Os Bodes Expiatórios e os crimes da sociedade


Culpamos o bode pelos nossos errosOutro dia estava comentando em sala de aula que temos uma cultura do bode expiatório, onde queremos encontrar um culpado pessoal para os problemas da sociedade. Na tradição original do “bode expiatório” na grécia, os pharmakos eram pessoas escolhidas por uma cidade para que elas levassem consigo os crimes e pecados da cidade e eram castigadas com o pior dos castigos da época: o Ostracismo, ou seja, eram banidas da cidade, perdiam a cidadania e nunca mais podiam voltar.

Para entendermos o quão grave era isso para eles, naquela época, vida em cidade era mais importante que vida individual, tanto é que cidades inteiras eram castigadas, como aconteceu com Sodoma e Gomorra, na bíblia ou ainda no mito de Édipo com a cidade de Tebas. Viver sem cidade era viver sem identidade.

Na tradição bíblica, todo pecado – seja ele da cidade ou do indivíduo – precisava ser pago com a morte. Eles resolveram que, ao invés de matar o pecador, essa pessoa sacrificaria um bode que morreria pelo pecado da pessoa e assim o mandamento de que todo pecado seria pago com a morte estava sendo cumprido. O cristianismo modifica isso pois eles aceitam o sacrifício de Jesus como sendo o sacrifício definitivo para todo o pecado do mundo, então a partir daí, ninguém mais precisa morrer por conta do pecado.

Então temos aí um padrão mítico, do mito do bode expiatório, onde uma pessoa acaba se responsabilizando – ou levando a culpa – pelo grupo: uma pessoa pagando pelos crimes e erros de um grupo todo. E, por mais que isso pareça algo de uma mentalidade antiquada, esse é o padrão que eu mais vejo pelo mundo atualmente, o que nos diz que nós temos ainda uma mentalidade antiquada.

O Bode Expiatório e os Fármacos

O bode expiatório é aquele que leva embora os pecados de todosComo havia dito, na Grécia, o bode expiatório era chamado de Pharmacos, a pessoa escolhida para levar à diante a limpeza ritualística da cidade. Essa palavra depois passou a ser o pharmakeus e depois pharmakon, designando uma poção que pode ser ao mesmo tempo veneno e cura. O pharmakon era dado à pessoa que sofria de algum mal, alguma doença. O produto o curava, mas por ser um veneno também, acabava produzindo um outro mal. Em outras palavras, o pharmakon trocava um mal por outro mal.

Atualmente, temos isso nos remédios que oferecem os efeitos colaterais diversos. O mais explícito disso está na quimioterapia contra o câncer. Ela pode até matar a doença, mas deixa sequelas graves durante o tratamento. E um outro lugar que isso aparece são nos psicofármacos – mas isso quase ninguém quer dizer.

Todo psicofármaco apresenta efeitos colaterais. Na prática, a indústria farmacêutica, ao anunciar um novo remédio, na verdade acaba só anunciando os efeitos que ela acha que pode vender. Os outros coloca na categoria de “efeitos adversos”. Mas todos os efeitos vêm com o remédio. Ou seja, se de repente eles percebem que um efeito colateral na verdade serve para tentar resolver outro problema, pega-se o mesmo produto e troca-se a embalagem para vender como sendo outra coisa e aquele antes “efeito colateral”  passa ser o efeito principal. Existem várias outras falácias das drogas, mas vou parar por aqui.

A relação disso com o bode expiatório vem de dois caminhos: o primeiro é que o psicofármaco acaba tratando o sujeito como um bode expiatório, livrando-o de coisas que não tem nada a ver com a história. Um antidepressivo livra o sujeito também de seu prazer sexual e, nesse sentido, sua libido acaba sendo o bode expiatório de sua depressão, por exemplo. A depressão vai embora, mas vão os prazeres junto.

Outra relação é que, ao fazermos isso, ao tratarmos o sujeito com psicofármacos, estamos nada mais nada menos que o responsabilizando por crimes da sociedade. Sim, o psicofármaco transforma o sujeito que o consome em um bode expiatório! Mas como assim? Que mágica é essa?

Os psicofármacos são empurrados para nós como só tivéssemos culpa dos nosso problemasSimples. O sujeito trata-se de depressão porque dizem para ele que a tristeza não tem espaço em uma sociedade que precisa da produção, de consumo, de felicidade e de ignorância. O sujeito trata seu filho de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade porque dizem para ele que é possível a criança prestar atenção na escola e ficar obediente e assim o pai não precisa se responsabilizar pela crianção do filho. O sujeito trata seu familiar de transtorno bipolar porque ele não consegue ligar com a variação de humor, com os altos e baixos da vida e, principalmente porque nem o sofredor nem o sujeito conseguem lidar com as emoções que acabam vindo para serem vividas.

A sociedade nos impôs uma forma de vivermos que é criminosa: ela nos extirpa da nossa individualidade, nos impõe obrigações hercúleas, e quando não conseguimos segui-las, somos vistos como doentes. Só os poucos heróis que são bravos o suficiente para aguentar é que são os normais: todos os outros somos doentes mentais. Existe uma estatística que diz que em breve, mais de 50% da população do mundo estará sendo tratada por algum transtorno mental, o que me leva à reflexão do Alienista de Machado de Assis: se todas as pessoas são loucas, não seria a loucura a normalidade e o médico que fez os diagnósticos, o verdadeiro louco?

Enquanto tratamos os problemas da sociedade como se fossem problemas individuais, a sociedade pode continuar errando. Podemos continuar consumindo e produzindo como se não houvesse amanhã – pois nesse ritmo não haverá mais amanhã mesmo. Podemos tratar nossos filhos tirando-os de sua curiosidade e energia naturais só porque não temos tempo ou paciência para eles. Podemos ignorar nossos sentimentos pois eles nos tiram do foco principal que são os interesses gerais da sociedade e não do indivíduo. E assim, os problemas sociais continuam sendo pessoais e o sujeito vira um bode expiatório da sociedade.

Os crimes à mais de 190km/h

190km/h é crime. De quem?A discussão na sala de aula esquentou quando usei o exemplo de Carli Filho e como o fato de queremos a punição dele pela morte criminosa de dois jovens era uma forma de bode expiatório. Simplesmente porque a sociedade estava errada em permitir carros de cidade andar a mais de 80km/h ou ainda a sociedade que valoriza o risco e a velocidade. O crime foi social e o carrasco foi Carli Filho que executou dois inocentes, mas os problemas do trânsito são, como diz o nome, do trânsito, não das pessoas!

Não quero aqui dizer que os motoristas em nada tem a ver com isso, pois eles fazem parte do trânsito também, como também o fazem os pedestres, os carros estacionados em qualquer lugar, os carros grandes que andam nas ruas apertadas ou os carros rebaixados nas ruas esburacadas, e ainda as ruas apertadas e esburacadas, além dos policiais que fazem blitz para cumprir meta e os espertalhões que acham que são melhores do que qualquer um desses. Aquela pessoa que fura o sinal vermelho só porque não tem nenhum carro vindo é tão criminoso quanto o outro que estaciona em vaga de idoso ou deficiente. Tem também aquele que passa correndo no pedágio para não ser pego ou ainda o outro que só gosta de correr por correr mesmo e costura todos os carros e não está nem aí para o caos que deixa para trás. E o básico também que não coloca cinto de segurança só porque vai até a esquina comprar pão. Acho que não preciso continuar com exemplos para dizer que o trânsito está CHEIO de problemas. Mas não é criminalizando um ato que já é criminoso ou culpando uma pessoa pelos problemas de todos que iremos responder a isso.

Também não quero dizer que Carli Filho é inocente, pois ele realmente cometeu um crime aos olhos da legislação. Mas, de um ponto de vista do bode expiatório, enquanto culparmos ele, não estaremos vendo que todos somos responsáveis pela segurança do trânsito. 190km/h é crime? Pode até ser. Mas furar sinal, escapar de blitz, não usar cinto de segurança, parar em faixa de pedestre, estacionar em vaga de idosos “só por um minuto” também é. E rebaixar o carro para ter que andar à 10km/h nas nossas ruas ou ter um carro enorme para ocupar o espaço de dois carros econômicos só para mostrar status também é bem errado nos olhos do bom-senso social!

Se o político é ladrão, é o ladrão que representa o povoO bode expiatório político

O mais comum é culpar o político pelo erro do eleitor. A final, o político está lá por conta própria e ninguém o colocou lá. Mas não queremos perceber que fomos nós que elegemos os corruptos, ladrões, homofóbicos, racistas e criminosos e que eles nos representam enquanto nação. O problema não é dos políticos que estão lá: o problema é da nação que os colocou lá. Enquanto não percebermos o nosso papel como responsáveis pela sociedade, continuaremos a culpar os políticos pelos nossos erros.

A tradição do estupro e do crime social

Nós tratamos as mulheres como vadias...Talvez o bode expiatório que mais vejo por aí diz respeito ao estupro. Há um tempo atrás, não entendia a tal “marcha das vadias”, pois para mim não fazia sentido uma mulher fazer marcha para se dizer vadia. Mas o que percebi foi a sutileza do protesto. Quem se diz vadia não são elas: somos nós que as chamamos assim. Não é porque são mães solteiras que são vadias. Não é porque gostam de roupas curtas que são vadias. Não é porque mostram o corpo que são vadias. Elas são todas mulheres como nossas mães, irmãs e filhas e seres humanos como todos nós e por isso merecem respeito.

E o que fazemos? Culpamos a mulher estuprada pelo estupro porque ela estava no lugar errado na hora errada usando roupas provocantes ou simplesmente sendo mulher. Quem ela pensa que é ser uma mulher andando na cidade? Tinha mais é que ser estuprada mesmo! E o triste é que ensinamos aos nossos filhos a fazerem isso, a agirem como machos alfa, como dominadores e possuidores das mulheres. Criamos uma cultura do estupro.

Criamos na nossa cultura que é correto estuprar, mas errado ser estuprada. É correto ser agressivo, mas o erro foi da mulher que provocou o homem. É correto agir por impulso e violentar mulheres, mas o erro está na mulher não ser macho o suficiente para levar isso na brincadeira. E todos os dias as coisas vão de mal a pior é ninguém faz absolutamente NADA a respeito.

Força e Corágem é o que diz a tatuagem. Ela tinha, mas tiramos isso dela.O que me chamou a atenção foi uma notícia que li hoje sobre a morte de uma garota de 17 anos no Canadá, Rehtaeh Parsons. Ela morreu no hospital no dia 7/4/2013 após uma tentativa de suicídio por enforcamento. Esse suicídio foi motivado pela vergonha que sentira e do bullying que sofria após ter sido estuprada aos 15 anos de idade e de os agressores divulgarem uma foto do ocorrido na internet. Sua vergonha tornou-se viral e conhecida por todos. Ela passou a ser conhecida como uma vadia e isso arruinou sua reputação. E os garotos que a estupraram, por serem jovens também, não foram responsabilizados.

Outro caso semelhante aconteceu com Amanda Todd, uma garota que cometeu suicídio aos 15 anos de idade. Sua tragédia começa quando ela tinha 12 anos de idade e, ao receber vários elogios de sua beleza em um chat na internet, resolveu ceder à pressão e mostrou partes de seu corpo. Um ano depois uma pessoa que estava naquele chat a ameaçou via Facebook dizendo que se não fizesse um show particular, ele mostraria as imagens daquele chat para seus amigos e familiares. Ela passou a ser perseguida por essa pessoa que sabia tudo sobre ela.

Amanda sofreu bastante antes de morrer nas nossas mãos.Um ano depois, essa pessoa montou uma página no Facebook mostrando todas as fotos que possuía. Ela mudou de escola, de cidade, mas sua reputação já estava destruída. Ela ficou com depressão, ansiedade, se mutilava e chegou a tomar alvejante para tentar se matar. Ela também conheceu um garoto mais velho que disse estar gostando dela e, mesmo tendo namorada, a iludiu a ficar com ele. Essa namorada e as amigas descobriram e a enfrentaram na frente da escola, humilhando-a ainda mais. Todos diziam que queriam vê-la morta e pediam seu suicídio nas redes sociais. Alguns até chegaram a mandar mais alvejante para sua casa. Um mês antes de completar 16 anos de idade ela também se enforca.

Podemos racionalizar que sua morte foi uma tragédia, mas ninguém as obrigou a morrer e que foram suicídios voluntários. Mas, enquanto fazemos isso, estamos ignorando que elas foram bodes expiatórios da nossa própria cultura machista. Os agressores de Amanda Todd nunca foram presos ou condenados, até mesmo porque as agressões eram generalizadas. O mesmo acontecia com Rehtaeh Parsons. Todos nós fomos seus agressores, seja por ato, seja por omissão. Mas, racionalizamos dizendo que as culpadas foram as vítimas.

Nosso crime, nossa responsabilidade – não do coitado do bode que não fez nada

Enquanto isso, não percebemos que foi a sociedade quem matou Rehtaeh Parsons e Amanda Todd, não foi o suicídio. Não percebemos que os Felicianos e Genuínos na política são meros reflexos da população que os elegeu. Não percebemos que todos somos Carli Filhos por não respeitarmos o trânsito e ignorarmos o bom senso em nome do prazer individual ou de vantagens pessoais. E não percebemos também que crianças são crianças e serão agitadas mas isso não as torna menos humanas, que a tristeza é natural e que chorar faz parte da vida, que as emoções são o que nos torna mais humanos e que não precisamos ser máquinas nem consumir desenfreadamente e que às vezes parar para refletir é necessário.

Até quando culparemos os bodes pelos nossos problemas? Ele está de olho!

Enquanto isso, encontraremos bodes expiatórios e novas Rehtaeh Parsons, Amanda Todds, Gilmar Rafael Yareds e Carlos Murilo de Almeidas (estes dois, vítimas dos atos de Carli Filho) chegarão e serão ignorados, e todas as pessoas que se sentem prejudicadas pelos atos dos políticos e todos os milhares que morrem todos os anos pelo uso indevido de psicofármacos serão esquecidos, pois a sociedade precisa manter seus valores, sua moral íntegra, nem que isso custe a vida de algumas outras tantas pessoas. O bode expiatório será necessário enquanto não quisermos nos responsabilizar pelos nossos atos, nossas escolhas e omissões.

Comments (8)

  1. Excelente texto, Pablo. Posso ter discordado num ponto ou em outro, mas não vem ao caso pois a idéia central está, a meu ver, perfeita.

    Só acrescentaria dois pontos que vejo relacionados com isso: “me engana que eu gosto” e imaturidade.

    Adoraria desenvolver isso mas, como estou sofrendo para digitar no celular, não vai rolar. =P

    Mas fica a dica.

  2. […] Renan ou se o Sarney ou se o Presidente do STJ ou do TCU? Ninguém sabe. Mas para o Governo, ter um bode-expiatório é muito bom, pois assim, tira-se a atenção dos corruptos governistas e coloca-se nos corruptos […]

  3. […] Os bodes-expiatórios e os crimes da sociedade – Os fármacos originalmente eram bodes-expiatórios e hoje em dia continuam sendo. Culpamos o indivíduo pelo crime da sociedade e induzimos ele a tomar remédios – fármacos – para se adequar a uma sociedade doente. […]

  4. […] Bodes expiatórios e os crimes da sociedade […]

  5. Patríciaflores

    Excelente texto, estou pesquisando a medicalização da educação e o fracasso escolar.

  6. Humberto

    Não tenho detalhes, mas achei muito bom o texto…

  7. SCAPEGOAT

    melhor texto que já li sobre o assunto. mas se pensar fundo o mundo sempre foi e sempre sera assim e a humanidade nunca irá a lugar algum. temos que voltar nosso ódio e rebeldia contra a humanidade/sociedade, mas claro que de forma inteligente. particularmente tenho a misantropia, egoísmo e isolamento social como ideologia de vida, a qual faço minha parte pra prejudicar o ser humano lixo, pois cada circulo social precisa de bode expiatório pra se manter, embora a merda da minha família já me faça de bode expiatório.

  8. Euronymous

    por mais grave que as garotas tenham sofrido, se suicidar é ser o perdedor da historia, e alem disso se matar é dar razão pra humanidade. Por mais fracassada que a pessoa seja, a pessoa não deveria se matar, e sim continuar em frente, sempre lutando contra o mundo, contra a sociedade, contra a humanidade, mesmo que nao ha chance de vitoria, o lutar é a arte de existir.

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