Uma nova rodada para a “Cura Gay”


Como aconteceria a Cura Gay?Diante da notícia do arquivamento do projeto da “Cura Gay”, vemos que as manifestações populares conseguem mostrar para os deputados qual é o desejo do povo e não só de uma minoria. Pela notícia, parece que o Dep. João Campos resolveu arquivar o projeto, mesmo ainda acreditando nele. Mesmo assim, tem muita gente ainda falando sobre isso, principalmente por conta da desinformação. E quem mais está desinformado é o próprio legislativo! Um dia após o arquivamento pelo autor original, o Deputado Anderson Ferreira, do PR-PE – também da bancada evangélica do congresso – reapresentou o mesmo projeto, sem alterações, pois ele sente que isso ainda precisa ser discutido…

Pois bem, vamos discutí-lo! Um pouco tempo depois de eu ter escrito meu artigo sobre o que há por trás da cura gay, é lançado um vídeo do deputado Marco Feliciano onde ele se propõe a falar “tudo da cura gay”. Até aí, acho ótimo ele também esclarecer os pontos que ao público ficaram vagos. E, de fato, ele começa esclarecendo vários deles!

Mas, ao mesmo tempo, ele nos chama a atenção a respeito da “desonestidade intelectual” que a mídia supostamente faz ao manipular a opinião do público a respeito desse projeto de decreto legislativo. Segundo suas palavras, “desonestidade intelectual: quando querem destruir a imagem de alguém e quando querem que as pessoas pensem uma coisa, quando na verdade é outra”. O mais interessante e tudo isso é que quem foi desonesto intelectualmente não foi a mídia – que no máximo pode-se dizer ignorante dos detalhes. Quem foi desonesto intelectual foi o próprio pastor que manipulou a verdade para “destruir a imagem” da mídia e dos psicólogos a respeito da cura gay. Então, vamos por partes…

Vamos começar dando os créditos onde eles são devidos. Realmente, no início do vídeo, o pastor/deputador esclarece que esse projeto não é de sua autoria, pois muita gente está associando a PDC 234/11 a ele. Mas isso não tira o mérito de ele defender tal projeto – até mesmo porque se ele não o defendesse, ele não teria feito tal vídeo sobre isso.

Infelizmente, a Cura Gay não seria pelo SUS...Mas acredito que os méritos terminam aí, pois o que ele comenta a seguir são exemplos de pura desonestidade intelectual, com o objetivo – segundo suas próprias palavras – de destruir a imagem de quem critia o projeto, ou seja, os psicólogos e a mídia.

Ele começa então dizendo que o parágrafo único que o PDC 234/11 pretende sustar impede que psicólogos tratem homossexuais, que estudem a homossexualidade ou recebam em seus consultórios pessoas que sofrem por serem homossexuais. A desonestidade aí é tão grande, que nem percebemos, mas vamos apontar: o parágrafo único do artigo terceiro da resolução 01/1999 do CFP diz: “Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades”. Ou seja, o que a resolução proíbe é tratar a homossexualidade, mas não os homossexuais. O que a resolução proíbe é tratar a homossexualidade, mas não estudá-la. O que a resolução proíbe é tratar a homossexualidade, mas não de cuidar do sofrimento dos homossexuais a respeito de sua sexualidade. Conseguem perceber a diferença? Não? Então vamos esclarecer.

Tratar a homossexualidade implica em considerar a homossexualidade como tratável, ou seja, como sendo algo desejável de ser modificada ou alterada. Tratar algo psicoterapeuticamente implica – em última instância – em modificação de consciência ou comportamento sobre o que se está tratando. E modificar a consciência do homossexual ou o comportamento homossexual implica em poder mudar a sexualidade do sujeito.

O problema da ambiguidade sexual - conhecida desde sempre - nos leva a questionar a própria sexualidade humana.O problema nisso é que não existe problema algum com a sexualidade do homossexual pelo fato de ele ser homossexual. O problema nisso é que dizer que a sexualidade homossexual ter problemas que mereçam tratamento, isso indica que existe uma postura sexual não problemática mais desejável. No caso em questão, indicamos indiretamente que, ao se tratar a homossexualidade, a heterossexualidade é o padrão desejável e buscado. Acontece que não há absolutamente nada que confirme isso – a não ser posturas tradicionais, religiosas e anti-científicas. A sexualidade hoje é vista como algo tão amplo que suas possíveis definições fogem das simples classificações.

Por exemplo, se a homossexualidade é tratável, como ficam os bissexuais? Será que eles recebem meio tratamento, irão tratar somente parte de sua personalidade para deixar de gostar de algo, já que a pessoa também gosta daquilo que deveria gostar? E como ficam os hermafroditas, pessoas geneticamente com ambos os genitais ou com sexualidade genital ambígua? Se a pessoa é geneticamente homem, por exemplo, mas seu corpo se desenvolveu para ter genitais femininos, essa pessoa pode gostar de mulheres – segundo seu padrão genético – ou de homens – segundo seu padrão fenotípico? E, nesse caso, essa pessoa receberia qual tipo de tratamento – para gostar de que?

E isso que falei somente de dois exemplos. Os casos vão bem mais além. Um transexual, por exemplo, é outro caso desafiador. Em outro exemplo, um homem que gosta de mulheres e é heterossexual, ele não precisaria de tratamento. Mas, se esse homem for transexual e passar por procedimentos de transformação genital e assumir uma identidade física feminina e ainda continuar gostando de mulheres, essa pessoa seria identificada como sendo homossexual ou heterossexual? Ela mereceria tratamento e se encaixaria no padrão homo-hetero, ou como podemos lidar com quadros assim – que são mais comuns do que imaginamos?

Só alguns exemplos para ilustrar como a sexualidade é um ponto muito amplo. Tão amplo e tão estudado que a tendência agora é abandonar esses termos que não conseguem dar conta da diversidade de comportamentos sexuais experienciados pela humanidade. E, adivinhem: essas pesquisas foram realizadas e são ainda realizadas a pesar da resolução 01/1999 do CFP. Os Conselhos de Psicologia somente evitam que psicólogos tratem pessoas prometendo a cura da homossexualidade – pois é essa a intensão da resolução. E, mesmo que apareça uma pessoa pedindo tal cura, o psicólogo não pode prometer – da mesma forma que um médico não pode prometer a cura do HIV. Mas aqui há uma diferença: o sujeito pode tratar o HIV, mas não há como tratar a homossexualidade.

E por que a homossexualidade é intratável? Não é porque ela não é considerada doença (o que se resolveria passando a considerá-la uma doença), mas simplesmente porque psicólogos não tratam de doenças: psicólogos tratam de pessoas e seus sofrimentos. Como sempre digo: o problema nunca está no “quê”, mas sempre no “como”. Então, o problema não está na homossexualidade, mas sim na forma como o sujeito vive sua sexualidade. O sofrimento vem em casos de incongruência, o sofrimento vem da não aceitação, vem da negação e do medo, da ignorância e do preconceito. Essas são formas como o sujeito vive, são os “comos” das experiências humanas – e é isso que o psicólogo trata.

Se aparecer uma pessoa com depressão, o psicólogo não tratará a depressão, mas sim a forma como o sujeito vive, suas atitudes, seus sentimentos – que são eventualmente identificados como uma forma depressiva de se viver. Mas isso não quer dizer que a pessoa tenha uma entidade nosológica chamada “depressão“, como uma pessoa pode ter um vírus, como o HIV. Dessa mesma forma, não há tratamento para a homossexualidade – mas sim há tratamentos para pessoas ditas homossexuais que sofrem com sua sexualidade. Aí a questão tratada não é a homossexualidade, mas sim a forma como o sujeito vive sua sexualidade.

Aqui vale uma grande parênteses, relativo à – falta de – compreensão dos deputados. O grande bafafá do PDC 234/2011 foi por conta da aprovação dele na Comissão de Direitos Humanos. Só que além dessa comissão, ele também recebeu parecer favorável em outra comissão, a de Segurança Social e Família. Vale a pena conhecer alguns de seus argumentos, pois eles refletem a falta de conhecimento do papel do psicólogo e inclusive ilustram uma má reflexão e má interpretação do texto da resolução – o que me leva  a refletir se a interpretação simplesmente foi mal feita ou se há má-fé na hora de interpretar.

Uma das partes que me chamou a atenção foi uma reflexão legítima a respeito de casos reais de pessoas que precisam de ajuda psicológica referentes à questões sexuais e de homossexualidade:

Dizer que não existem pessoas que vivenciam a homossexualidade e que sofrem não é razoável. Mas, a título de ilustração, quero apenas lembrar aos membros desta Comissão, as denúncias que a mídia já nos trouxe de que adolescentes heterossexuais estavam sendo traficados da Ilha do Marajó, no Estado do Pará, para se prostituírem fingindo serem travestis. Estes jovens vivenciaram a homossexualidade e, depois de libertos da escravidão sexual, se aplicado o parágrafo único do art. 3º e o art. 4º da Resolução do Conselho Federal de Psicologia nº 1/99, de 23 de março de 1999, não poderiam receber ajuda e tratamento? O Conselho Federal de Psicologia de certo não previu situações como essa.

Esse é mais um belo exemplo da falta de informação sobre o papel do psicólogo e uma má interpretação (ou simples má-fé na interpretaçã0) dos referidos artigos da Resolução do CFP. Acontece que, nesses casos, esses jovens podem sim procurar ajuda profissional ou serem indicados para tratamento psicológico. A questão toda está no seguinte – e aqui farei apenas especulações a respeito do caso baseado na minha experiência clínica: se esses jovens são heterossexuais e “vivenciaram a homossexualidade”, eles continuam heterossexuais e não precisariam de teria para “tratar suas homossexualidades”.

O sofrimento pode muito bem vir pela vergonha do prazer.A confusão presente – e possivelmente traumática – por parte dos jovens está no fato de que comportamentos sexuais são prazerosos. Possivelmente eles possam ter sentido prazer com relações homoafetivas e isso colocou em xeque sua visão sobre si mesmo, sua identidade sexual. Talvez eles sintam vergonha de terem gostado. Talvez eles se questionem se são homossexuais ou heterossexuais – questionamento ao mesmo tempo completamente saudável e completamente desnecessário. Faz parte do papel profissional orientar esse sujeito por esses questionamentos, até que ele perceba que o que é importante é a sua própria vivência, o seu próprio prazer, a sua própria realidade, independente de como a chamamos e do nome dado a isso. Se ele se descobrir homossexual ou heterossexual, isso deve ser valorizado. Se ele se descobrir homofóbico, isso deve ser trabalhado. E nenhum desses trabalhos psicológicos infringem a resolução em questão do CFP.

Por que não infringem? Simplesmente porque o profissional está tratando pessoas com problemas sexuais e em momento algum ele está tratando o comportamento sexual como sendo um problema ou uma doença. O sofrimento do sujeito – seja ele homossexual ou heterossexual – está na forma como ele vive sua sexualidade e não na sexualidade em si.  E uma coisa que devemos perceber é que problemas sexuais são em sua grande maioria problemas relacionais. Não se faz sexo sozinho, não se vive a sexualidade de forma isolada. A sexualidade talvez seja uma das formas de expressão psicológica mais puras justamente porque promove essa interação, essa vivência e essa relação com os outros (não é à toa que Freud coloca tanta importância sobre esse tema). Os eventuais problemas sexuais são problemas dessas relações com os outros – justamente por questões de incongruência, não aceitação, negação, medo, ignorância ou preconceito nessas relações, que acabam promovendo um afastamento e não vivência da sexualidade, provocando frustração e sofrimento. Mas isso pode acontecer com qualquer pessoa e é isso que o psicólogo sempre tratou e continuará tratando. E isso nunca foi mérito de discussão nem na resolução do CFP.

Outro ponto desse parecer do Deputado/pastor Anderson Ferreira diz respeito à falta de conhecimento sobre o preconceito e a homofobia:

Se determinado cidadão de orientação heterossexual, em conflito com a sua heterossexualidade, desejar ajuda por definir-se pela atração sexual por pessoas do mesmo sexo, o psicólogo poderá livremente atendê-lo em sua solicitação, segundo a orientação do CFP. No entanto, o sentido contrário não é permitido.

O pior de tudo é que esse argumento faz total sentido se tomado de um ponto de vista frio da resolução. Realmente, um psicólogo pode oferecer a dita “terapia de reversão” para transformar um heterossexual em um homossexual, mas não pode oferecer terapia para o contrário. Mas eu peço para que me indiquem apenas UM caso onde isso aconteceu, onde uma pessoa heterossexual – com seu comportamento sexual aceito e desejado pela sociedade em geral – tenha pedido por livre e espontânea vontade ser homossexual e enfrentar todos os preconceitos e discriminações que os homossexuais enfrentam. Isso não acontece e é um exemplo de um caso absurdo que não se encaixa nem nas minorias das minorias dos casos, que só nos leva à desqualificar o argumentador. Da mesma forma poderia questionar se um psicólogo pode tratar a homossexualidade de girafas – já que a resolução não fala nada sobre isso. Dá pra ver que é um argumento falho, certo?

Até o Bambi é vítima de homofobia e preconceito!Acontece que esse questionamento simplesmente ignora e coloca debaixo do tapete toda a realidade de preconceito que acontece no nosso país. Vale lembrar que o CFP regula a atividade profissional no Brasil e não no resto do mundo, logo dizer que na Europa é diferente não vale em nada neste caso. O nosso país é extremamente preconceituoso e de forma muito natural. Tanto é que é uma ofença ser relacionado a algo relativo à homossexualidade, como ser chamado de “gay”, “viado”, “bicha” ou até mesmo “Bambi”. Popularmente, nenhum desses nomes é dito a outra pessoa com o intuito de ser elogio, somente ofença, relacionando a pessoa ao comportamento homossexual.

Mas se você quer elogiar, basta chamar o sujeito por nomes que reforcem sua heterossexualidade: “machão”, “homem com H”, etc. Ou uma mulher, pois uma “mulher de verdade”, como no caso da Amélia, é aquela mulher heterossexual que respeita seu marido e faz de tudo para manter as tradições e se contenta em ser mãe e dona de casa. E posso continuar por mais várias páginas sobre os padrões “normais” da heterossexualidade no nosso país e dos padrões doentios ou pecaminosos da homossexualidade. Então, precisamos reconhecer que o preconceito principal está com a homossexualidade – a tal homofobia – e não com a heterossexualidade. Ninguém quer deixar de ser heterossexual, mas alguém pode ser convencido a deixar de ser homossexual.

A questão é que, mesmo ele sendo convencido a deixar de ser homossexual, o problema está justamente que esse convencimento é fruto de preconceito, negação, discriminação, incongruência, má fé e sofrimento. “Deixar de ser homossexual”, implica que ele pode ser heterossexual e que o heterossexual é mais desejável que o homossexual. O problema está justamente nessa postura heterossexista, de achar que o normal é ser heterossexual. Nossa sociedade é extremamente preconceituosa, inclusive contra os homossexuais.

Somos preconceituosos com muita coisa, inclusive com os homossexuais.

Voltando ao vídeo do pastor/deputado Marco Feliciano, outro ponto que ele discutiu é o artigo quarto dessa resolução que, segundo sua fala, proíbe o psicólogo de se expressar, de dar sua opinião nos meios de comunicação em massa. Oras, se isso fosse verdade, realmente, essa resolução deveria cair, pois isso é inconstitucional. Acontece que o deputador/pastor está sendo desonesto intelectualmente e apresenta a frase pela metade – ele não completa  a ideia e leva as pessoas a compreenderem errado a resolução. A resolução de fato diz:

Os psicólogos não se pronunciarão, nem participarão de pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica.

Se perceberem bem, a frase continua bem além da proibição de pronunciamento público, em meios de comunicação de massa – sejam eles a televisão, revistas ou até mesmo blogs e a internet -, complementando que esse pronunciamento não pode reforçar preconceitos sociais existentes. Simples. Para compreender o artigo, basta lê-lo com boa fé, não com má-fé, interpretando partes, da forma como bem quiser. Isso é desonestidade intelectual. E lendo de forma honesta, podemos ver que a proibição não é de pronunciamento de ideias, mas sim de pronunciamento de preconceitos. E isso está acertado, principalmente porque se a lógica do deputado/pastor fizer sentido (o que não faz), não há consenso científico sobre o tema, logo não há o que ser pronunciado nos meios de comunicação em massa. O que for pronunciado – por não haver consenso – é somente opinião, não fato científico.

Esse problema, na verdade, é algo que acontece direto pela mídia: uma pesquisa pela metade, um indício científico acaba sendo passado como uma verdade científica, um dogma de fé inquestionável. E isso leva a outros questionamentos por parte da sociedade. Então, para não haver confusões, nenhum psicólogo se pronuncia sobre isso. Simples.

Até crianças aprendem sobre o que não deve ser dito...Aqui não entra o direito do profissional: o que deve prevalecer é o bem-estar do paciente/cliente/cidadão. Um médico não tem o direito de não fazer uma cirurgia, só porque aconteceram complicações que extrapolaram seu expediente regular e ele não precisa fazer hora extra – por direito. Ele precisa terminar o que começou, pois ele é responsável pelo que faz. O mesmo acontece com o psicólogo. Ele pode não estar tratando do sujeito, mas se sua fala for trazer sofrimento ao sujeito, ele não pode se pronunciar. É algo que transcende a legislação e cai no bom-senso e no dever profissional. Permitir que psicólogos falem a favor do preconceito é algo que não faz sentido algum – por mais bem-intencionado que a pessoa pense estar. Seria como permitir que médicos espalhem doenças ou engenheiros deteriorem prédios. Simplesmente não faz sentido e vai contra a própria ética e postura profissionais.

Assim, não adianta dizer que é direito do profissional de falar o que pensa em público, pois, ao fazer isso, ele não estará dando somente sua opinião, mas sim se posicionando perante a sociedade representando uma classe profissional. E, por se tratar da defesa da imagem profissional, o conselho pode sim e deve regulamentar e dizer que, se um psicólogo se pronuncia a favor do preconceito, ele estará manchando a imagem de milhares de profissionais. E não adianta dizer que não existe consenso científico sobre o tema – como fez o deputado/pastor – pois não existe consenso científico sobre nada! A ciência sempre está mudando e sempre debatendo conceitos e talvez o único consenso científico é que sempre devemos questionar nossos conhecimentos – mas não a nossa ética.

Essa resolução do CFP visa justamente defender isso, defender a imagem profissional de pretensos psicólogos que se utilizam de suas credenciais para – baseados em princípios não-científicos – apoiar o preconceito social existente com relação aos homossexuais. O grande problema é que sem essa resolução muitos psicólogos com filiações religiosas poderão oferecer tratamento pseudo-científico de “reversão sexual”, ou seja, poderão dizer que estão fazendo ciência para mudar a sexualidade de homossexuais, quando estão na verdade fazendo proselitismo religioso. Essa resolução existe para tentar defender uma ciência laica, uma prática profissional baseada em fundamentos científicos, sem cunho religioso ou ideológico.

É o mínimo irônico considerar que a fala de um homem público como o deputado/pastor Feliciano, que inicia chamando a atenção para a desonestidade intelectual, se posicione a ponto de defender uma lei que protege uma profissão contra a desonestidade intelectual de alguns indivíduos! É o mínimo irônico considerar que o próprio deputado/pastor age desonestamente com suas ideias, apresentando informações pela metade, distorcendo o significado de palavras e induzindo seu espectador ao erro.

Agora que vocês conhecem os fatos, convido-os a assistir ao pronunciamento completo do pastor/deputado Feliciano sobre a Cura Gay.

E agora, sugiro que assistam a este vídeo-resposta, onde o autor do vídeo comenta alguns dos pontos que eu levantei.

Se procurarem mais, encontrarão mais respostas ainda sobre esse vídeo. Uma coisa precisa ficar clara: esse Projeto de Decreto Legislativo não possui nenhuma jutificativa moral, legal ou cientifica e só se embasa em preconceitos de alguns grupos religioso. E para dizer que eu não estou falando da boca para fora, sugiro a leitura deste artigo: http://vejasp.abril.com.br/materia/bastidores-cura-gay

Agora que conhecem melhor os fatos, tirem suas próprias conclusões. E espero que essas conclusões sejam baseadas em pilares científicos e morais, não sobre pilares de desonestidade e enganação.

PS: Devido às várias notícias, acabei editando o rascunho original deste artigo pelo menos umas três vezes. Caso existam novas atualizações, escreverei novos artigos.

Comments (9)

  1. Olá!
    Excelente texto, a ser usado como referência e fonte em muitas discussões, e não apenas sobre este famigerado projeto.

    Um ponto que me chamou a atenção é a parte do parecer que relata a experiência dos jovens vítimas de tráfico de pessoas no Pará.
    Além de ser uma má interpretação da resolução do CFP, também reflete uma das faces de como é tratada a sexualidade atualmente, principalmente a masculina: Se um homem teve experiência com outro homem, automaticamente é classificado como homossexual, mesmo tendo acontecido em situação de claro abuso e violência.
    Há toda uma cultura de não conhecimento dos próprios desejos e do corpo que impele a maioria a repetir isso quase como um mantra, como se fosse uma verdade desde o início dos tempos. E sabemos que não o é!
    Ter tido uma experiência sexual com pessoas do mesmo sexo não automaticamente nos torna homossexuais, bi ou seja lá o que for. É apenas uma experiência, que pode ter sido prazerosa ou não. Pode ser apenas uma tentativa de descoberta da própria sexualidade.
    Mas a pressão e o pré-conceito social é tanto que é suficiente para que tal experiência seja encarada como definitiva e não apenas como o que realmente o é: uma experiência.

    Isso, é claro, deixando de lado o fato que os garotos do relato sofreram um abuso tão grande quanto o sexual, que é o fato de terem sido traficados, transformados em escravos e tratados como mercadorias e, provavelmente, descartáveis.
    Este fato, para mim, merece muito mais atenção e deve ser o maior motivo de encaminhamento a um psicólogo do que o fato de terem tido, ou não, relações sexuais com outros homens.

    Sei que a minha reflexão não é exatamente sobre o tema central do post, mas precisava postá-la, e a na falta de um blog pessoal vou utilizar este seu espaço.

    abraço

  2. Agora uma dúvida que me surgiu a ler este trecho:
    “(..)Talvez eles se questionem se são homossexuais ou heterossexuais – questionamento ao mesmo tempo completamente saudável e completamente desnecessário (..)”

    Porque este questionamento seria desnecessário se é saudável?

    • Simplesmente porque todo questionamento é saudável em si mesmo! Mas, ao mesmo tempo, quando se sabe a resposta, quando se sabe que essa classificação homo-hetero é arbitrária e preconceituosa em si-mesma, o próprio questionamento passa a ser desnecessário… É melhor perguntar-se como é possível viver sua sexualidade plenamente, ao invés de tentar encaixá-la no que algumas pessoas dizem que deve ser… 😉

  3. […] Vale a pena conferir uma atualização desta discussão que escrevi aqui sobre uma uma nova rodada para a ” cura gay “. […]

  4. […] consequentemente imoral do sujeito (já que a moralidade também pode ser defendida naturalmente) e propor uma cura para a homossexualidade, por exemplo. Esse é o ponto da coerção do discurso […]

  5. […] que realmente está pro trás da “cura gay” e Uma nova rodada para a “cura gay” – A homossexualidade já foi considerada uma doença mental mas a comunidade médica já não […]

  6. Rafael

    Olá Pablo.

    Gostaria de saber se você pode me ajudar a responder uma questão que me persegue faz tempo. Não consigo entender como a homossexualidade é algo natural.

    Já vi um transexual dizendo o seguinte sobre sua cirurgia de troca de sexo: “Eu nasci num corpo errado, então eu tive que mudá-lo”. É evidente que tem algo está errado, mas porque é o corpo dele/dela que está errado? Será que não pode ser a mente?

    Vendo de um ponto evolutivo, qual a moral de ter uma sociedade homoafetiva se eles não procriam? Até consigo entender o Bissexual, pois ele ainda consegue procriar, porém um gay que não consegue erguer sua ferramente para uma fêmea não está exercendo sua função como macho (no sentido biológico). Isso não pode ser classificado como algo patológico? Assim como outros varições bizarras da sexualidade como pedofilia, necrofilia, zoofilia, agalmatofilia, dendrofilia e tantas outras que são claramente algum tipo doença, por que a homossexualidade não deve ser inserida neste grupo? Apenas por questões sociais, eu imagino. Tenho conhecimento que a homossexualidade está presente em outros animais também, mas será que eles não possuem esta mesma “doença”?

    Não me entendam mal, não quero inferiorizar nenhum gay. Afinal, por que vou chutar uma pessoa cega por nascer “doente”? E se a homossexualidade for realmente uma doença, no meu ponto de vista, é uma excelente doença então. Vendo o mundo como ele é hoje, quando menos pessoas nascerem melhor.

    Me desculpe se for uma pergunta muito idiota, pois eu sou leigo em psicologia e em biologia.

    De qualquer forma, fica ai minha dúvida e agradecerei se for respondida.

    Abraços…

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