Sobre a Prática da Psicoterapia


Como saber os segredos da psicoterapia?Ultimamente venho pensando bastante sobre o papel do psicoterapeuta na sociedade. E principalmente porque além de psicólogo, trabalho com psicoterapia, percebo muita gente procurando esse serviço mas encontra maus profissionais – como acontece em todas as áreas – mas não tem parâmetros de comparação para saber se é um bom ou mau serviço.

Não quero comentar sobre o caráter dos bons ou maus profissionais, somente gostaria de esclarecer a minha visão sobre as psicoterapias. Sim, chamo no plural porque existem várias psicoterapias diferentes, com técnicas, objetivos, procedimentos e até mesmo preocupações diferentes, e em sua grande parte são válidas.

Não quero generalizar e dizer que todas as formas de psicoterapia são válidas, pois existem algumas extremamente questionáveis. O público leigo não tem a obrigação de saber disso, e até mesmo por isso existem sistemas de fiscalização e normatização dessas práticas. Por exemplo, o Conselho Federal de Psicologia proíbe o uso de terapia floral como recurso psicoterapêutico, porém, permite a prática da acupuntura por profissionais treinados. Particularmente, eu concordo com essa decisão do CFP, pois isso acaba dando um foco maior para o nosso trabalho, ao invés de abrir para qualquer prática questionável.

Isso não quer dizer que terapias alternativas não funcionem, somente que o profissional psicólogo não deve se preocupar com elas, já que elas não fazem parte da base de conhecimento da nossa área. Seria como um mecânico de carros querer se preocupar em consertar bicicletas e máquinas de lavar: simplesmente não faz parte de seu trabalho. Eu aqui não tenho como julgar essas práticas como válidas, somente como não fazendo parte da nossa prática.

Qual psicoterapia é melhor? Como saber?Mas, como uma pessoa pode avaliar se uma prática psicoterapeutica é válida ou não? O que é necessário? Reconhecimento por parte dos outros? Artigos publicados? Validação científica? Recomendação médica? Aparecer no Fántástico?

No final das contas, o que vale não é nada disso, ma sim a seriedade do profissional. Se formos analisar friamente as psicoterapias, todas elas possuem técnicas que funcionam, como acabei mostrando em meu artigo sobre a terapia cognitivo-comportamental, porém, técnicas que funcionam não são garantia de sucesso ou o resultado não justifica a ausência dos valores. É necessário conhecer a base do que é uma psicoterapia para compreender isso.

A prática da psicoterapia acaba sendo uma prática diferenciada das demais práticas profissionais por diversos motivos. O primeiro deles é que existe a necessidade de aproximação maior e intimidade entre o profissional e o cliente – ou entre terapeuta e paciente. Ao mesmo tempo, é necessário também manter um certo distanciamento emocional e profissional. Seria como diz James Hillman em seu livro Suicídio e Alma: “É necessário manter um pé dentro e outro fora”.

Um bom psicoterapeuta sabe formar um bom e seguro relacionamento.Essa aproximação é inevitável, pois o profissional irá lidar com questões pessoais do cliente que também dizem respeito à sua pessoa. Eles irão falar de familia, projetos, planos, dificuldades, medos, sonhos, conflitos, angústias e tudo isso todos nos passamos, sejamos psicólogos ou não. O problema, por incrível que pareça, não está nessa aproximação, mas sim no distanciamento.

Geralmente, acredita-se que a utilização de boas técnicas ajuda a manter o distanciamento necessário para a psicoterapia. A técnica protege o terapeuta de se misturar, pois o trabalho será mediado pela técnica e não será feito diretamente em contato íntimo. Qualquer que seja a técnica utilizada, ela tem esse objtivo: direcionar o trabalho do cliente à finalidade prevista.

Isso pode parecer excelente! Mas não é tão simples assim. Realmente, a técnica afasta o cliente do profissional, mas ela não impede a aproximação. Um mau profissional que irá se basear unicamente na técnica, não irá perceber que ele também está se envolvendo e influenciando diretamente o paciente – sem ser mediado por técnicas. E essa influência pode ser bem danosa, principalmente quando não percebida. É isso que a psicanálise chamou há muito tempo – quase 100 anos atrás – de contra-transferência. Por mais que eu não seja psicanalista, não tenho como negar que esse seja um fenômeno real.

Precisamos confiar mais nas pessoas que nos atendem do que nas técnicas que eles utilizam.A técnica, então, não é garantia de sucesso da terapia. Não adianta dizer que existem centenas de artigos publicados defendendo tal técnica, pois esses artigos somente irão focar no aspecto científico dela, não na prática profissional. Não adianta também dizer que nove entre dez profissionais utiliza tal técnica, pois o seu cliente não é igual ao outro para saber se aquela técnica vai ter ou não o melhor resultado. A garantia de sucesso está não na técnica, mas sim na relação feita entre profissional e cliente.

O mais interessante é que isso é válido para praticamente qualquer prática profissional! Por mais que um chef de cozinha daquele restaurante da esquina tenha práticas questionáveis do ponto de vista técnico, se temos uma boa relação com ele, tendemos a voltar. O mesmo acontece com outros serviços, como encanadores, pintores, faxineiras, bancos, mercados. Por exemplo, o maior mercado da cidade pode ter todos os produtos que você quer, mas se você for mal tratado, você prefere procurar outro concorrente, por menor que ele seja.

Um bom psicoterapeuta conhece os seus próprios limites.E por que com a psicoterapia isso não acontece? Por que tendemos a dizer que o problema é da técnica terapêutica e não do serviço do profissional? Já cansei de ouvir que clientes tiveram más experiências com psicólogos, então o problema é da psicologia. Ouvi também de outras pessoas que procuraram determinada abordagem técnica e não tiveram sucesso, e encontraram solução em outra, logo o problema é da abordagem técnica. Por que ignoramos que existe um profissional humano que está por trás da técnica e que ele é o principal responsável pelo seu trabalho?

O ponto deste meu artigo é justamente esse: apontar que o sucesso da terapia não está na técnica empregada, mas sim na seriedade do profissional e da relação que ele mantém com o cliente. Qualquer psicoterapia que exista irá funcionar através de uma boa relação terapêutica. Alguns chamam isso de transferência, outros de setting, outros de empatia ou ainda de rapport. Não importa como chamemos: o importante é perceber que uma boa relação é mais importante do que qualquer técnica empregada.

E essa relação vai depender principalmente da seriedade, experiência e postura do profissional. O cliente não tem a obrigação de saber o que é uma psicoterapia, quais são as abordagens, teorias e técnicas existentes antes de escolher um profissional: ele simplesmente irá escolher o profissional baseado muitas vezes em questões objetivas como preço da consulta, proximidade do consultório, condições de trabalho, etc. Mas o bom profissional precisa perceber que o sucesso de seu trabalho vai depender exclusivamente dele.

Existem várias boas psicoterapias, inclusive psicoterapias de grupo.O profissional psicoterapeuta precisa ter claro quais são os seus valores, no que ele acredita. Precisa perceber que o que fundamenta a sua prática não são teorias e artigos científicos, mas sim os valores éticos da profissão, de si mesmo e de seu cliente. O bom conhecimento dos fundamentos filosóficos e científicos de qualquer abordagem da psicologia – e da psicologia como um todo – só irá corroborar com essa questão que o que unifica e fundamenta a boa prática são os valores e a postura profissional.

É até mesmo por isso que muitas terapias não funcionam – e não há problema algum nisso. Muitas vezes os clientes não concordam com alguns valores pessoas dos profissionais e acreditam em outras coisas. Talvez um cliente cético sinta-se encomodado com a religiosidade do profissional, ou um cliente religioso não concorde com a postura ateista do psicoterapêuta. Não há nada de errado nisso. O que precisamos perceber é que isso é uma questão de postura, de escolha. Porém, o mais importante são as bases da boa relação com o cliente.

O problema da psicoterapia está na desvalorização dos valores.Não devemos empurrar técnicas ao cliente com a promessa de bons resultados. Não vai ser a técnica que vai resolver o problema e sim a boa relação com o psicoterapeuta. Vai ser nessa relação que o cliente vai se sentir confortável o suficiente para abrir o jogo e falar de sua intimidade e então perceber os conflitos. Com um bom terapeuta, o cliente vai se sentir confiante para acreditar que pode e deve  mudar as atitudes para algo que seja melhor para si mesmo. E tudo isso independe de técnica, mas sim de fundamentos pessoais sólidos.

Isso não quer dizer que a técnica não tem utilidade, muito pelo contrário. Mas a técnica serve ao psicoterapeuta, não ao paciente e muito menos para a relação terapêutica. Com a técnica, o profissional sente-se mais confiante, seguro e pode, dessa forma, dedicar-se mais à relação, já que as questões mais técnicas ficam por conta da técnica! O lado humano do profissional pode então se dedicar à relação e aos valores que ele precisa ser.

O meu problema está justamente com os profissionais que se preocupam em demasia com a técnica e pouco com os valores e visões e também com a mídia que, desconhecendo esse lado da prática da psicoterapia, também só valoriza a técnica. O que lamento é que muitas técnicas terapêuticas também só valorizam essas questões objetivas e esquecem-se do lado subjetivo da psicoterapia.

A peça que falta na psicoterapia é a boa relação terapêutica.Por isso costumo dizer que não existe uma prática psicoterapêutica melhor do que outra ou uma abordagem que funcione melhor do que outra. O que existe são relações melhores com profissionais diferentes. Em outras palavras, caso você tenha tentado uma determinada psicoterapia e não tenha dado certo, o problema não é da técnica que esse profissional usou ou da abordagem teórica do mesmo. O problema esteve sempre na relação com ele que não pode se formar por qualquer motivo. Por isso vale sempre a pena procurar outros profissionais até encontrar um com quem você se identifique.

Psicoterapia não é mágica e não existem receitas prontas. Psicoterapia é um caminho e o psicoterapeuta é um guia. O segredo está justamente em se permitir criar boas relações, pois são através delas que os problemas podem se resolver. A melhor psicoterapia não é aquela que consegue resolver os seus problemas de forma técnica, mas sim aquela que consegue – através de uma boa relação – fazer com que você mesmo consiga se valorizar, encontrar o seu próprio caminho e aprender a viver melhor.

Comments (6)

  1. Ana Luisa Testa

    Pablo, muito bom seu artigo. É como dizem: a técnica certa na mão da pessoa errada traz maus resultados. A técnica errada na mão da pessoa certa faz milagres!

  2. […] E, por fim, retorno com a minha primeira pergunta: qual o limite dessa medicalização? Já que todos os comportamentos podem ser taxados como doenças mentais, o que diremos que é um problema tratável com remédios e o que não? Já que os psicofármacos possuem efeitos semelhantes aos das drogas ilícitas, qual é a nossa postura com relação a todas essas drogas como caminho para resolução dos nossos problemas? Até que ponto podemos dizer que a nossa vida deve ser dirigida pela ação de uma classe de cientistas em detrimento de todas as outras classes que oferecem outros caminhos alternativos para resolver os nossos problemas, como as psicoterapias? […]

  3. […] Ao mesmo tempo, a simples aplicação de técnicas não garante que houve reflexão ou que existem valores humanos e sociais envolvidos no desenvolvimento dessa prática. Mas isso não impede que existam valores médicos para tratar dos “transtornos […]

  4. […] Quando comparamos os efeitos e resultados das psicoterapias, percebemos outro fato interessante: não importa qual a técnica utilizada, todas possuem vários […]

  5. […] em uma psicoterapia. Não sabemos se a melhora e resultado positivo é devido à técnica, ou ao vínculo criado entre terapeuta e paciente (e, assim, a técnica fica sendo uma ferramenta secundária ou até mesmo desnecessária), ou se o […]

  6. hummmmmmmmmmmmmmmmmm parabens pela aula pratica,,,, sou psicanalista

Deixe um comentário