Homossexual… idade… ismo… o que é mesmo o sexo?


Homossexual... idade... ismo... o que é mesmo o sexo?Ouvindo e lendo pela internet várias opiniões sobre homoafetividade ou homoerotismo, me deparo com vários conceitos e desconceitos sobre o tema. Queria tentar abordar uma dessas questões sob o ponto de vista histórico e psicológico. É claro que não conseguirei esclarecer todas as dúvidas ou abordar todos os pontos sobre o assunto, mas tentarei ao menos esclarecer algumas questões. O que quero tratar é justamente é justamente a história por trás da homossexualidade e dos nomes que usamos para designar esse comportamento.

Homossexualidade ou Homossexualismo?

A primeira questão aqui é sobre o nome que damos para essa condição. Alguns dizem que o correto é falar “homossexualidade” porque “homossexualismo” seria doença. Outros não estão nem aí para isso, pois se assim fosse, cristianismo, espiritismo, capitalismo, marxismo, tudo isso também seria doença. Antes de dizermos o que é o correto, temos que compreender de onde vieram esses nomes?

Para começo de conversa, o termo “homossexual” é relativamente recente e data de meados do século XVIII, quando ele foi descrito como uma doença ou condição discriminante. Antes disso, a palavra não existia e não era usada! Então fica complicado dizer que qualquer pessoa antes disso era homossexual ou não. O que aconteciam eram comportamentos que os pesquisadores atuais chamam de homoafetivos ou homoeróticos. Mas todos esses comportamentos tinham o seu contexto cultural.

Relação sexual na Grécia antigaSe voltarmos ao maior exemplo de comportamento homoafetivo, a Atenas clássica, podemos perceber como isso acontece. Muitos dizem que a Grécia como um todo era homossexual, o que é uma mentira. Para começar, ninguém antes do século XVIII era homossexual. Segundo, se assim fosse, não haveriam nascimentos na Grécia. Temos que compreender o comportamento sexual da época para perceber como era isso. Para começar, já vou dizendo que essa prática era mais comum em Atenas que em outras cidades, como Esparta ou Corinto.

Acontece que em Atenas era muito comum a democracia. A democracia, ao contrário do que acham, não é o “governo do povo”, mas sim o governo do cidadão. Um cidadão ateniense era um homem adulto livre nascido na cidade, ou seja, mulheres, escravos, servos, crianças e estrangeiros não eram considerados cidadãos. A política da cidade era feita pelos cidadãos e as ações dos cidadãos eram feitas entre os cidadãos. Eles, além de política, filosofavam e discutiam e se diveritam e faziam tudo entre si. Inclusive a prática da sexualidade por prazer também era feita entre cidadãos. É claro que eles conheciam o conceito de sexo por reprodução e até mesmo muitos cidadãos eram casados e tinham filhos, mas o prazer e a diversão não era feita com mulheres, pois elas eram vistas como objetos ou propriedades. Mulheres eram simples parideiras – inclusive a palavra grega para mulher gyneko, significa literalmente “parideira”.

Então, em Atenas, mais do que uma valorização do comportamento homossexual, existia uma desvalorização da mulher em todos os sentidos. Sobrava então ao homem o comportamento homoerótico ou buscar prazer sexual com outro homem. Os jovens, inclusive, eram iniciados socialmente, também, através de práticas sexuais com outros homens. Não havia necessariamente penetração, mas sim estimulação genital. Eles, então, não eram homossexuais, porque essa prática sexual ateniense não se compara em nada com a prática sexual que temos home em dia.

Diante disso, podemos compreender que as práticas sexuais são culturais e cada cultura possui seus limites e organizações. Lembro-me até de ver uma entrevista no Jô Soares há muito tempo onde um índio de uma tribo do Amazonas dizia que em sua tribo não haviam homossexuais e que isso não era uma questão de preconceito, mas sim que em sua cultura o papel do homem e da mulher e do sexo estão tão definidos que não haveria espaço para essas outras manifestações. Isso, em si, já daria um outro estudo enorme sobre sexualidade!

As várias formas de se amar foram classificadasMas então, e a questão do nome?

No século XVIII, com o Iluminismo na Europa e a valorização do pensamento científico, houve uma necessidade de classificar tudo, inclusive o comportamento sexual. Por mais científica que a sociedade fosse, o pensamento religioso ainda imperava. E aqui temos que fazer outra pausa para refletir sobre a influência da religião sobre a sexualidade…

Podemos dizer que a religião “oficial” do ocidente é o cristianismo, ou ao menos a grande maioria dos países ocidentais tem como maioria representativa o cristianismo. Isso quer dizer que pensamos sobre o cristianismo como algo natural, cultural e geralmente não questionamos seus valores.

Porém, antes do cristianismo, existiram várias outras religiões que iam além do judaísmo. E muitas dessas religiões inclusive se utilizavam de práticas sexuais. Os seguidores romanos do deus Baco, tinham as bacanais, conhecidas hoje em dia como “orgias religiosas”, onde a prática do sexo e da intoxiacação por álcool era norma. Ao mesmo tempo, os seguidores da deusa Vesta, conhecidas como vestais, praticavam a castidade ritual. O sexo era uma função importante para a religiosidade antiga, seja pela prática ou pela castidade.

Foi com o advento do cristianismo que a sexualidade perdeu espaço. E era necessário que isso acontecesse! Se a sexualidade permanecesse, as práticas das antigas religiões também iriam continuar. O judaísmo, que serviu de base para o cristianismo, conseguiu sobreviver tanto tempo justamente pela imposição da castidade, pois assim haveria uma pureza do sangue e uma asseguração da continuidade da cultura que não se perderia no meio das outras. O cristianismo trouxe o mesmo pensamento.

O sexo para o cristianismo deveria ser unicamente no casamentoO sexo, para o cristianismo, deveria servir unicamente para a procriação. Dessa forma, garantiria-se a perpetuação da cultura cristã, sem se misturar ou perder diante das outras que pregavam a sexualidade como caminho religioso. Passaram-se então séculos com essa cultura, onde o sexo só poderia servir para a reprodução. Houve então a valorização do amor romântico e o casamento por amor – isso na idade média ainda, por influência árabe. O casamento na sociedade ocidental passou a ser o único local onde a prática sexual era permitida, e somente para fins de reprodução, para santificar a criação divina.

E, voltando ao iluminismo, eles precisavam classificar tudo. Ao se falar de sexualidade, definiram o padrão cultural do casamento cristão como o correto e o chamaram de heterossexual, por se tratar de um encontro sexual entre diferente (um homem e uma mulher) e todo o resto era errado, como o homossexual, o que se encontrava sexualmente com um igual (homem com homem ou mulher com mulher). Mas essa não era a única prática sexual abominada pela sociedade: tínhamos também a poligamia, onde um homem casava-se com mais de uma mulher (como ainda acontece entre alguns povos árabes) e a menos conhecida poliandria, onde uma mulher casa-se com mais de um homem, o que acontece em poucas tribos espalhadas pelo mundo. Nada disso era aceito e era visto como desvio ou até mesmo doença.

Como é tratado o relacionamento entre homossexuaisA noção de doença ganhou força com o crescimento da medicina. O homossexualismo, ou condição de ser homossexual, era sinônimo de doença e que deveria ou poderia ser curado, justamente por ir contra os padrões ditos naturais de procriacão. Isso ganhou força por dois séculos, até meados do século XX, na década de 70, com a dita “Revolução Sexual”, onde o sexo voltou a ganhar importância e vista como meio de se ter prazer, além de procriar. As mulheres também passaram a ser mais valorizadas e seus desejos reconhecidos. Foi nessa época também que se propós deixar de tratar o homossexualismo como doença.

Para isso, disseram algo como, “se mudarmos o nome, o estiga some!” e então passaram a chamar de “homossexualidade”, ou qualidade de quem é homossexual. Mudou-se o nome, mas o estigma continua. Hoje, ser homossexual pode não ser visto como doença, mas ainda é carregado de preconceito, independentemente de como o chamem. Na prática, não importa como se classifica, pois, ao se classificar, já se coloca o estigma do diferente. O mais engraçado é que essa classificação não tem mais do que 200 anos e antes disso, nem se era pensado!

Ama-se quem se querPessoalmente, como pesquisador, prefiro chamar a condição do homossexual de homossexualismo, da mesma forma que falo de cristianismo ou marxismo ou capitalismo ou romatismo ou cientificismo – como um grupo de ideias e conceitos que posso utilizar para classificar alguma realidade. E utilizo o termo homossexualidade para me referir à questão cultural do homossexual hoje em dia. Ser homossexual não é só gostar de pessoas do mesmo sexo, mas se comportar segundo uma cultura própria, com práticas e até mesmo linguajares próprios.

O mais engraçado é que essa mesma cultura, ao se tentar diferenciar da cultura machista e heterossexual dominante, acaba reafirmando-a, dizendo que o homossexual precisa ser diferente do “normal”. Criamos então pré-conceitos de diferença e até mesmo o homossexual acaba sendo preconceituoso ao querer se afirmar como diferente, ao se portar como diferente só para marcar presença. Ele afirma, com sua postura, que a sociedade dominante, ao ser errada em não aceitá-lo, está certa ao manter esses padrões para homens e para mulheres. Se é homem, você gosta de mulher e se você gosta de homem, você é mulher: por isso homossexuais homens se portam como mulheres, como resposta direta não à liberação homossexual, mais sim ao heterossexismo, ou o padrão da diferença.

E o que fazer então com o pré-conceito

Pessoalmente, eu vejo que para acabar com o preconceito é necessário acabar com as diferenças e as separações. Não precisamos de rótulos, de títulos, não precisamos de nomes como gays, lesbicas, bissexuais, heterossexuais, transexuais, transgêneros, etcs. Só precisamos aceitar uma coisa: somos todos pessoas, todos amamos e todos sentimos prazer. Se uma pessoa prefere homens, ótimo pra ela. Se prefere mulheres, ótimo também! Se quer os dois, melhor ainda! É como um homem preferir loiras, ou mulheres com seios siliconados ou as gordinhas ou mulheres preferirem homens carecas ou com barriga: é preferência do que mais gosta. E nem por isso chamamos de loirossexuais ou siliconossexuais ou carecossexuais! Não precisamos classificar nossos gostos ou desgostos sexuais, muito menos tentar descobrir de onde veio ou pra onde vai: só precisamos nos permitir amar e gostar e ter prazer com o outro, e sermos amados e gostados e que tenham prazer conosco também. Não somos intrinsica ou naturalmente hetero ou homo ou bi ou pansexuais: somos simplesmente seres sexuais. Se aprendermos a aceitar isso, não iremos ter problemas com preconceito, homofobia, heterofobia ou qualquer outra cosia assim. Mas será que conseguiremos abrir mãos dos rótulos? Na real, acho mais difícil abrirmos mãos dos rótulos e da necessidade de rotular do que do preconceito ao homossexual…Devemos respeitar todas as formas de amor

Se quiserem ouvir o papo que me inspirou a escrever sobre isso, ele está aqui, no Piratacast, do pessoal do Baú Pirata. E também irei publicar outros textos sobre o assunto, então fiquem ligados aqui!

Comments (9)

  1. Rocco

    Gostei muito.
    “…loirossexuais ou siliconossexuais ou carecossexuais…” hahahaha

    Só não concordo em: “e até mesmo o homossexual acaba sendo preconceituoso ao querer se afirmar como diferente, ao se portar como diferente só para marcar presença”. Isso pareceu generalizar os gays que agem assim como se eles fizessem de propósito. Não sei dizer por conhecimeto de causa, mas duvido que não façam o que fazem por naturalidade.

  2. Caro Rocco,
    Nem todo preconceito é por conhecimento de causa. A maioria das ações preconceituosas são por desconhecimento de causa, pois se se conhecesse a causa, não seria um pré-conceito e sim um pós-conceito. Além disso, ao se afirmar o preconceito de um lado, afirma-se também do outro lado. Ou seja, se eu digo que sofro preconceito por ser gordo, por exemplo, eu estou sendo preconceituoso também, porque estou afirmando que existe um conceito prévio sobre ser gordo. No caso dos homossexuais acontece a mesma coisa, pois eles afirmam que existe um conceito prévio sobre a homossexualidade.
    É claro que esse é um problema delicado, pois quem sofre desse preconceito sabe que as outras pessoas trazem esses conceitos prévios e não há como negá-los, muito menos negar o pesar sofrido. Porém, querer reafirmar esse preconceito não ajuda o problema. É preciso encontrar um outro caminho, que é o que eu defendo aqui: perceber que o problema está nos rótulos. Não adianta dizer que temos que aceitar os homossexuais e continuar rotulando as pessoas como homossexuais e heterossexuais, pois os conceitos prévios dos rótulos continuarão: é necessário acabar com os rótulos como um todo e perceber que todos somos pessoas que amam. Simples assim. =)

  3. Zilceano

    Parabéns Pablo. Otimo texto. Como sempre. Acho que sua pesquisa histórica e sua formação reforçam o seu argumento. Minha opinião se resume ao que vc disse.
    “… essa mesma cultura, ao se tentar diferenciar da cultura machista e heterossexual dominante, acaba reafirmando-a, dizendo que o homossexual precisa ser diferente do “normal” …”
    “…Só precisamos aceitar uma coisa: somos todos pessoas, todos amamos e todos sentimos prazer. Se uma pessoa prefere homens, ótimo pra ela. Se prefere mulheres, ótimo também! Se quer os dois, melhor ainda! É como um homem preferir loiras, ou mulheres com seios siliconados ou as gordinhas ou mulheres preferirem homens carecas ou com barriga: é preferência do que mais gosta. E nem por isso chamamos de loirossexuais ou siliconossexuais ou carecossexuais! …”
    Essas frases no seu texto abordam os conceitos chaves na minha opinião.
    Primeiro ponto claro. Não tentem se diferenciar.
    Sub-culturas vão se criando, e se “enfraquecem”, e começam a ser vistas como minorias. A questão pra mim sempre foi. Por que separar, se a gente pode fazer mais juntos.
    Segundo ponto. Concordo com a sua ideia de “gostos diferentes”. Loiras, morenas, carecas, homens, mulheres, feios… tem gosto pra tudo né.
    Em resumo eu sempre vejo que as pessoas se cercam de muralhas que mais as afastam do que as aproximam. Ficam na defensiva. Sei que houve tempos em que pessoas com preferencias sexuais diferentes sofreram bastante. Mas acredito também que essas atitudes preconceituosas estçao se tornando tão infantis quanto dizer que: Você é feio, bobo, com cara de melão e eu não te chamo mais pra dormir na minha casa.
    Sucesso.

  4. [...] tema da homossexualidade ainda é uma questão controversa. Nossa sociedade ainda não compreende o tema, muito menos a [...]

  5. [...] compreender o que é “homofobia”. A definição de homofobia é a raiva ou repulsa por homossexuais. Existe aí um pequeno erro por parte de algumas pessoas que associal o sufixo -fobia a medo, [...]

  6. [...] diante das mais novas polêmicas sociais envolvendo famílias homoafetivas e os direitos dos homossexuais, ouvi uma crítica de que o movimento a favor do direito dos homossexuais estava tão intenso que [...]

  7. Melhor texto que já li sobre o assunto. Parabéns.

  8. [...] faça sentido, o Deputado João Campos previsa ver como direito do psicólogo propor cura de homossexualidade para seus pacientes e como essa regulamentação tira esse direito do profissional, ela está na [...]

  9. […] cisgênero que aprendemos na escola (homens que se casam com mulheres e vice-versa), até os homossexuais cisgêneros (homens que gostam de homens e mulheres que gostam de mulheres) e os transgêneros (que […]

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