Cães como esses foram resgatados do Instituto Royal.Recentemente virou notícia a invasão ao Instituto Royal para o resgate de dezenas de cães da raça Beagle que eram utilizados como cobaias em experimentos científicos. Esses cães especificamente eram usados para testar níveis de toxicidade de medicamentos, entre outras pesquisas biomédicas. A alegação feita pelos manifestantes era que esses animais estavam sofrendo maus tratos e por isso o resgate foi necessário. Porém, tem muita coisa por trás dessa história que não estamos conseguindo perceber – que são muito mais perigosas do que maus tratos em animais.

Não quero aqui entrar especificamente na questão dos direitos dos animais – pois só isso daria um artigo inteiro. Mas vou falar sobre os direitos humanos, como base principal para a argumentação. Também vou falar sobre como funcionam os testes em animais e explicar algumas mentiras e mitos em volta deles. E para terminar, é interessante recorrer à Lei de Godwin, uma lei criada em tempos de cibercultura, para refletirmos um pouco sobre as nossas próprias argumentações – para vermos para onde estamos encaminhando quando agimos da forma como estamos fazendo.

A questão dos Direitos Humanos

Só para não dizer que não falarei sobre diretos dos animais, quero aqui expor brevemente a minha posição: sou a favor de direitos dos animais, mas não em detrimento dos direitos humanos. Nessas horas, gosto muito das ideias de um filósofo inglês do século XVIII que dizia que o nosso objetivo era buscar ações úteis e ele media a utilidade das ações em cima de uma simples regra: algo útil deveria ser algo que traz a maior quantidade de felicidade para a a maior quantidade de pessoas. E, por conta dessa posição utilitarista, ele também foi um dos primeiros a perceber que o valor das pessoas está não em quanto elas conseguem produzir, mas sim em sua capacidade de sofrer. Dessa forma, nosso objetivo deveria ser reduzir ou eliminar o sofrimento das pessoas.

Jeremy Bentham foi um dos primeiros grandes defensores dos direitos dos animaisEssa posição de Bentham fez com que ele pensasse não só em direitos humanos para uma época de industrialização, mas principalmente, em direitos das minorias. Ele foi um dos primeiros a defender a igualdade das mulheres e também o direito dos animais, pois eles também têm capacidade de sofrer e, por isso, possuem valor. A minha posição é a mesma de Bentham nesse sentido. Discordo dele em outras questões mais específicas, mas com relação ao valor e dignidade da vida, eu concordo 100% com ele.

Por isso defendo sempre os direitos humanos. De quais humanos, me perguntam? De todos eles. Sem exceção. Mas até do pedófilo-assassino-ladrão-estuprador-mentiroso-idólatra-ateu-tarado-preconceituoso-homossexual-transexual-homofóbico? Sim, principalmente dele. E neste momento, precisamos entender que os direitos humanos precisam ser para todos os humanos sem exceções, caso contrário, não serão para ninguém.

É repetida ad nauseam uma frase – que eu mesmo já falei algumas vezes antes de entender melhor o que são os direitos humanos: “Direitos humanos são para humanos direitos”. Essa frase implica que existem humanos esquerdos, sinistros, que não merecem os mesmos direitos que os demais humanos direitos. Esses humanos que vivem à margem estariam abrindo mão de seus direitos por conta de uma escolha de vida que em si infringe os direitos das outras pessoas. Esses seriam os criminosos que, ao escolherem cometer crimes, estariam abrindo mão de seus direitos, pois não conseguem respeitar os direitos dos demais. É isso que essa frase diz.

Mas, ao mesmo tempo, essa posição carrega uma série de ignorâncias e preconceitos monstruosos. O principal preconceito que essa posição traz é que os criminosos cometem crimes por escolha, porque eles gostam ou querem fazer mal às outras pessoas. E não adianta um “cidadão de bem” vir falar que só quando eu passar pela experiência de ser assaltado à mão armada, com minha vida ameaçada por esses “meliantes” é que vou entender, pois eu já passei por isso e mesmo assim eu não consigo sentir raiva deles ou achá-los menor, só consigo sentir pena.

Esses são os valores que aprendemos da sociedade. Podemos ser diferentes?Pena porque eles não tiveram as mesmas condições sociais que eu tive, as mesmas oportunidades de aprender, de viver, de ser amado, de ter dignidade. Eles vivem em uma sociedade perversa que inverte todos os valores; que valoriza mais um tênis de marca do que a vida de uma pessoa; que diz que o valor de uma pessoa é medido por aquilo que ela tem mais do que por aquilo que ela é. E isso é um valor social da sociedade onde você e eu vivemos. E quem constrói esse valor somos nós, cada vez que queremos comprar o novo produto ou julgamos as pessoas baseado principalmente na aparência ou naquilo que elas não têm. Os criminosos são filhos dessa sociedade que criamos, são fruto desses valores que todos nós plantamos.

E, quando são presos, eles não deixam de ser humanos. Por mais que eles tenham feito outras pessoas sofrer – talvez nem tanto quanto eles mesmos já sofreram na vida – eles ainda têm condições de sofrer. A linha de corte deve ser essa somente. Se queremos tirar direitos dessas pessoas por elas terem cometido crimes, estamos colocando nas leis a linha divisões dos direitos humanos e isso é algo extremamente arriscado.

Por quê? Simplesmente porque se uma lei pode decidir o que posso ou não fazer, qual é meu direito mínimo e quais devem ser minhas condições de vida, estou colocando a minha dignidade à mercê da escolha dos políticos. Eles podem, de uma hora para outra, por exemplo, passar uma lei que obrigue a todos que possuem uma renda abaixo de uma certa linha de corte a ter menos direitos; ou podem criar qualquer forma aleatória de divisão social. Dessa forma, a lei passa a legitimar a posse econômica como demarcador da dignidade. Se você está acima dessa linha, então não verá problema. Mas se está abaixo, verá que as coisas não são tão boas assim.

Colocar a dignidade nas leis dá nisso...Trago esse exemplo para mostrar que qualquer divisor arbitrário de direitos acaba excluindo alguém. Se definirmos os direitos humanos a partir de critérios como o bom comportamento ou o respeito às leis, estamos colocando aqueles que não conseguem ou não podem se comportar ou obedecer – por qualquer motivo que seja – fora desses direitos. Um exemplo bem claro disso são as crianças e pessoas com deficiência que impossibilite seguir certas regras impostas. Será que elas não merecem dignidade também? Por isso os direitos humanos precisam ser para todos os humanos, sem excessão, pois no primeiro momento que dizemos o contrário, abrimos precedente para que cada um de nós também perca seus direitos humanos. Dizer que alguém não tem direito humano – pelo motivo que seja – é abrir mão também do direito à própria dignidade.

Infelizmente, nossa sociedade faz isso e nós aprendemos com o exemplo social muito bem. Nossa sociedade mostra que vale mais quem tem mais, que precisamos trabalhar, nos esforçar, nos diminuir para que possamos – um dia, quem sabe – termos o valor que dizem que precisamos ter. E por isso não conseguimos enxergar o valor nos criminosos, nas pessoas menores que nós, nem nos animais. Vemos somente o valor da fama, daqueles que aparecem na televisão, que são “vitoriosos na vida”. A vida passa a perder o valor, que agora a economia e as posses têm.

E para compensar essa falta de valor à vida, temos políticas de manutenção extrema da vida que beiram o absurdo, como a distanásia, ou a manutenção artificial da vida de alguém que claramente está sofrendo. Infelizmente, esse valor só responde à essa sociedade econômica e ignora a dignidade da própria vida.

A questão dos Testes em Animais

A complexidade neurológica nos dá padrões para o valor da vida.A vida humana tem valor. A vida dos animais tem valor. Qual vale mais? Não existe balança grande o suficientes para medir isso, mas mesmo assim tentamos. Criamos uma escala de complexidade da vida, baseado no nosso sistema nervoso. Quanto mais complexo é o sistema nervoso de um animal, mais complexa e delicada é essa vida. Pelo que sabemos, o sistema nervoso humano é o mais complexo de todos os animais, o que nos permite não só sentir e sofrer – algo que é bem básico, aliás, presente em todos os mamíferos e em outros animais – mas principalmente, nos permite criar. O valor idiossincrático da vida humana está na criatividade.

Isso não quer dizer que animais que não são tão criativos como nós não possuem valor – muito pelo contrário. Já estabeleci lá em cima que o valor da vida está na capacidade de sofrer. Ao mesmo tempo, cada vida tem o seu valor próprio. O valor da vida humana está na criatividade, enquanto o valor de outras formas de vida menos complexas está em outros atributos que nós humanos também temos, como o amor, a compaixão, a força, a resistência, o afeto, a ternura, etc.

Mas será que isso permite que nós humanos façamos testes em animais? Acho que aqui não está a questão de permissão, mas sim a questão de utilidade. Lembra-se que falei lá em cima que a utilidade de algo pode ser medida por seu benefício para a felicidade geral da humanidade? Então, é aí que entram os testes em animais.

Esses testes não são arbitrários ou aleatórios. São testes científicos. E para compreender os testes científicos é necessário aprender sobre ciência e como ela funciona. E antes de você reclamar da ciência, pense duas vezes, pois esse computador ou celular que você está usando neste momento foi produzido por essa mesma ciência e o xampu, sabonete, pasta de dente e desodorante que você usou hoje foi graças a testes realizados em animais. Aliás, todos os remédios que você já consumiu ou que um dia irá consumir foram testados em animais. Todos os procedimentos médicos também foram testados em animais. Sem exceção.

Para melhor explicar a questão, quero deixar aqui uma série de três vídeos do Youtube que explicam detalhadamente o que acontece nas pesquisas com animais, justamente para mostrar o que realmente acontece e não ficarmos nos achismos próprios das redes sociais. Esses youtubers são pesquisadores da área, então possuem um pouco mais de conhecimento do que eu e você sobre isso, logo, vale a pena ao menos conhecer os argumentos. Recomendo fortemente que esses vídeos sejam assistidos, pois eles explicam e esclarecem diversos pontos sobre o assunto. O primeiro vídeo é do Yuri (EuAteu), onde ele descreve como acontecem as pesquisas com animais:

O próximo é uma resposta do Pirulla25, onde ele complementa algumas das questões e expande sobre pontos que o Yuri não conseguiu abordar:

E o último vídeo é uma resposta do Yuri sobre vários comentários feitos no primeiro vídeo dele, onde ele complementa ainda outros pontos:

E para aqueles que não tiveram tempo de ver ou não conseguiram assistir por qualquer motivo, abordo aqui alguns dos principais pontos que eles levantam:

Pesquisa com animais, neste nosso momento histórico, ainda é necessário. Por quê? Porque precisamos ainda conhecer como funciona a vida para poder trabalhar com ela e só estudando a vida podemos conhecê-la. E isso entra naquele critério de valor utilitarista de Bentham. Como? Essas pesquisas feitas hoje garantem que não só pessoas hoje sejam salvas, mas garantem também que animais hoje sejam salvos. É um pequeno sacrifício em prol de um grande número de benefícios. Ao mesmo tempo, estas pesquisas hoje garantem a sobrevivência de pessoas e animais a partir de hoje também, no futuro.

A pesquisa com animais é necessária e nos trouxe muitos benefíciosAo mesmo tempo, essas pesquisas são todas realizadas garantindo o bem-estar dos animais. Por quê? Por um motivo bem científico: as pesquisas científicas com seres vivos precisam garantir o maior controle possível sobre qualquer variável que possa interferir e o sofrimento é uma variável que atrapalha o resultado das pesquisas, pois produz estresse que altera os níveis hormonais dos seres vivos, que por sua vez altera os resultados todos, inviabilizando assim o resultado dos testes. A criação desses animais em cativeiro também é necessária, pois são ambientes neutros, sem contaminação, e o desenvolvimento desses animais se dá a partir de práticas controladas, onde se conhece até o código genético deles, podendo saber todas as variáveis biológicas que possam afetar os resultados.

Podemos criticar aqui a criação desses animais em cativeiro, mas preciso lembra-los que todos os nossos animais domésticos, incluindo nossos animais de fazenda, são todas criações em cativeiro. Nenhum cachorro doméstico é natural, nenhum gato doméstico é natural. Inclusive, as vacas e bovinos foram criados a partir de um ancestral já extinto. Já fazemos isso para nosso benefício a milênios – e agora precisamos arcar com as consequências dos nossos atos, continuando a tratá-los de forma doméstica, em cativeiro, caso contrário, muitos deles não sobreviveriam na natureza.

Logo, se um centro de pesquisa quer fazer pesquisa séria, esse centro precisa respeitar a dignidade desses animais. E, mesmo fazendo essas pesquisas, existe ainda um outro nível que é a pesquisa com seres humanos. Sim, eles são feitos – apesar do que é feito nos animais, pois, por mais que as pesquisas mostrem efeitos positivos neles, em nós podem aparecer efeitos negativos que precisam ser conhecidos. As falhas históricas que conhecemos, onde mesmo com testes em animais os remédios e produtos provocaram sofrimentos nas pessoas, é devido principalmente ao mal uso dessas pesquisas e à pressa de começar a vender os produtos antes da finalização dos testes.

Existem alternativas aos testes com animais? Existem. Algumas dessas alternativas incluem: pesquisas com bactérias e células criadas em laboratório – mas essas pesquisas revelam resultados à nível celular somente, não oferecendo resultados satisfatórios em níveis mais complexos, como em órgãos ou sistemas inteiros. Outro é em simuladores computadorizados – mas esses simuladores somente dão resultados sobre os dados que colocamos e programamos, baseados em pesquisas que já conhecemos, ou seja, novidades não poderão ser testadas. Outra alternativa, muito utilizada por empresas que usam como propaganda não fazerem testes em animais, é utilizar pesquisas já aceitas e produtos já testados para criar seus produtos. Mas todas essas pesquisas, em algum momento, já utilizaram testes em animais. Então as alternativas basicamente se restringem ou a testes em níveis celulares ou em formas de pesquisa em cima de informação já conhecida.

Então, neste momento, não podemos abrir mão dos testes em animais. Foi graças a esses testes que conseguimos desenvolver todos os remédios e produtos que utilizamos, desde a pasta de dentes até o material de limpeza. Foram algumas milhares vidas sacrificadas em nome de milhões que foram salvas e bilhões que poderão ser salvas ainda. É a utilidade das pesquisas, trazendo a maior quantidade de felicidade à maior quantidade de pessoas possível.

A questão da Lei de Godwin

Mesmo diante desses fatos, existem oposições. Pessoalmente, sou a favor de oposições – por mais burras que sejam – pois elas nos forçam a melhorar. E essa manifestação do roubo dos animais do Instituto Royal foi justamente isso: uma manifestação burra. Por quê? Por vários motivos.

Às vezes, um espaço desses é tudo o que eles precisam.Foi alegado que o Instituto maltratava os animais pesquisados – apesar que cientificamente isso não ser desejável para pesquisa alguma. A perícia não encontrou evidência alguma de maus-tratos e, se eles realmente existiam, agora não temos mais como saber. Por conta disso, o Instituto terá que começar uma nova pesquisa, com novos animais, o que encarecerá o produto final e ninguém saiu ganhando nada com isso. E, se eles realmente maltratam os animais, agora não temos mais como provar, para então legal e formalmente fecharmos esse centro de pesquisas, que continuará fazendo pesquisas com animais.

Outra questão é que os animais utilizados nesse laboratório foram criados desde a concepção, em laboratório, em ambientes controlados. Eles nunca foram vacinados ou ficaram doentes. Eles não possuem os anticorpos necessários para a vida na cidade. Eles não tem a resistência necessária para a alimentação e os cuidados cotidianos fora do laboratório. Outros animais podem precisar de remédio e atenção específica que recebiam no laboratório que agora não estão mais recebendo.

Por fim, muitos desses 178 animais resgatados podem ser abandonados por falta de ter quem possa cuidar deles. Inclusive, dois foram encontrados nas ruas de São Roque e levados a um abrigo, aguardando adoção. Dois foram encontrados, mas será que existem outros que simplesmente sumiram ou não se sabe onde foram parar?

Então, esse resgate, além de gerar um estresse desnecessário nesses animais, coloca-os em risco sério de morte. Se eles todos não tiverem atenção médica constante nesses primeiros meses, eles podem morrer. Então, essa morte não terá utilidade alguma. Ao menos, nas pesquisas, a morte pode trazer um conhecimento que pode beneficiar a todos – ao contrário de uma morte sem sentido, justamente por falta de cuidados que o desconhecimento e a ignorância pode trazer.

Esses argumentos são enganososO risco maior a tudo isso está nos argumentos utilizados pelos defensores dos direitos dos animais. O argumento mais utilizado neste momento é que, ao invés de fazer pesquisas com animais, é melhor fazer pesquisa com presidiários ou criminosos confessos. Assim, os resultados podem ser até melhores pois será feito com seres humanos. Esse argumento, além de falacioso, é anti-científico. A anti-ciência está no fato de que esses presidiários não possuem as condições necessárias para as pesquisas preliminares feitas em animais. Não conhecemos todas as variáveis e os presidiários podem apresentar condições tantas – como doenças, síndromes genéticas, desenvolvimentos sistêmicos, resistências, variações sociais, etc – que inviabilizam qualquer pesquisa médica e biológica.

A questão falaciosa está no fato de que a vida do animal tem mais dignidade do que a vida humana. O principal problema está no fato de que é impossível medir o valor dessa forma – ou de qualquer outra forma. Toda vida tem valor e é errado comparar o valor delas. E, novamente, se disser que a vida dos animais ou dos “humanos direitos” tem mais valor do que a vida dos presidiários, entramos em um campo muito arriscado.

O mais arriscado de tudo está em permitir experimentos assim com seres humanos. Existem interesses econômicos também por trás das pesquisas. Imagine o risco que temos se, por exemplo, for necessário mais cobaias do que o existente nos presídios para realizar tal pesquisa? Quais são as chances de o estado prender pessoas desnecessariamente, justamente para cumprir com a necessidade de pesquisa? Ao mesmo tempo, como isso nos diferenciaria das pesquisas feitas com seres humanos durante a Segunda Guerra Mundial, feita pelos nazistas?

Lei de Godwin: os nazistas sempre aparecem, mais cedo ou mais tarde...

Lei de Godwin: os nazistas sempre aparecem, mais cedo ou mais tarde…

E é aqui que entra a Lei de Godwin. Godwin foi um participante de fóruns nos primórdios da internet que postulou que em qualquer discussão, quanto maior o tempo ou mais longa são as postagens, maiores são as chances de que essa discussão utilize argumentos sobre ou comparações com o nazismo. Mas, neste caso, eu vejo como argumentos válidos, principalmente para refletirmos no caminho que essas ações estão nos levando.

Os experimentos nazistas em campos de concentração são reconhecidos até hoje como uma afronta aos direitos humanos. Milhares de judeus, ciganos e prisioneiros de guerra foram mortos – em nome da ciência – só por não se encaixarem nos ideais de sociedade pregados pelos nazistas. Josef Mengele foi o principal cientista responsável por esses abusos com pesquisas em seres humanos. Alguns questionam a possibilidade de uso desses resultados, não só pela total falta de ética nas pesquisas, como principalmente na falta de controle sobre elas. Ou seja, os resultados das pesquisas podem trazer muitas falhas que não contribuem para o nosso conhecimento científico atual.

Mas o mais arriscado é não percebermos que ao concordarmos com o uso de presidiários para as pesquisas científicas – voluntários ou não -, estamos classificando as pessoas como socialmente válidas e como socialmente não válidas, estamos atribuindo valor à vida das pessoas por como elas conseguiram viver até aquele momento – ignorando seu grande potencial de criatividade e transformação. Essa é a mesma postura que não quer reconhecer o valor de crianças que estudam em escola pública, de pessoas que pertencem a outras culturas, de deficientes físicos ou que sofrem de transtorno mental. São posturas preconceituosas e ignorantes. São posturas que não reconhecem o valor da vida – e ainda querem defender a vida dos animais.

Oras, se não podemos perceber a vida humana para conseguir valorizá-la, que valor podemos dar à vida dos animais? Eu defendo que todas as vidas possuem valor e se queremos defender o direito dos animais, precisamos também – por coerência – defender o direito dos humanos, que também são animais. É engraçado, pois vemos defensores dos direitos dos animais dizendo que aquele pittbull agressivo e assassino foi criado assim, que não recebeu o carinho e atenção necessárias e que, dada a oportunidade, ele pode aprender a ser carinhoso também, por isso não merece ser sacrificado ou abatido. E, por que não falamos o mesmo das pessoas? Por que preferimos cuidar do pittbull agressivo e melhorá-lo para a vida em sociedade e esquecemos do criminoso? Por que usamos como um argumento negativo levar uma pessoa dessas para casa e dar carinho, atenção e apoio pessoal, mas queremos fazer isso com todos os animais de rua? Por que temos tanto medo assim da nossa própria espécie, dos nossos semelhantes? Será que temos tanto medo e repulsa assim de nós mesmos, de quem somos, de quem nos tornamos?

Toda vida deve ser valorizada, independente de espéciePor que somos tão hipócritas? Defender a vida dos animais deve ser defender a vida dos humanos. Defender o direito dos animais deve ser defender os direitos humanos. E vice-versa. Assim, essa postura de separação – de dizer que um tem valor e o outro não tem – não traz benefício algum, além de atrasar o avanço do conhecimento, além de provocar o preconceito, além de só trazer problemas para o convívio em sociedade. O principal erro dos nazistas foi ter ignorado isso, foi em defender a separação baseada em uma teoria biológica, a eugenia. Hoje defendemos a separação baseada em uma teoria sociológica, a luta de classes. Mas enquanto defendermos essa separação, não vamos conseguir progredir.

Ouvi de um amigo meu, defensor – como eu – dos direitos dos animais, porém crítico dos direitos humanos – diferente de mim – que bandido não lê sociologia, então não adianta usarmos teorias sociológicas para defender o direito dos bandidos. O que resolve é a coerção, é a ação policial, a punição direta. Infelizmente, para meu amigo, ele não deve conhecer assim as teorias sociológicas que ele critica, pois saberia que essa coerção e violência policial é uma resposta social compreendida por uma teoria sociológica. Não adianta diminuir o conhecimento para defender essa posição de forma preconceituosa.

Os animais merecem dignidade, assim como nós humanos. Por incrível que pareça, todos nós fazemos parte do processo de construção do conhecimento científico. E talvez, por essa semelhança, devamos repensar os nossos valores. A eutanásia, por exemplo, é uma prática feita com animais para diminuir o sofrimento – mas por que questionamos a eutanásia em humanos? A adoção é uma prática muito comum e fácil de ser feita com animais – e por que dificultamos tanto assim a adoção de crianças e jovens humanos? Enquanto socialmente tivermos essas diferenças no valor das vidas, os verdadeiros maus tratos contra os animais continuarão acontecendo a todo momento, em plena luz do dia, nas esquinas das nossas cidades.

O amor e a dignidade da vida devem ser os mesmos em todos os lugares, para todas as espécies, mas mesmo assim insistimos em separar, em dividir, em achar que existem melhores e piores nesse jogo – assim como fizeram os nazistas. Não importa qual o critério que você utilize para aumentar um ou diminuir o outro, esse critério será arbitrário, preconceituoso e ignorante. A solução é o conhecimento e a integração. Que tal lutarmos por esses direitos?

ATUALIZAÇÃO

Quero deixar aqui também o link para dois vídeos do Pirulla25, que ele fala especificamente sobre o caso dos Beagles e do Instituto Royal. O primeiro se chama “O resgate dos Beagles” e o segundo, “Experimentos e Beagles: FAQs“. Nesses vídeos, o Pirulla25 esclarece ainda outras questões, específicas a esse caso e aos comentários deixados sobre esse caso, além de fazer referências aos vídeos já postados aqui.

Outra referência que queiro deixar é uma entrevista com Michale Conn à revista Veja, que acredito esclarecer ainda vários outros pontos sobre a testagem e a necessidade de testes em animais e como isso acontece e quais são as alternativas viáveis. Ele é autor The Animal Reseach War, sem tradução em português, onde ele comenta sobre o uso de cobaias para o avanço da medicina, além dos ataques e ameaças feitas por grupos de defesa dos animais aos pesquisadores e cientistas que promovem testes em animais. Ele defende – como eu tentei mostrar aqui – que esses ataques e a ideia de maus tratos aos animais são fruto de desinformação. Vale muito a pena ler!

O americano Michael Conn afirma que o uso de cobaias animais é uma necessidade da ciência e que a ideia de que os bichos são submetidos a crueldades nos laboratórios é fruto da desinformação.

Comments (2)

  1. […] escrevi em meu blog sobre a Lei de Godwin e os direitos humanos mas nunca pensei que algo parecido com essa lei pudesse se desenvolver na podosfera brasileira. […]

  2. […] dignidade que a maioria nunca foi capaz de oferecer. É o mínimo que um país que diz defender os direitos humanos precisa fazer enquanto o seu povo não trata a si mesmo com dignidade. Assim, quem sabe, poderemos […]

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