A Psicofobia e o Diagnóstico em Saúde Mental


Como devemos tratar quem sofre?Quem me conhece e conhece meu blog sabe que eu defendo encontrarmos alternativas aos tratamentos medicamentosos dos transtornos mentais. Isso porque não acredito na eficácia dos remédios para tratar transtornos mentais. Mas isso acabou trazendo um problema anexo: a psicofobia.

Psicofobia é o medo, preconceito ou repulsa a pessoas que foram diagnosticadas com transtornos mentais. Em outras palavras, se eu mostro indiferença a uma pessoa dita “bipolar” ou à sua condição posso ser chamado de psicofóbico, de não reconhecer seu sofrimento. Mas aqui existe uma diferença entre a condição e seu tratamento ou diagnóstico e infelizmente temos essa grande confusão.

Percebam que no parágrafo acima eu usei a expressão “pessoas que foram diagnosticadas com transtornos mentais” ao invés de usar a mais comum “doentes mentais”. Isso não é porque quero ser politicamente correto, mas sim porque considero essas pessoas não como doentes mentais, mas sim como pessoas normais que foram diagnosticadas, não com uma doença, mas com um transtorno mental. Um diagnóstico não é o reconhecimento da realidade, mas somente a forma como um médico compreende uma condição de saúde.

Quando um profissional realiza um diagnóstico, ele está tentando compreender uma série de sintomas e sinais, junto com todo o seu conhecimento teórico para poder organizar a condição do paciente e para poder propor um tratamento. A final, cada diagnóstico pede um tratamento diferente e se temos o mesmo diagnóstico podemos ter um mesmo tratamento.

O Dr. Patch Adams foi diagnosticado com transtorno Bipolar. Mas isso não o segurou nem um pouco!O diagnóstico serve somente ao profissional de saúde mental, não ao paciente. Dizer que ele é um bipolar ou um esquizofrênico não ajuda em nada! Na verdade, acaba prejudicando a situação pois isso acaba reduzindo o sujeito à sua condição. Podemos ver em vários filmes – como Patch Adams – que muitas vezes o médico (e generalizo aqui para o profissional de saúde mental) pode tratar o paciente como sendo só sua condição, ao invés de vê-lo como um sujeito.

Questionar os tratamentos e diagnósticos não é a mesma coisa que não reconhecer o sofrimento do paciente. Dizer que eu não acredito que uma determinada pessoa não tem transtorno bipolar ou que uma criança não é hiperativa não quer dizer que não compreendo que essas pessoas sofrem ou que têm problemas: isso quer dizer que eu questiono o diagnóstico realizado e – principalmente – a forma medicalizada de tratar do sujeito.

Ao invés de dizer que uma pessoa é bipolar e com isso fechá-la nesse rótulo sem possibilidades de redenção ou transformação implica em não reconhecer todo o resto de sua vida. Muitos já ouviram que um tratamento psiquiátrico é para o resto da vida, que o sujeito precisa para sempre tomar remédio e sem isso ele voltará a ficar louco. Mas isso em si é um erro.

Entenda melhor o TDAH!O mesmo acontece com crianças taxadas como hiperativas. Uma criança não é hiperativa: ela simplesmente funciona de uma forma diferente que os adultos querem e, como ela ainda está em formação, ela pode eventualmente se adaptar ou aprender a lidar com essa forma diferente de ser.

Uma pessoa que foi diagnosticada como sofrendo de transtorno bipolar é uma pessoa normal como qualquer outra: que também sofre. Porém, o seu sofrimento foi percebido e comparado com o sofrimento de outras pessoas e os médicos perceberam uma oportunidade de agir sobre essa forma específica de sofrimento. Só isso. Porém, todos sofremos, mas algumas pessoas sabem lidar melhor com isso do que outras.

Questionar diagnósticos é manter-se em um nível científico e cético. É tentar encontrar alternativas e tentar sempre melhorar a qualidade de vida dos sujeitos. Se eu simplesmente aceito o diagnóstico como verdadeiro, eu caio no erro do dogmatismo médico e passo a aceitar tudo como sendo a única verdade. Mas será que o médico é incapaz de errar? Será que o diagnóstico não pode ser outro? Será que é impossível haver outra forma de tratamento para o sofrimento psíquico?

A ciência é aberta e minha postura diante do sofrimento psíquico também. Por isso questiono todos os diagnósticos e tenho uma grande dificuldade em simplesmente aceitá-la. Sempre que um conhecido me diz que é “depressivo” ou “bipolar” ou que “tem TOC”, eu fico com pé atrás porque só vejo nisso uma tentativa de rotular o sujeito e de não compreendê-lo.

Na verdade, ao questionar, olho nos olhos da pessoa e tento compreendê-la na sua totalidade e percebo que ela vai muito além de sua depressão ou de sua mania ou de qualquer outra condição de sofrimento. Essa pessoa possui potencialidades incríveis que muitas vezes são abafadas ou arrancadas por conta de um mal diagnóstico mental ou ainda por um tratamento desnecessário.

Essas obras são todas de pacientes psiquiátricos. O que você acha delas?Questionar o diagnóstico e o tratamento não é o mesmo que psicofobia. Psicofobia é, por exemplo, não contratar uma pessoa porque ela toma antidepressivo. Psicofobia é não deixar seu filho ser amigo de uma criança que foi diagnosticada como hiperativa. Psicofobia é não apreciar a obra de arte de grandes brasileiro só porque eles foram institucionalizados. Psicofobia é achar que uma pessoa diagnosticada com esquizofrenia vai eventualmente arrancar a sua cabeça e usá-la como chapéu, e por isso ela deve ser evitada. Psicofobia é não querer procurar ajuda profissional para resolver seus problemas e amenizar seu sofrimento só para não ser chamado de louco pelos amigos por ir ao psicólogo ou psiquiatra.

Para melhor compreendermos esses casos e ainda conseguirmos diminuir o preconceito das pessoas sobre os transtornos mentais é necessário o questionamento. Mas é necessário também – e principalmente – a compaixão para não deixá-los presos nos diagnósticos. Quem sabe, ao final disso tudo, conseguimos abrir mão de rótulos médicos e simplesmente aceitamos a todos da forma que são?

Comments (7)

  1. Qualquer leigo no assunto deveria compreender que seja qual for a doença e/ou transtorno mental acarreta uma perda substancial da qualidade de vida como por exemplo é difícil manter horários seguir uma rotina comum e principalmente no que se refere ao contato social fazer amizade é como nos preservássemos de futuras rejeições.Se no seio familiar:irmãos,primos,tios e filhos somos vistos como os “loucos” que a qualquer momento podemos dar um surto psicótico mesmo sabendo que a vida inteira você foi e é monitorado pelo psiquiatra nem assim você tem algum tipo de credibilidade muito pelo contrário convivo desde adolescente cheguei aos 48 anos sobrevivendo a esse estigma que digo por experiência própria é pior que o desconforto da doença em si.E se existe uma lei 10.216/2001 e o art.129 do Código Penal que cita a ofensa á saúde e portanto inclui a saúde mental. A Emenda ART.247 do Senador Paulo Davim do PV/RN PRECISA URGÊNTEMENTE SER VOTADA EM UNANIMIDADE PARA SANAR ESSA INJUSTIÇA.Essa lei precisa ser respeitada e executada com vigor porque compreendo que varias causas de suicidios se baseiam nesse desrespeito a dignidade humana onde violam cruelmente nossos direitos.Vanuzia Carneiro Salvador Bahia BRASIL

  2. Andre Luis

    Seu texto é muito bom! Tem muita coerência e realidade em quase tudo. Na prática acaba sendo bem diferente da teoria. Outra coisa importante: questionar um diagnóstico é sadio, válido e um direito. A medicina realmente se utiliza de diagnósticos para tratar doenças. Ninguém procura um médico se não se sentir doente. Mas é importante tomar cuidado para não fazer o paciente acreditar que não está passando por uma doença, quando na realidade está. Tem que se frisar ao paciente a importância do tratamento médico e psicoterápico. Algumas situações, obviamente poderão ser resolvidas apenas com uma psicoterapia. Mas falar que tudo é medicalização pode ser de grande irresponsabilidade.
    Abraços e parabéns pelo texto.

  3. […] em escola pública, de pessoas que pertencem a outras culturas, de deficientes físicos ou que sofrem de transtorno mental. São posturas preconceituosas e ignorantes. São posturas que não reconhecem o valor da vida […]

  4. […] exemplo de como isso acontece em outra área são as discussões sobre Saúde Mental. De um lado, temos aqueles que defendem posições naturalistas, dizendo que a doença mental é […]

  5. […] A psicofobia e o diagnóstico em saúde mental – Será que existe doença mental? Será que os diagnósticos não podem ser questionados? E por que precisamos associar a identidade das pessoas às suas condições de sofrimento? […]

  6. Isabel Campos

    Quando “vamos”, para uma perícia no INSS, para afastamento do trabalho, pq temos depressão, síndrome do pânico, etc, os médicos nos tratam como, pessoas sem vontade de reagir, ou ,falta do que fazer, como se essas doenças fossem brincadeira! passei por isso, sei o qto dói, ser atendida por um profissional que nem é da área,(no meu caso, uma pediatra), tratar a doença,com descaso.E nos dá alta,por desinformação!

  7. A psicofobia deve ser considerada crime sim. Quanto aos diagnósticos eu pela minha experiencia meu diagnostico foi dificílimo de ser feito. e podem acreditar fiquei 2 anos sem remédio por esquizofrenia simples (Suspenso pelo meu médico),mas tive que retornar , pois tive recaída. mesmo sem saber o diagnóstico é só preciso saber que a pessoa vai ao psiquiatra para ser estigmatizada. O diagnóstico é útil pois ajuda a detectar a fonte do sofrimento nas pessoas.

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