Logoslogia


Uma rosa por outro nome ainda seria uma rosa?Uma das questões que mais me incomoda quando falamos sobre ciência é sobre a definição e origem dos diferentes nomes das ciências. Muitas pessoas acham que o nome é irrelevante, pois “uma rosa sob outro nome teria o mesmo perfume”, como disse Shakespeare em Romeu e Julieta. Essa inclusive é uma discussão no livro O Nome da Rosa, de Umberto Eco. Mas o nome é importante sim, principalmente para saber diferenciar e identificar as coisas.

Durante muito tempo, os nomes eram vistos como extensões da alma. Tanto é que atribuir um nome a algo era atribuir uma alma a isso. Não é à toa que no relato bíblico da criação do mundo Deus dá ao homem a tarefa de dar nome aos animais. Dessa forma, não só os animais poderiam ser identificados, mas também o homem seria como Deus, pois ele estaria atribuindo alma e sendo criador também. E, ao negligenciarmos os nomes, estamos negligenciado a alma das coisas, sua essência.

Desde a Idade Média discute-se sobre a validade dos nomesNa ciência, temos a tendência de prestar mais atenção ao que é observável e o que não é observável podemos deixar de lado e alguns inclusive chegam a dizer que isso pode ser irrelevante e inexistente. Esse é o velho debate medieval entre realismo e nominalismo. Os realistas diziam que a realidade é objetiva e que as coisas e objetos é que são reais. Já os nominalistas diziam que os nomes apontam para a realidade, que para que algo possa ser real, ela precisa receber um nome e que sem ele, não haveria como pensar, referir ou perceber nada na realidade.

Por motivos históricos, o realismo cresceu mais que o nominalismo – por mais que o nominalismo ainda exista. A ciência é realista. Mas a filosofia é nominalista. Ela se baseia muito nos nomes, pois os nomes apresentam conceitos e a clareza dos conceitos reflete a clareza das ideias. Mas não vou aqui falar sobre essas ideias, mas sim dos nomes, principalmente dos nomes das ciências.

São várias as ciências que cuidam do mundo e têm nomes diferentesA grande maioria das ciências são identificadas pelo nome que termina com –logia. Algumas ciências não têm essa terminação, como astronomia, geografia e economia, isso porque existem outras ciências que possuem os mesmos prefixos: astrologia, geologia e ecologia. Astro é estrela. Astrologia seria a ciência das estrelas. Geo é terra e geologia é a ciência que estuda a terra. Eco é casa, lar. Ecologia seria a ciência que estuda onde vivemos, o meio-ambiente. O sufixo -nomia significa contar ou organizar, por isso astronomia e economia, ciências que trabalham com a organização dos astros e do lar; enquanto -grafia é relativo à escrita, no caso, a confecção de mapas, mostrando que a geografia trabalha com escritos, documentos e mapas.

É interessante perceber como o nome da ciência nos dá qual é o seu objeto de estudos. Antropologia estuda as culturas humanas (antropos significa humano); sociologia estua a sociedade; biologia estuda a via (bios é vida); tanatologia estuda a morte (thanatos é morte); psicologia estuda o que chamamos e associamos à alma (psyche é alma). A lista pode continuar para sempre. Mas, além disso, o que significa o -logia?

Esse é o grande problema. Acontece que se é perpetuado um falsa tradução do significado de -logia, o que faz com que a compreensão da ciência seja errada também. A tradução é tirada do uso mais do que do significado. Como uma ciência estuda e o nome das ciências termina com -logia, toma-se que -logia significa “estudo” ou ainda “ciência”. Mas esse não é o caso.

Os gregos já discutiam sobre a ciência e seus nomesCiência é episteme em grego. Tanto é que epistemologia seria a ciência que estuda a ciência, ou melhor, seria a ciência que estuda o conhecimento. Epistemologia também é chamada de “teoria do conhecimento”, o que nos dá uma dica para o significado de -logia, algo relacionado à teoria…

O sufixo -logia vem da palavra grega Logos. Logos não é estudo, muito menos ciência. Procurando brevemente no tradutor do Google, descobrimos que Logos traduz-se como discurso, ou fala. Isso aponta para seu uso como semelhante à “palavra” ou à “palavra dita” ou uma ação de falar, ou ainda ao “verbo”.

Num texto clássico como a Bíblia, originalmente ecrita em Grego, encontramos nos primeiros versículos do Evangélio de João o uso da palavra logos. Algumas versões apresentam a tradução como “palavra”, outras como “verbo”. O trecho seria: “No princípio era o verbo, e o verbo era Deus e o verbo estava com Deus”. No original diz “Εν αρχή ην ο Λόγος και ο Λόγος ήταν Θεός και ο Λόγος ήταν με το Θεό” e lemos “En arché en o Logos kai o Logos etan Theos kai o Logos etan me to Theo”. Uma melhor tradução seria “discurso” ao invés de verbo: “No princípio era o Discurso…” mas é calro que nesse caso, perde-se o sentido, porque o discurso pressupõe um sujeito e entraríamos em debates teológicos de quem seria esse sujeito que não Deus (o q não vem ao caso neste momento)…

O discurso fala mais que um verbo ou que uma palavra. O Discurso é algo falado, é uma ação de falar. A ciência não seria um simples estudo passivo, mas um discurso ativo. Além disso, a ciência não seria só o discurso que podemos falar sobre nosso objeto de estudo, mas também o discurso que esse objeto de estudo tem a falar para nós! Por exemplo, a psicologia o “discurso da alma”, ou seja, não somente o discurso que podemos fazer sobre a alma, mas também – e principalmente – o discurso que a alma faz e que nós ouvimos!

Toda ciência então é dialógica, é um processo constante de transformação do pesquisador e do objeto pesquisado. O cientista discursa sobre seu estudo: seu objeto de estudos discursa ao pesquisador. O cientista modifica o mundo e este mundo pesquisado modifica também o cientista. Essa é a essência da ciência e a compreensão do nome da ciência nos oferece essa possibilidade de compreender nosso papel como cientistas. Ciência como estudo é passiva, é somente estudar e absorver conhecimento – prática muito comum atualmente. Ciência como discurso é criativa, é relação dialógica com o objeto estudado onde o pesquisador modifica e é modificado pelo conhecimento – o que a ciência deveria ser.

Comments (3)

  1. Muito bom o texto.Gostaria muito de publicá-lo no BLOG DO BESNOS, que os convido a visitar. Acho que teremos boas conversas. Gostei do artigo,esclarecedor, bem escrito. Colocarei, claro, os créditos. Aguardo resposta, hILTON bESNOS.

  2. Realmente muito bom. Está de parabéns pelo site. Um abraço.
    Vim pelo Mitografias, e acho que você faz um ótimo trabalho lá também.

  3. roberto travassos vieira

    Sucinto e esclarecedor o texto. Parabéns .

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