O uso dos psicotrópicos e a sociedade


Charlie Brown reflete sobre os efeitos colaterais da felicidade... Os efeitos colaterais dos remédios não são os únicos nem os maiores problemas da medicalização. Na real, são várias as críticas sociais do uso de medicamentos de forma indiscriminada, que nos levam a questionar seu uso até de forma controlada. A final, qual é o nosso objetivo com a prescrição desses remédios? E o que estamos falando com tudo isso?

Primeiro, ao receitar remédios para os nossos sentimentos extremos, estamos dizendo que eles são doenças. Ou seja, nossa tristeza e melancolia profundas é um Transtorno Depressivo Maior, nosso medo de falar em público é um Transtorno de Ansiedade de Fobia Social, nossos momentos de descontrole e euforia é um Episódio Maníaco dentro de um Transtorno Bipolar, os adolescentes isolados em seus mundinhos têm Transtorno de Personalidade Esquizóide e as crianças que adoram brincar e não se interessam nos estudos sofrem de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, o famoso TDAH.

Mas será que é isso mesmo? Será que não estamos mascarando de doenças comportamentos que são simplesmente normais? A final, todos temos o direito de ficarmos tristes, até mesmo de passarmos muito tempo tristes – se o nosso sofrimento for muito grande. E, muitas vezes, para não ficarmos tão tristes, devido a uma exigência social, nos colocamos em uma situação extrema de euforia – que nada mais é do que a resposta a uma demanda social de produção constante.

E qual o problema em não gostar de falar em público? Ou todos temos que ser grandes oradores? Nos colocamos em uma posição em que todas as pessoas, para terem todos os direitos e oportunidades precisam ter as mesmas características de forma homogênea. E nisso, negamos os verdadeiros potenciais individuais. Às vezes uma pessoa não precisa ser um orador para se dar bem na vida e pode ser bem sucedido fazendo trabalho de bastidores. Pois, do que seria dos atores sem os bastidores, certo?

Conheça a campanha contr a medicalização da educaçãoE o que mais me incomoda nisso tudo é tornar doença comportamentos normais de adolescentes e crianças, simplesmente porque os adultos não os compreendem ou toleram. Como os adultos esperam que os adolescentes sejam tão sociais quanto eles, taxam os mais isolados – justamente aqueles que utilizam esse momento e espaço para descobrirem quem realmente são – de terem alguma doença, pois não é normal ser isolado. E rotulam as crianças agitadas, pois estão de saco cheio das aulas massantes e da rotina entediante dos pais que assistem jornal e novela todos os dias ao invés de se maravilharem com o mundo – como fazem as crianças – de terem uma doença de hiperatividade e falta de atenção.

Mas o problema é das crianças ou é da nossa forma de compreendê-las? Será que são os jovens que sofrem ou somos nós que não conseguimos compreender nem dar o espaço que exigimos deles? Muito do suposto sofrimento que tratamos com remédios são provocados por nossa própria ignorância e intolerância. O remédio mais simples seria a paciência e a educação, mas busca-se o caminho mais fácil do controle, o remédio, as pílulas rápidas e imediatas. E com isso, estamos criando toda uma geração drogada, dependente de remédios para resolverem os seus problemas.

Estudos mostram, inclusive, que a droga de entrada para os jovens não é mais a maconha ou o álcool, devido à sua facilidade de acesso, mas sim os remédios para déficit de atenção e hiperatividade. A ritalina, a mais conhecida delas, foi listada como a principal droga de acesso. Depois dela, os jovens passaram a consumir drogas mais pesadas, como cocaína, heroína e crack, para atingirem os efeitos antes alcançados – ou seja, os jovens desenvolveram tolerância ao remédio e precisa dele para não sofrer de abstinência!

E o que estamos ensinando aos nossos jovens? Ao darmos remédios para que eles consigam enfrentar a timidez ou a falta de amigos ou problemas de aprendizado e atenção, estamos dizendo duas coisas a eles: primeiro é que eles precisam se adaptar às demandas do meio ao invés de descobrirem e desenvolverem seus potenciais – eles devem se tornar mais uma peça da máquina ou mais uma pedra no muro. Segundo, estamos ensinando a eles que os nossos problemas da vida podem ser resolvidos com o uso de remédios e substâncias ao invés de serem enfrentados, compreendidos, refletidos e solucionados – podemos e devemos então mascarar o mal estar que nos leva à mudança para colocarmos os nossos problemas para debaixo do tapete. Inclusive, tem uma música dos Engenheiros do Hawaii que reflete um pouco sobre isso:

Ao meu ver, ao medicarmos os nossos problemas, é justamente isso que estamos fazendo: estamos fugindo das angústias e dúvidas que movimentam a nossa vida e estamos escondendo as falhas que precisam ser trabalhadas e os problemas aparentes sob o tapete… E esse é um caminho que, uma vez trilhado, é difícil de voltar… Quanto mais se foge, tanto mais se quer fugir e só se pensa em fugir

Então, o que conseguimos com esses remédios? No final das contas, acabamos só criando uma massa de pessoas dependentes de um produto do qual eles não precisam para resolverem os seus problemas – pois frustrações, perdas, cansaço, excesso de atividades, medos, angústias, reflexões, pensamentos – não são doenças neuroquímicas a serem tratados, são somente parte da nossa vida. E essa massa acaba ficando alienada e respondente às demandas de uma sociedade cada vez mais controladora.Será que a vida vale a pena sem os nossos problemas?

E quem ganha com tudo isso? Com certeza não é o paciente ou a população! Quem ganha com isso é o governo, que ao autorizar o uso indiscriminado e sem controle desses remédios ganha uma massa de pessoas controláveis; e quem ganha com isso são as indústrias que produzem esses remédios que possuem um lucro tão grande ou maior do que o da indústria da guerra!

Para concluir este texto, gostaria de deixar aqui dois vídeos. O primeiro fala um pouco sobre a medicalização da infância, ou seja, fala sobre como nós estamos transformando crianças em doentes e a infância em uma doença:

E o segundo vídeo é uma entrevista um pouco mais aprofundada sobre as implicações sociais da medicalização da vida:

E, por fim, retorno com a minha primeira pergunta: qual o limite dessa medicalização? Já que todos os comportamentos podem ser taxados como doenças mentais, o que diremos que é um problema tratável com remédios e o que não? Já que os psicofármacos possuem efeitos semelhantes aos das drogas ilícitas, qual é a nossa postura com relação a todas essas drogas como caminho para resolução dos nossos problemas? Até que ponto podemos dizer que a nossa vida deve ser dirigida pela ação de uma classe de cientistas em detrimento de todas as outras classes que oferecem outros caminhos alternativos para resolver os nossos problemas, como as psicoterapias?Então, qual seria o limite do uso das drogas psiquiátricas?

Como não vejo uma demarcação clara desse limite – pois esse limite é tão ilusório quanto a diferença entre efeito principal e efeito colateral dos remédios – eu defendo que não devemos utilizar remédios psicofármacos para tratar dos nossos problemas da vida. Uma postura bem simples que pode ser realizada. É claro que muita gente irá criticar essa postura e irá dizer que se beneficiou do uso desses remédios. Mas a que custo? Ao custo da dependência – ou seja, trocou um sofrimento por outro? Ao custo da perda de funções devido a efeitos colaterais? Ao custo da perda da capacidade crítica de perceber que a vida tem seus problemas, mas que isso não justifica fugirmos deles?

Será que preferimos viver em um mundo isolado, controlado por remédios?Mais importante do que medicar ou remediar está a necessidade de refletir e de relacionar. Não somos sozinhos ou isolados e precisamos do contato com os outros, com a família, com os amigos e que esses espaços devem propiciar espaço para conhecimento, reconhecimento, crescimento e mudança. Ao invés de nos anestesiarmos não só dos sofrimentos mas também das belezas do mundo, devemos aprender a diferenciar o feio do belo, pois só assim vamos transformar o feio em belo.

O problema do mundo não está na nossa química cerebral: ele está no mundo e requer que sejamos todos agentes, com nossas capacidades mentais, críticas e reflexivas funcionando sem dopping, para conseguir modificar o mundo onde vivemos. Só assim teremos um mundo melhor, não só livre de sofrimento pessoal, mas também – e principalmente – para que os nossos filhos possam viver nele sem precisar de químicos para resolver os seus problemas

Comments (9)

    • Carmelita Isaías de Macêdo

      Excelente! Você expressou com precisão o que tem acontecido com a nossa sociedade. Para o médico, é mais fácil oferecer um antidepressivo para o choro no consultório do que escutá-lo por 10 ou 15 minutos, mais simples um benzodiazepínico para a insônia do que tentar descobrir a causa da ansiedade. Ótimo texto para reflexão e discussão.

  1. Pablo, caí aqui por acaso, e gostaria de te dar os parabéns! O blog é excelente, assim como seu Formspring. Sou mestrando em Psicologia Junguiana, e gostei muito da resposta onde você traçou, digamos, a genealogia da teoria junguiana. Não pare de postar!
    Grande abraço,
    Douglas Kawaguchi

  2. […] Pablo de Assis on 27/02/2013 Quem me conhece e conhece meu blog sabe que eu defendo encontrarmos alternativas aos tratamentos medicamentosos dos transtornos mentais. Isso porque não acredito na eficácia dos remédios para tratar transtornos mentais. Mas isso […]

  3. […] doença, mas deixa sequelas graves durante o tratamento. E um outro lugar que isso aparece são nos psicofármacos – mas isso quase ninguém quer […]

  4. Pablo, acho que você tocou num ponto muito válido. Mas acho que ao mesmo tempo em que existem pessoas medicadas a toa, devem haver casos de pessoas que realmente necessitam do tratamento.

    Ao mesmo tempo, acho excelente discutir o assunto. A maioria das pessoas fica fechada em suas próprias opinoões sem escutar ninguém nem querer refletir sobre o assunto…

    • Oi, Mariana! Realmente, a lógica dos extremos vale, ou seja, se existem vasos exagerados, podem existir casos necessários… mas veja bem: o que é precisar de remédio para tratar e esse remédio vai tratar o quê? O que é esse tratamento?
      Dia desses estava conversando com alunos sobre isso e levanta-se uma série de questões a respeito: primeiro, qual é o limite da necessidade – como saber qual caso realmente precisa e qual caso é desnecessário se o próprio diagnóstico psiquiátrico é algo tão efêmero que muda-se a cada novo olhar? Segundo, que problema é esse tratado quimicamente – sendo que todos os casos, quando estudados, possuem questões existenciais, de relacionamento, escolha e perspectiva que pouco tem a ver realmente com questões químicas, que mais parecem como consequência dos primeiros? Terceiro, se medicamento realmente fosse necessário, será que a própria indústria farmacêutica não iria fazer uma forcinha para que os demais profissionais da área da saúde receitassem seus remédios também, já que isso aumentaria seus lucros – ou será que o fato das demais profissões não usarem tais medicamentos para tratar de transtornos mentais é devido a um posicionamento crítico desses profissionais com relação a seu uso?
      Enfim, posso aqui levantar tantas mais outras questões – e talvez até escreva um livro só com questões sem resposta a respeito desse problema! – o que me leva a perceber que são muito mais dúvidas do que certezas com relação à necessidade do uso de remédios que transforma a breve janela da necessidade do tratamento medicamentoso em uma enorme dúvida também! E, entre as dúvidas e as certezas, fico com minhas dúvidas… 😉

  5. Luciane Ilário

    Olá,Pablo! Sou professora de redação,estava a procura de textos para falar sobre medicalização da vida e me deparei com seu blog. Me ajudou muito.Obrigada e parabéns!

  6. […] é do celular. E isso me faz lembrar de um experimento clássico que demonstra que o problema da dependência de drogas não é do uso das drogas, mas sim do ambiente onde o usuário se […]

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