Mais um tema polêmico, mas essa é uma questão que vem surgindo repetidas vezes com meus alunos. Não posso deixar passar. Quem já me ouviu falando sobre isso sabe que eu tenho uma opinião clara sobre isso e até agora não conheci argumentos que pudessem me convencer do contrário. Quem nunca me ouviu, poderá ler agora minha opinião sobre as “psicoterapias cognitivo-comportamentais”: SOU CONTRA e não recomendo a ninguém. Aqui poderei expor por quê.
Antes de começar a falar, já adianto que sei que haverão muitas críticas dos defensores dessa “pseudo-abordagem”, mas já adianto que tentarei responder a essas críticas antes que elas sejam feitas aqui. Outra coisa que devo acrescentar antes de prosseguir é que meu fundamento para tal posicionamento está em questões epistemológicas, metodológicas e políticas relacionadas à psicologia e espero que, caso eu venha a ser criticado, que essas críticas sejam no mesmo nível. Não estou aqui menosprezando nenhum psicólogo específico, muito menos seus pacientes. Somente quero alertar meus leitores para os riscos dessa abordagem, riscos esses que poucos – ou quase ninguém – conhecem.
Acho que um bom começo de todas essas exposições seria uma explicação histórica, para situar o leitor que não sabe de onde veio isso. A Terapia Cognitivo-Comportamental, daqui para frente referida como TCC, surgiu na junção de duas outras terapias, a Terapia Cognitiva e a Terapia Comportamental. Ambas essas terapias possuem embasamentos próprios, pressupostos teóricos e metodológicos. Porém, a TCC não possui nada disso.
As terapias comportamentais (sim, são mais de uma, mas como não trabalho nessa área, não as conheço a fundo) se baseiam nas teorias da Psicologia Comportamental e da filosofia do Behaviorismo Radical, criada por B. F. Skinner. O Behaviorismo Radical defende que todas as ações do organismo humano são comportamentos controlados e que seguem às leis do comportamento, como o reforço (que diz que um comportamento reforçado tem a probabilidade maior de voltar a acontecer), punição, etc. Ele também diz que todo comportamento tem um antecedente e um consequente. O antecedente “chama” o comportamento em questão, enquanto o consequente o reforça para aparecer mais ou menos vezes num futuro quando surgir tal antecedente. Essas relações entre antecedentes, comportamentos e consequentes formam uma “teia” de comportamentos operantes, pois operam no meio e são operados pelo meio.
Resumindo: todo comportamento – desde ações até pensamentos e memórias – são controladas pelas contingências do meio. Consequentemente, as teorias comportamentais partem do pressuposto que para se alterar o comportamento é preciso controlar o ambiente controlador, ou exercer o contra-controle. Assim, a terapia se dá ao se tomar conhecimento do ambiente que nos controla e modificando-o, para alterar as contingências que nos controlam. Todo o trabalho está na relação d sujeito com o meio, com o ambiente.
As terapias cognitivas (sim, também são mais de uma) se inspiram no trabalho de um psicólogo chamado Aaron Beck. Ele fora psicanalisa durante certo tempo e, ao tratar de pacientes com depressão, percebera que a técnica psicanalítica não dava os resultados esperados e que os pacientes com depressão apresentavam melhoras em seus sintomas com ou sem a terapia psicanalítica. Ele então encontra subsídio na nascente teoria cognitiva que nasce – entre outras questões – como uma crítica ao behaviorismo de skinner, além de se aproximar dos recentes (da época) estudos de neurologia e cibernética. A psicologia cognitiva diz, entre outras coisas, que os comportamentos são controlados não pelo ambiente mas sim pela mente. A mente é formada pelos processos cognitivos da memória, consciência, percepção, atenção, etc.
A terapia cognitiva de Beck constrói então um modelo inspirado nisso e diz que os problemas psicológicos se constróem sobre crenças nucleares disfuncionais. Essas crenças acabam construindo sentimentos disfuncionais que, por sua vez, influenciam nossos pensamentos que controlam os comportamentos. Alterando-se as crenças, altera-se os sentimentos e pensamentos e comportamentos que se apresentam como patológicos.
Acontece que historicamente, só duas grandes teorias tiveram sucesso e nome: a psicanálise, que parte do pressuposto do inconsciente e que tal inconsciente é imutável e define todo o nosso desenvolvimento, e o behaviorismo, que parte do pressuposto do comportamento que é aprendido e pode ser alterado. Como então fazer com que outras propostas de terapia consigam espaço num meio tão desconhecido e pouco divulgado?
É então que um grupo de terapeutas cognitivos resolvem adotar o nome de TCC, agregando o “comportamental” ao seu nome. A tentativa era de marketing, para agregar uma marca conhecida a um produto desconhecido. Alguns terapeutas comportamentais gostaram da bricadeira e aceitaram o nome, pois isso dava um ar novo e diferente ao seu trabalho. Mas no início não passa disso: de um nome comum para duas terapias diferentes que se conversavam em alguns pressupostos, como o da aprendizagem e da possibilidade de mudança através da terapia.
Porém, com o tempo, começaram-se a criar verdadeiros monstros de Frankenstein com a TCC. Pegavam-se as melhores e mais recomendadas técnicas cognitivas e juntavam-se às melhores e mais recomendadas técnicas comportamentais. A TCC então se fundamenta enquanto uma prática baseada e justificada pelos resultados de suas técnicas que – obviamente – funcionam. O maior argumento a seu favor é justamente esse: pega-se o que existe de melhor das duas teorias para se criar uma terapia melhor para o bem-estar do paciente; dessa forma age-se mais rápido e com maior eficácia.
E é justamente aí que os problemas começam. Não que eu não seja a favor do bem-estar dos pacientes, mas não sou a favor se esse bem-estar é às custas de outros valores essenciais. Mas antes de falar sobre isso, queria apresentar meu argumento político, que talvez seja o mais convincente.
Talvez os maiores propagadores da TCC sejam os médicos e psiquiatras. Geralmente quando eles falam de tratamento de transtornos mentais eles, eles dizem que o tratamento é uma associação do uso de algum medicamento aliado à TCC. Para o leigo e para os profissionais não antenados, isso pode parecer uma recomendação sensata, mas não percebem que isso é uma recomendação política: ao indicar a TCC, eles apontam para a hegemonia e supremacia da medicina sobre as outras profissões da área da saúde.
É de conhecimento tácido e velado (ou seja, não é falado publicamente e qualquer pessoa envolvida irá negar) que os médicos recebem financiamento das indústrias farmacêuticas para receitarem seus remédios. Já ouvi de diversas pessoas que muitos médicos mal ouvem os pacientes e já querem receitar antidepressivos ou ansiolíticos – ou outros remédios de venda controlada - muitas vezes sem necessidade. Isso pode mostrar algumas coisas: os médicos não estão interessados no paciente, somente no tratamento da doença a qualquer custo para responder a uma demanda social; ou os médicos já estão tão condicionados pelas indústrias farmacêuticas que eles já nem pensam mais antes de receitar remédios.
Supostamente, para cada receita retida na venda de remédios controlados, essa receita volta para a indústria que controla sua venda e essa empresa bonifica os médicos com presentes e até viagens para eles e suas famílias. É claro que com um incentivo desses, os médicos vão querem vender os remédios.
E o que isso tem a ver com a TCC? A TCC é um conjunto de técnicas cognitivas e comportamentais. Quem as aplica, acaba sendo isso: um técnico. Já ouvi de vários médicos que psicólogos e outros profissionais, como fisioterapeutas, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais, são meros técnicos dos médicos. Mas se um psicólogo se fundamenta unicamente através das técnicas, ele só pode ser um técnico dos médicos mesmo! E assim, tenta-se manter essa hegemonia da medicina.
Quanto mais psicólogos aderirem à TCC, mais os médicos irão se fortalecer. Os tratamentos médicos terão cada vez mais “sucesso”, ou seja, as pessoas apresentarão cada vez menos sintomas e de formas cada vez mais rápidas. O problema é que tudo isso é feito às custas de toda uma classe. Os outros psicólogos que, por qualquer motivo, não trabalham com a TCC, acabarão sendo mal-tratados tanto pelos médicos quanto pelos submissos terapeutas cognitivo-comportamentais que, além dos bons olhos dos médicos e de seus pacientes, tem cada vez mais os bons olhos da mídia, que não sabe o que é uma boa psicoterapia.
Um outro problema disso é que com essa expansão dessa visão médica sobre os transtornos mentais, passa-se a compreender menos essas condições. Médicos tradicionalmente tratam doenças. Com eles tratando dessa forma somente os sintomas psicopatológicos, irá se perpetuar a noção de “doença mental”, algo que os profissionais da saúde tentam abolir há algum tempo (mais de 20 anos pelo menos). Os transtornos mentais são condições psicossociais que modificam nossa relação com o mundo e com a vida, mas nem por isso devem ser eliminados. É claro que muitos deles, como as esquizofrenias e transtornos psicóticos, provocam enorme sofrimento para a pessoa e suas famílias, mas outras, como a depressão e até mesmo o pânico, por exemplo, podem apresentar excelentes oportunidades de auto-conhecimento para quem sabe vivê-los. Eu sei disso porque eu mesmo fui diagnosticado com depressão e pânico e aprendi um monte sobre mim mesmo através dessas condições.
Terapeutas cognitivos e terapeutas comportamentais possuem visões de mundo que podem concordar com essa visão mais ampla, pois poderão respeitar tanto as condições de um meio que possa favorecer um crescimento apesar da depressão ou às crenças que embasarão aprendizado em momentos de crise. Mas um terapeuta cognitivo-comportamental não consegue fazer isso, pois ele não tem uma visão de mundo ou uma visão de humano: ele só possui técnicas alimentadas por demandas médicas.
A visão de mundo e de humano do comportamental diz que ele é controlado pelo meio mas que também pode controlar o meio. Ela também diz que não existe isso que se chama de mente e que os ditos “processos mentais” também são comportamentos controlados pelo meio. Já a visão de mundo e de humano do cognitivista diz que a mente é quem controla todos os comportamentos humanos e que ao se controlar a mente, controla-se os comportamentos: com isso podemos ser qualquer coisa, bastando trabalhar a mente e seus potenciais de forma correta. Ao mesmo tempo, diz-se que o ambiente tem pouca influência no sujeito, pois a mente é quem vai prevalecer.
Como tentei mostrar, ambas as visões de mundo são válidas mas são contraditórias. Não há como dizer qual está correta. Qualquer pessoa pode preferir acreditar em uma ou na outra (ou em outra qualquer). Porém, só sei de uma coisa: é impossível trabalhar com as duas noções ao mesmo tempo! Qual será o sujeito tratado pela TCC: seria um sujeito controlado pelo ambiente ou por suas crenças? Se for pelo ambiente, o trabalho deve ser na relação do sujeito com o ambiente, se for nas crenças, o trabalho deve ser interno.
Os defensores da TCC podem dizer que é melhor atacar os dois flancos: o interno e o externo. Acontece que as técnicas que trabalham um flanco não precisam do outro e são autosuficientes em si mesmas! Terapeutas cognitivos sabem que suas técnicas são suficientes para resolver qualquer problema. O mesmo acontece com os terapeutas comportamentais. Na prática seria mais ou menos como querer dirigir um carro automático e manual ao mesmo tempo: é simplesmente impossível. Ou o carro é automático, ou ele é manual, e cada um possui um jeito próprio de dirigir.
O ser humano é um ser complexo e não é possível reduzi-lo a teorias e filosofias. O que a TCC faz é justamente ignorar essas teorias e fixar-se unicamente nas técnicas e resultados. Mas, ao fazer isso, reduz-se o ser humano a uma visão puramente médica e doentia. As grandes psicoterapias se destacaram justamente ao considerar o caso do sujeito saudável, de trabalhar com a questão da “saúde mental”. A TCC trabalha unicamente com técnicas de tratamento de doença mental e sua base para pensar a saúde mental é a médica: a ausência de doença. A Terapia Cogintivo-Comportamental não vem acompanhada de uma Teoria Cognitivo-Comportamental, porque tal teoria é simplesmente epistemologicamente impossível.
O risco para o paciente é que ele seja ignorado como sujeito e visto unicamente como um cliente a ser moldado e extirpado de seus sintomas que, mais do que fonte de sofrimento, são possíveis caminhos de transformação. O risco é ter o paciente tratado pelo paradigma médico que serve para a medicina, mas não para a psicologia. O risco é que a psicoterapia seja vista como técnicas de tratamento de doenças mentais, ao invés de um conjunto de saberes e práticas que tratam e promovem a saúde mental. Enquanto a sociedade endossar a Terapia Cognitivo-Comportamental, corremos o risco de nos perder nessas visões simplistas e reduzidas, e nos subjulgaremos cada vez mais às vontades e designios de uma única classe: dos médicos. Será que é isso que você quer para a sua vida?




Estimado colega de profissão, (será?)
Nunca vi comentários mais patéticos em toda minha vida. Você não tem ideia do que seja a psicologia! Seus argumentos são baseados em loucuras psicanalíticas, que diga-se de passagem, está muito longe de ser psicologia. Qualquer pipoqueiro pode ser psicanalista! A psicanálise não é reconhecida pelo ministério da educação do Brasil, muito menos da França.
Um terapeuta junguiano nada mais é do que um massagista sexual frustrado. Falo frustrado, porque se você observar tais terapeutas, os mesmos são bizarros fisicamente, mentalmente e com certeza têm um minúsculo falo.
Não consigo imaginar o nível da instituição que você diz dar aulas. Tampouco imagino onde você tenha se formado.
Você diz também ter MBA em RH. Nossa!!! Se você não sabia, o RH é uma área da administração. O papel do psicólogo é apenas fazer perguntinhas imbecís e acreditar que está selecionando alguém… e o pior, normalmente eliminar quem seria o mais indicado para a função.
A população, seja ela leiga ou científica, não acredita na psicologia porque existem pseudo-profissionais iguais a você.
[...] hoje recebi um comentário em meu blog no artigo que mostrava os riscos da terapia cognitivo-comportamental que veio carregado [...]