O Outro Lado da Violência


Violência sempre atrai mais violênciaPercebi que tenho escrito vários artigos aqui com o tema da violência, mesmo que de forma indireta. E são justamente esses artigos que têm recebido mais comentários! Coincidentemente – ou não -, meus alunos estão trabalhando com o tema da violência, em seus diversos aspectos. Por isso, preparei um material para passar para eles e acho interessante também passá-lo aqui.

Para começar, gostaria de dizer que o que falarei aqui sobre violência cabe muito bem para falarmos sobre o Bullying e sobre a Homofobia, dois temas amplamente discutidos aqui. Espero também que este artigo sirva para sanar algumas das dúvidas levantadas pelos meus comentadores em alguns desses posts. Infelizmente, não tenho como tratar de todos os pontos individualmente, mas imagino que no decorrer do texto tratarei da maioria deles.

Para começar, gostaria de explicar o título do artigo. “O Outro Lado da Violência” faz referência não só à violência, mas também – e principalmente – ao que está do outro lado: a não-violência. É interessante termos esse olhar, pois geralmente trata-se a violência com mais violência.

Quando trato desse tema, gosto muito de uma frase do célebre Bertolt Brecht que uma vez disse:

Muitos dizem violentas as águas que tudo arrastam, mas não dizem violentas as margens que as reprimem

Essa frase traz uma imagem muito poderosa sobre a violência: ela surge em resposta a outra violência. Quanto mais fechadas são as margens de um rio, mais violentas serão as suas águas. Essa frase fala sobre as manifestações públicas de revolta e violência contra outra violência social, talvez uma greve contra más condições de trabalho ou um protesto contra a violência.

Mas é interessate ver que popularmente a violência justifica outros atos violentos. Quantas guerras não foram feitas em nome da paz? Quantos massacres não foram feitos em nome da justiça? Quantas mortes não são justificadas em nome do bem-estar geral? As vítimas de violência geralmente justificam seus atos violentos com a violência sofrida. É uma violência gerando e justificando outra violência.

Violência, violência, violência: tudo é violência?

E quanto mais falamos sobre violência, mais ela surge. Quanto mais formos agressivos, mais agressivos serão conosco e, para eviar mais agressão, tornamo-nos ainda mais agressivos e entramos em uma série infindável de agressão gratuita sob a desculpa que “foi ele quem começou!” e diante disso, ninguém quer terminar.

A relação agressor-vítima acontece sempreJá comentei que todos temos um lado agressor e um lado vítima. Se sofremos com a violência, nos identificamos como vítima, mas o lado agressor ainda está lá, sombrio e reprimido, esperando a oportunidade para saltar aos nossos olhos. Quando não reconhecemos isso é que somos ainda mais agressivos.

O mais interessante é que todo agressor consegue justificar sua agressão colocando-se como vítima de outra agressão. Essa agressão pode ser direta do tipo “ele começou e por isso estou revidando” ou então indireta do tipo “fui vítima de outra pessoa e por isso desconto em você”. E a dinâmica eterna do agressor-vítima se perpetua.

Não quero aqui dizer que aqueles que sofrem agressão são culpados de algo, como seus agressores são – até mesmo porque não acredito em culpa, mas sim em responsabilidade. Mas quero salientar que até mesmo essas vítimas que ficam realmente traumatizadas também possuem um lado agressor, que é tão grande quanto o lado vítima. E esse agressor, quando não percebido e trabalhado, pode acabar agredindo ao próprio sujeito em uma onda de auto-punição por uma culpa má-direcionada.

Violência: o outro lado.

Por isso acho importante olharmos para o outro lado da violência. Uma coisa que devemos perceber é que toda violência é justificada por outras violências. É a famosa frase: “Violência Gera Violência”. O mais interessante é percebermos que se insistirmos em perceber somente a violência, é só isso que vamos viver.

Quero convidar meus leitores a lerem os comentários de outros leitores aqui do meu blog. De certa forma, eles não perceberam essa dinâmida da violência e me acusaram de forma violenta de ser violento de alguma forma. Essa violência apareceu na forma de opiniões diferentes das conhecidas, vindo dos dois lados.

Temos um instinto natural para nos proteger. Mas não precisamos ser violentos.O mais interessante é que os artigos mais comentados – e de forma muitas vezes agressiva – são justamente os mais polêmicos, que dizem respeito a posições diferentes, contrárias às nossas, mas que também possuem seus méritos. Isso me mostra que ainda temos dificuldade em aceitar o outro lado, o que é diferente. Por isso já disconfio que muitos não aceitarão ou não compreenderão o que estou para mostrar: que existe um outro lado da violência, um lado bom.

Tudo tem um outro lado e esse outro lado também merece ser reconhecido e vivido. A violência também. Ela é a expressão de vários instintos naturais humanos, como a agressividade e o medo. E esses instintos naturais merecem ser vividos. Por serem naturais, eles não possuem moralidade: agressividade ou medo não é nem bom nem mau, isso vai depender da forma como vivemos esses instintos.

A agressividade vai ser positiva quando ajudar ao sujeito a conseguir o que quer, quando o sujeito consegue se impor diante do mundo e com essa força construir sua vida. Sem agressividade, qualquer pessoa irá se sucumbir aos acasos e às outras pessoas. O medo é igual, que pode tanto proteger uma pessoa de uma situação arriscada ou então petrificar o sujeito e evitar que ele viva.

A violência – em todos os seus aspectos – é a mesma coisa. Ela pode ser tanto boa quanto ruim. Acontece que o problema não é a violência em si, mas a forma como ela é vivida. Um caso de bullying, por exemplo, temos aí uma relação violenta, mas a violência em si não é o problema. Violência no trânsito é a mesma coisa. E qualquer ato agressivo irá apontar que existe um problema. O importante a perceber que o problema não é a violência.

Então, qual seria o problema?

A violência nos mostra que existe uma relação entre duas partes e ambas as partes alternam no papel de agressor e de vítima. A primeira coisa que temos que reconhecer é que ambos os lados são agressores e vítimas nessa relação. E como funciona a relação violenta? Basicamente, toda violência tenta a todo custo separar algo, dividir os lados e subjulgar um em detrimento do outro. É uma atuação de poder, de imposição da vontade de um sobre o outro.

A violência invariavelmente separaQuem é agressivo afasta sua vítima com sua agressividade. Quem é vítima também se afasta de seu agressor ao se defender. E, enquanto variamos o papel de ataque e defesa, de agressor e vítima, os dois protagonistas da relação violenta buscam o mesmo objetivo: a separação e o afastamento.

Enquanto formos agressivos com relação à violência, continuaremos agindo para separar a relação. Mesmo quando agimos com revolta contra posturas agressivas ou notícias de violência, essa revolta é violenta e busca livrar-nos de algo, nesse caso, somos violentos para evitar a violência. Novamente, é como fazer guerras em nome da paz! Ou o melhor, orgias em nome da castidade…

Sempre quando não percebemos o outro e não reconhecemos os valores do outro, sempre que queremos impor a nossa vontade e o nosso ponto de vista sobre os outros, estamos agindo de forma violenta, pois buscamos não nos relacionar e buscamos separar as relações. Onde há poder não há relacionamento, pois o poder impõe um sobre o outro. Não é possível tratar a raiva com mais raiva, a violência com mais violência ou a agressividade sendo agressivos.

Então, qual é a solução?

Gandhi pregava a não-violência.A pergunta deveria ser: qual é o nosso objetivo? Se o nosso objetivo é não sermos violentos, a solução é bem simples: não sermos violentos! A história está cheia de exemplos de ações não-violentas. O princial e mais conhecido foi a independência da Índia, através de ações de Mahatma Gandhi.

Gandhi consegui através de ações não-violentas mostrar o descontentamento do povo indiano com relação à dominação inglesa. Ele sugeriu que a independência daquele país deveria ser alcançado por ações não-violentas, por resistências pacivas que demonstram a insatisfação do povo à dominação sem que essa ação fosse violenta e justificasse práticas violentas do outro lado.

Ao agir assim, nossa ação não justifica a violência do outro. Não nos colocamos como vítimas ou agressores na relação e, consequentemente, o outro não se coloca no papel oposto. Quebramos assim o ciclo de violência.

Mas é tão simples assim?

Sim e não. Romper com o ciclo de violência depende da ação de ambas as partes. A nossa sorte é que a maioria das pessoas é reativa e inconsciente do que acontece, então, se agirmos de forma não-violenta, eles não agirão violentamente conosco. Lembro-me de ver motociclistas reclamando que os carros não os respeitam e por isso dirigiam da forma como o faziam e lembro-me de uns dois ou três casos onde o motociclista realmente respeitava os outros carros e esses, por sua vez, também o respeitavam! Às vezes parece até mágica.

Porém, isso exige esforço nosso para rompermos com preconceitos e ilusões sobre como deve funcionar a sociedade. Aprendemos que devemos nos impor, sermos mais fortes e melhores do que os outros e, consequentemente, devemos nos distanciar dos outros. Esse distanciamento é a violência. As ações violentas são consequência desse afastamento social, de nos isolarmos, de querermos ser diferentes e únicos e não se “misturar com a gentalha”.

O caminho é procurar a aproximação e não o afastamento. O poder imposto quando nos afastamos justifica ações violentas. A humildade e o amor demonstados ao nos aproximarmos e nos relacionarmos rompe com qualquer ação violenta. Basta pensarmos que se demonstramos a nossa superioridade a alguém, ele será violento como resposta. Mas, se dermos um abraço, ele não poderá fazer nada. Basta nos lembrarmos deste vídeo e de todos os abraços alcançados pela pessoa vestida de urso. E ele não fez nada para conseguir os abraços: só estendeu os braços e os aceitou de todas as pessoas.

Acho muito bom quando recebo críticas no meu blog, que são todas muito bem-vindas e servem para me mostrar muitas coisas, principalmente como as outras pessoas compreendem – ou não – o que eu digo aqui. Acho engraçado quando algumas dessas críticas aparecem como ofenças ou ataques, demonstrando justamente essa posição de separação, de não compreensão (do tipo “não entendi o que você disse, mas mesmo assim está errado”), de não aceitação (do tipo “não concordo com o que você falou e por isso você está errado”) ou até mesmo de superioridade (do tipo “você não sabe o que está falando e eu sim”). São posições violentas, que separam, que violam e agridem. Todos acabamos nos traindo ao sermos assim.

Será que um dia iremos conseguir perceber essa dinâmica e mudar? Será que iremos conseguir agirmos diferentes? Será que algum dia poderemos perceber que a mudança começa conosco e não adianta impor agressivamente a paz? Será que algum dia passaremos a ser mais coerentes com nós mesmos e conseguiremos agir da forma como gostariamos que fizessem conosco?

Comments (3)

  1. sdvrfg stfbymn

    muito bom! me ajudou a ver como as pessoas agem de forma agressiva quando não concordam com algo!!!
    obrigado!!!

  2. [...] mas errado ser estuprada. É correto ser agressivo, mas o erro foi da mulher que provocou o homem. É correto agir por impulso e violentar mulheres, mas o erro está na mulher não ser macho o suficiente para levar isso na brincadeira. E todos os [...]

  3. [...] discussões. Passo bastante tempo discutindo com pessoas sobre algumas questões sociais, como a violência e os direitos civis, para perceber que muitos – se não todos – os posicionamentos se [...]

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