Os Contos de Fadas e o Caminho do Herói


Nos contos de fadas, temos herósi e heroínasTalvez um dos temas mais recorrentes nas histórias seja o mito da jornada do herói. Ele aparece desde filmes até os contos de fadas. Como toda narrativa de herói, o conto de fadas vai apresentar o seu protagonista. Esse protagonista pode ser homem ou mulher, herói ou heroína. Vale lembrar que nos mitos clássicos, a jornada é sempre do herói e nunca da heroína, justamente porque essas culturas apresentam elementos mais patriarcais.

Já nos contos de fadas, além de serem mais universais e estarem além (ou aquém) das divisões entre masculino e feminino – e por mais que os contos respeitem essas questões na delimitação de seus personagens – a figura feminina é mais valorizada, talvez por influência celta, dando assim uma oportunidade para o surgimento de heroínas. Mas mesmo assim é interessante percebermos como existem ligeiras diferenças nas narrativas das históricas clássicas de heróis e dos contos de heroínas, como Cinderela ou Chapeuzinho Vermelho. Tanto o herói quanto a heroina passam pelos mesmos passos, mas ambos terminam a jornada de forma diferente.

Os quatro passos são:

  • Travessia: o herói ou heroína é levado para longe de sua terra e marca a entrada do personagem no mundo mágico.
  • Encontro: o herói ou heroína encontra o seu desafio, seu inimigo ou antagonista, geralmente um monstro, bruxa ou criatura mágica que ameaça o personagem de alguma forma.
  • Conquista: a luta de vida ou morte do herói ou heroína contra esse ser ameaçador, levado à vitória do protagonista.
  • Celebração: É quando o herói ou heroína retorna e “todos vivem felizes para sempre”.

Geralmente o herói consegue enfrentar seu desafio sozinho, enquanto a heroína geralmente acaba conseguindo com a ajuda de algum outro personagem, que pode ser um outro ser mágico, como um animal ou uma fada madrinha, ou humano. Isso não quer dizer que o homem seja melhor que a mulher, só aponta para métodos diferentes e características diferentes. Enquanto o homem busca a força na construção da individualidade, a mulher busca a relação e a criação de vínculos para se fortalecer. São caminhos diferentes somente.

A Branca de Neve só consegue terminar sua jornada com a ajuda dos anõesPor exemplo, na história da Cinderela, ela só consegue enfrentar sua madrasta e ir ao baile e depois reencontrar o príncipe graças à sua Fada Madrinha. E no caso da Chapeuzinho Vermelho, ela só consegue se salvar com a ajuda do caçador. Se pensarmos também em outros contos, como a Bela Adormecida, são fadas também que a ajudam e acabam ajudando também ao príncipe a encontrá-lo. E o que dizer da Branca de Neve e seus sete anões que a acompanham em sua jornada?

A jornada da heroína é a jornada da alma, e a alma somente vive em relação. Não existe uma alma individual. O que existe de individual é o Ego que é, por definição, egoista! A Alma, por outro lado, engloba a totalidade do sujeito e inclusive abraça sua própria Sombra, muitas vezes tida como sua amiga. E os contos de fadas são ótimas fontes dessas histórias que ilustram tudo isso.

Comments (9)

  1. Adorei o post, acho muito interessante a ideia da jornada do herói analisando contos de fadas.

    Mas tenho um pensamento a considerar: “Geralmente o herói consegue enfrentar seu desafio sozinho, enquanto a heroína geralmente acaba conseguindo com a ajuda de algum outro personagem”

    Acho que podemos colocar tanto o herói quanto a heroína na classificação de que necessita de ajuda. Se considerarmos o arquétipo do mentor, existente na jornada indiferente do gênero sexual da personagem protagonista, ele ajuda com presentes e conselhor, principalmente ao fazer com que o herói / heroína se comprometa com a aventura.

    Gosto muito do site espero que continue o ótimo trabalho que tem feito! Muito obrigado.

  2. Gabriella Suladrena

    Aquelas que sempre foram contadas Chapeuzinho Vermelho, Cinderela, Branca de Neve

  3. […] Originalmente os contos de fadas não foram feitos para serem histórias infantis.  Eram histórias contadas em círculos sociais adultos como formas de entretenimento e, assim, possuíam doses de elementos sexuais e de violência, como adultério, incesto, voyeurismo, exibicionismo, canibalismo ou estupro. Pode-se pensar que essas histórias, como as fábulas voltadas para crianças, tentavam mostrar originalmente as consequências dos diferentes comportamentos, os bons e os maus. Porém, muitas das histórias não apresentavam sequer alguma veia de moralidade. Então, durante boa parte da Idade Média, os contos de fadas eram bastante populares – em vários sentidos. […]

  4. Teresa

    Gostei do texto. Deixo uma contribuição: segundo a psicologia analítica, o inconsciente é dividido em: inconsciente pessoal e inconsciente coletivo. , dentro deste referencial, o Ego é o centro do consciente, é pessoal mas não egoista.
    Caso queiram saber sobre uma interpretação de A Bela Adormecida, numa visão junguina, podem ler meu livro.

  5. Danielle Braga

    Adorei o Site, irei visitar sempre! Obrigada!

  6. Simone de C. Reis

    Obrigada, Pablo, por esta ‘ajuda’. Estou terminando minha tese de doutorado e trabalho com o herói e seu antagonista nos contos de fadas (alguns).
    E os créditos serão devidamente dados a você.
    Simone

  7. […] já ouviram falar do grande herói mítico Hércules, mas poucos sabem que ele já fez parte de uma grande equipe de heróis míticos chamada […]

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