoma? Mandar ela espancar as pessoas que a agridem? Mandar ela se cortar por que ela internalizou essas agressões (conscientemente provocadas por outros e com o objetivo de controlá-la…e aí me pergunto, por que algumas pessoas se esforçam por tentar controlar os outros culpabilizando-as)? Se existe uma conduta passiva-agressiva ela com certeza foi edificada em nome de uma cultura que valoriza tais características, quiçá, as inventa. Se existe um elemento de prazer masoquista ou sádico, cabe entender sua dinâmica, sua atualização. Nomenclaturas não curam pessoas. E sinceramente, sua resposta foi tão “passivo-agressiva” quanto a de Yasmim, esclareça-se, as pessoas tem motivos que lhes são próprios e desconsiderá-los em nome de modelos analíticos previamente estruturados (sejam eles modelos cognitivos, comportamentais, mentais, etc.) não as ajuda em nada. É bom pensar qual é a contribuição que se tem para oferecer quando se trabalha desta forma.

  12. Felipe

    Muito bom o texto professor, pelo menos esclareceu muita coisa para o nosso trabalho.

  13. junia tamires

    fui vitima de bulyng tanbem estavo na escola e fui ate a sala do meu irmao chegando la dois garotos e bateu ne nos mas nao foi so aquele dia foi ate eu tomei atitude quando estavo passando na rua ele estava na rua jogando bola eu e minha amiga ela passo e quando eu fui passa ele me sercou e falou vc nao vai passa eu tirei o brasso dele e passei fui ate a casa dele vi a vo dele na rua e falei pra ela tudo que aquele garoto fez comigo ela me ouvil e chamou a mae dele pra ir busca ele depois desse dia nao mecheu comigo mais agora eu penso se e porcausa da cor minha e do meu irmao que ele e mais branco co que nos

  14. junia tamires

    descupe os erros

  15. Marisa

    Encontrei este artigo enquanto procurava entender exatamente o papel de agressor/vítima. Tenho uma filha que aparentemente fica pulando entre os dois papéis. Sofria bullying calada e passou a ser agressora em outra escola, após eu ter pedido que se afastasse daquela turminha passou a ser vítima novamente. Me parece que faz parte da turma para não ser alvo dela, mas como ter certeza?
    Os adultos que a acompanham sempre dizem que tem ótimo comportamento.
    O artigo refletiu minha visão sobre o assunto, mas não me ajudou a quebrar esse ciclo vicioso.

  16. hemily

    so fa do carinha maior q alem de sofre com o bully colocou respeito´video´

  17. […] justifica a técnica, que em si justifica o resultado. Mas e o sujeito que está lá, sendo vítima […]

  18. Palmira Paiva

    Bom dia,
    Gostei muito de ler o que escreveu. Gostei da honestidade e da coragem intelectual com que fala de Bullying. Saindo dos lugares comuns que em nada nos ajudam.

  19. Fui vitima de bullying e xenofobia a dias atras e usei como resposta instintiva a agressão que foi mais rapida do que meu pensamento.
    Confesso que me sinto um tanto quanto culpado com a minha reaçao que, pensando melhor, nao deveria ter sido a agressão, e sim, o dialogo ou até, fugir do problema, mas como senti na pele durante muitos anos atos de xenofobia, essa situação escapou do meu controle e agora me sinto um tanto quanto culpado por essa ação.
    Caro Pablo, gostaria de, se possivel, tentar entender a minha atitude, pois nao concordo com a agressão, mas nesta situação, nao tive outra escolha senão, um soco na cara do xenófobo agressor.

    • suzeli

      Oi André entendo sua atitude como você mesmo relatou vice por impulso na hora de raiva acabou agredindo, coce foi vitima por muito tempo e agora te tratam como agressor e culpada, isso acontece muito a vitima acaba se tornando réu. É o que estamos tentando explicar num trabalho de Faculdade que estamos ajudando uma amiga a fazer, que o agressor nem sempre é culpado pois, como no seu caso coce agrediu porque se cansou de ser humilhado se isso que entendi do seu caso!! Você é aprova que muitas vezes a vitima se tornar agressor e o assessor se torna vitima esse assunto é muito complexo. Não se sinta culpado pois você apenas se defendeu só não deixa isso fugir do seu controle o melhor a fazer é denunciar essa pessoa e processa-la.

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