Ainda um pouco mais sobre bullying


O problema do bullying nunca é só o bully...Bullying é um tema controverso, polêmico e atual, tanto é que fui convidado pelo pessoal do Papo de Gordo para gravar um podcast sobre bullying! A conversa foi muito bacana e foi muito bem recebida. Porém, como todo papo polêmico, teve bastantes controversas. Caso queira ouvir o cast original, sigam este link. E neste, vocês poderão acessar o episódio onde foi lido alguns comentários sobre o episódio de Bullying.

Como toda boa conversa, esse cast sobre bullying rendeu muita conversa e repercussão… Esperava que fossem repercussões positivas e criativas, mas infelizmente percebo que houve mais desinformação do que diversão. Só lembrando que, por mais que o tema do cast seja sério, a proposta sempre foi ver as coisas por um lado mais leve – ao menos a minha proposta ao participar do programa era mostrar que, por mais sério que seja um problema, podemos aprender a ver as coisas por outros ângulos.

Como toda conversa de bar, é impossível aprofundar qualquer questão num programa como esses. Muitas opiniões são lançadas, piadas são feitas, e o foco é perdido invariavelmente. Quem quer levar as coisas muito à sério acaba perdendo o ritmo com essa dinâmica, então a informação séria e profunda também acaba sendo prejudicada.

Como muito bem foi comentado várias vezes, ninguém apóia o bullying. O comentário “na minha época, bullying era formador de caráter” fazia referência a muitas coisas, inclusive ao fato de que hoje em dia, não sabemos transformar eventos negativos como o bullying em oportunidades de crescimento pessoal, não sabemos lidar com frustrações, somente com questões imediatas e com o mínimo de sofrimento possível. Infelizmente, o que a midia, os comerciais e os filmes vendem que a vida deveria ser não é como a vida realmente é. E, sempre que possível, temos que aprender a lidar com adversidades.

Todos queremos ver o bully se dar mal...Uma questão que temos que perceber é que nossa cultura tende a sempre tomar o lado da vítima e não tenta compreender o quadro todo. Ao falar sobre bullying e sobre como lidar com isso, invariavelmente nos identificamos com aqueles que sofrem e queremos nos livrar daqueles que nos fazem sofrer. Então, por mais que queiramos ver diferentes lados, já temos o nosso e nos fechamos para o diferente: a vítima sempre tem razão e o bully está sempre errado.

O mais interessante é que todos acham que sua opinião baseada em opiniões e expeculações são a mais legitima verdade! Não importa se um especialista na área diz que o problema é mais embaixo, que a questão não é o bullying em si mas sim as relações familiares e os problemas entre pais e filhos: todos queremos ver os bullies serem apederjados e festejam com o Menino Zangief por ele ter revidado às agressões. E, sem perceber, nos tornamos iguais àqueles bullies que queremos apedrejar e valorizamos quando a violência que queremos abolir se torna nossa prática cotidiana.

Recebi um comentário em meu blog de um ouvinte do Papo de Gordo falando das “besteiras” que me ouviu falar no programa. Além disso, disse que dez meses de remédios psiquiátricos o ajudaram infinitamente mais que cinco anos de terapia com três psicólogos diferentes. É tão engraçado ver como a nossa cultura do imediatismo é tão mais valorizada do que o trabalho, a construção e a paciência! Aposto que esses cinco anos de terapia fizeram uma boa diferença na vida desse ouvinte e o remédio foi só um catalizador que trabalhou com o problema aparente.

Os problemas que vemos são só a ponta do iceberg: sempre tem muito mais escondido abaixo da superfície...Provavelmente ele não sabe – como a maioria da população leiga no assunto não tem como saber – mas os remédios psiquiátricos lidam com a parte do problema que está aparente, nunca com as questões internas desse problema. Se o remédio fosse para tratar icebergs, eles tratariam unicamente a ponta dele, da parte visível, nunca o que está na profundidade e que sustenta toda a ponta. Se lidamos com o bullying da mesma forma, como a maioria parece querer, evitamos olhar para questões que realmente são importantes, como o papel que os pais e professores têm na educação dos filhos, qual a influênica da mídia e dos meios de comunicação na formação dos valores sociais e qual é o espaço disponível em nossa sociedade politicamente correta para vivermos instintos básicos, necessários e negligenciados como a violência, a agressividade, a frustração e o sofrimento de forma positiva e criativa? Por mais que queiramos ignorar, todas essas – e outras tantas – questões estão sim relacionadas à temática do bullying e não podem ser ignoradas ou ter sua importâncias diminuída diante das perversidades que são relatadas e experienciadas nas agressões escolares todos os dias.

O bullying, como o problema tratado pelo remédio desse ouvinte, é só a ponta do iceberg. Existe muito mais coisas escondidas e que não podem ser ignoradas, por mais que nós insistentemente as ignoremos. Se continuarmos levando questões como o bullying – que é só um sintoma da nossa cultura, uma consequência aparente de algo mais sério e esquecido – como se fosse o único ou principal problema, ignoraremos todas as outras questões mais sérias e profundas, pois elas ficarão escondidas diante da nossa fúria contra a bagunça que a destruição das aparências faz. Se aparentemente não temos mais problemas, será que eles realmente sumiram? A resposta é clara: os problemas só vão sumir quando eles forem completamente trabalhados e não só escondidos ou tapados com ações paliativas ou remédios psicotrópicos.

Preferimos nos enganar com boas - e falsas - aparências do que encarar a dura realidadeInfelizmente, nossa cultura prefere só se enganar com aparências melhores e ignorar os problemas mais sérios que ficam escondidos. Enquanto formos assim, sempre haverão pessoas que vão reclamar do humor diante da seriedade, que vão achar besteira nos preocuparmos com questões sociais quando aparentemente o problema é pessoal e que não vão compreender as sutilezas das entrelinhas, pois querem tudo explícito e na hora. O problema é sim mais embaixo e precisamos revisar as nossas posturas e prioridades antes de querer apontar dedos e condenar os culpados.

O bullying na verdade não é um problema de crianças e escolares: ele nos mostra que existem outros problemas muito mais sérios e ignorados de toda a nossa sociedade. O lado mais fraco dessa relação, as nossas crianças nas escolas, é quem acaba sofrendo por nossa postura de mascarar tudo atrás da imposição do politicamente correto. Enquanto não olharmos para nós mesmos e quais são os nossos reais valores pessoais diante da agressividade, do sofrimento e de todos os outros instintos naturais humanos, o problema do bullying nunca vai ser resolvido.

A pergunta que deixo, então é: qual é o seu papel nisso tudo, de vítima que só reclama do mundo e dos outros, de agressor que só ataca os mais fracos ou aqueles que são ou pensam diferente ou não são compreendidos, ou de agente de transformação que realmente quer deixar as diferenças de lado e fazer algo de util para mudar a sociedade?

Comments (5)

  1. […] 2012 Vlog do tio Lucio Ainda um pouco mais sobre bullying Personalizando a voz no GPS Matando baratas com raquete elétrica: 01, 02 e 03 Código: Nerd […]

  2. Bom, vou debater algumas coisas no seu texto:

    “a vítima sempre tem razão e o bully está sempre errado” – No sentido que está, parece que você acha que tem exceções. Acredito que deve ter alguma mesmo, com a vitima ter provocado aquilo, mas eu não entendo como que o agressor pode estar certo em alguma hipótese, pois eu encaro que caso a vitima resolva reagir, aquilo não é mais bullyng e sim uma briga, claro que talvez eu esteja errado com o modo que vocês encaram na psicologia.

    Sobre você falar que o tema foi discutido de forma humorística, bom eu acho que ficou bem claro isso, mas para mim, que já sofri com isso, é como se fizessem uma piada do 11 de setembro para um parente de uma das vitimas. Vocês que escolhem como o tema tem que ser debatido, mas eu também não sou obrigado a gostar. Sei que você, como um profissional, entende mais do assunto e concordo totalmente que o bullyng é um problema complexo, que é um reflexo da família, mas eu, como vitima, com alguns anos de terapia, não posso dizer que é um formador de caráter e que é só superar aquilo e pronto. Você mesmo deve saber que traumas formas cicatrizes fundas quando você é novo. Eu acho que os casos mais sérios podem causar problemas de personalidade, como a desconfiança e paranoia que eu adquiri e tento me livrar dela, pois qualquer informação sobre mim era munição para eles e o tempo todo eu tinha que ficar esperto para eles não tentarem um novo tipo de humilhação e porra, os caras eram muito criativos na arte de tentar me fuder. Depois de 3 anos tortura no ensino médio (na verdade eu sofri bullyng toda a minha vida escolar, apanhava todo dia na terceira série, por exemplo, mas até o segundo grau aquilo tudo ainda era um construtor de caráter), vários anos de terapia, feridas que eu não consigo fechar, eu ouço um podcast com um profissional da área dizem que é só eu superar não tem como não ficar bolado cara. Me desculpe, mas eu não posso achar que os agressores estão certos e nem simplesmente superar e usar isso como lição. Se eu soubesse um modo de superar e usar o que eu aprendi como crescimento pessoal, pode ter certeza que eu tinha feito.

    Não que eu apoie coisas com o Zangief Kid. Aquilo, como vocês mesmo disseram no cast, podia ter causado um problema ainda maior, mas se não houver um combate ao bullyng, sempre vai ter pessoas que vão perder a cabeça por causa das agressões e explodir daquele jeito, ainda mais crianças que não conseguem pensar muito nas consequências, por isso eu não acho que a gente pode julgar aquilo como totalmente errado, claro que adultos apoiando esse tipo de reação já é outra coisa. Também acho que o Bullyng é o reflexo de uma coisa maior, mas também não acho que é uma questão que deve ser deixada de lado para resolver outras, pois na escola é que passamos o maior tempo no começo da vida e temos que dar atenção para as pessoas que um dia vão levar esse país para frente. Não sei se você tem essa visão, mas eu não acho que só porque existem problemas bem maiores.que não são resolvidos, todos os problemas tem que ser ignorados para ser justo.

    Para finalizar, vou deixar bem claro que isso aqui não é uma agressão gratuita a sua pessoa e até então eu só tinha me manifestado com um e-mail para o Papo de Gordo. Não queria ofender e nem questionar o seu conhecimento profissional e se eu fiz isso, não foi minha intenção. Não tenho nada contra você, apenas não concordo com o seu ponto de vista. Não quero dar uma de “eu vivi a parada e sei mais do que você”, mas eu também não posso me silenciar quando dizem que a questão é simples de resolver, como pareceu no cast (aqui no post você explicou melhor), pois quando ouvi, eu tive uma impressão de algo do tipo: “Ah cara, a segunda guerra aconteceu, morreu um monte de gente, mas valeu demais porque tivemos um ótimo crescimento tecnológico, por isso vamos parar de ter evitar que as guerras aconteçam, pois é um processo natural de evolução da humanidade”.

  3. Felipe

    Meu papel é ser, independentemente das consequências…e o seu?
    Ser tem cura?
    Como você sabe que o sujeito não sabe?

    Perguntas…

    e mais perguntas…

  4. […] gostaria de dizer que o que falarei aqui sobre violência cabe muito bem para falarmos sobre o Bullying e sobre a Homofobia, dois temas amplamente discutidos aqui. Espero também que este artigo sirva […]

  5. […] tentativa de suicídio por enforcamento. Esse suicídio foi motivado pela vergonha que sentira e do bullying que sofria após ter sido estuprada aos 15 anos de idade e de os agressores divulgarem uma foto do […]

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