O tempo passa, mas os pensamentos continuam os mesmos...Estudo e leciono história e epistemologia há alguns anos. E sinceramente, estou ficando cansado das teorias baseadas em pensamentos do século XIX regendo as práticas cotidianas, sociais e políticas do século XXI. Já progredimos e evoluímos muito desde essa época do início da revolução industrial, mas nossa filosofia, sociologia, psicologia e ciências humanas de forma geral ainda se baseiam em pensamentos dessa época. Muita coisa já mudou nas nossas organizações pessoais, já passamos por muitas crises e tivemos muitos experimentos para saber que esses modelos de ciências humanas também precisam passar pelos mesmos processos.

As ciências naturais conseguiram evoluir com suas pesquisas. A física de hoje já não é a mesma do século XIX. A biologia talvez seja a ciência que melhor conseguiu evoluir – talvez por usar a evolução como um dos mais importantes pressupostos. A química o tempo todo está fazendo novas descobertas e mudando até mesmo a forma de compreendermos a sociedade. E por que ainda queremos usar, para embasar as ciências humanas, as ideias do século XIX?

Pensadores do séc. XIX servidos em pleno séc. XXIEm psicologia – minha área principal de trabalho – vejo muito isso. Nos preocupamos em ensinar Marx, Freud, Saussure, Nietzsche, Darwin  – quando muito – e no máximo expandimos para o início do século XX, pré-Segunda Guerra e ficamos nisso. E quando queremos apresentar algo diferente, talvez da década de 60 ou 70, já encontramos resistência em aceitar sua originalidade e logo dizemos que isso é fruto de um pensamento mais antigo – do século XIX ou XVIII – e descartamos a relevância da atualidade.

Temos muita coisa que se desenvolveu de lá para cá em todas as áreas das ciências humanas. A economia, por exemplo, pode ir além da velha dicotomia Liberalismo Vs. Marxismo, e o mesmo pode ser dito sobre a sociologia – que possui muitos pensadores diferentes do marxismo da época da revolução industrial, como Domenico De Masi, que fala de uma sociedade pós-industrial. Na política, não precisamos nos prender aos antigos divisores de esquerda e direita da época da Revolução Francesa e podemos considerar diferentes olhares, mais amplos e dinâmicos.

Pós-modernismo

-“AI! Você está esmagando meu pescoço!”
-“Esse é seu ponto de vista. Também poderia dizer que você quer me fazer tropeçar com o seu pescoço. Na condição pós-moderna criamos nossa própria realidade baseando-nos em nossas preconcepções internalizadas. Como já não há uma só verdade, somos livros para criar nossa própria verdade. Não existe o “verdadeiro” e o “falso”, somente um infinito número de relatos igualmente válidos”
– “Mas você continua pisando meu pescoço!”
-“Percebe-se que você não foi à universidade…”

A década de 80 foi caracterizada como a década da pós-modernidade, onde esses olhares “modernos” do século XIX e início do século XX já começaram a ser deixados de lado em prol de olhares que refletiam a evolução da sociedade, principalmente no que diz respeito à globalização e a multiculturalidade dos povos do final do século XX. Hoje em dia já estamos em uma época “pós-pós-moderna”, onde vemos que o pós-modernismo possui seus limites e falhas e precisamos recorrer a outras formas mais firmes e sólidas de pensamento, sem abrir mão dos avanços da pós-modernidade. Mas, mesmo assim, ainda queremos nos dizer tão “modernos” a ponto de nos basearmos principalmente nos pensadores do século XIX?

Será que isso é medo de nos atualizarmos e percebermos que todas aquelas histórias que nossos professores nos contaram no colégio – e que ajudou a construir quem nós somos – não é bem assim que acontece? Por que é mais fácil percebermos que a compreensão da natureza do mundo físico pode ser mudada com a próxima descoberta científica, mas a natureza humana precisa ainda ser a mesma da época do nascimento das ciências humanas?

É possível explicar uma época baseada em outra?Como professor de história, acho super válido o estudo das diferentes teorias históricas e do passado. Porém, acho também mais válido o uso dessas teorias como referências históricas para novos pensamentos mais atuais, que consigam dar conta do mundo no século XXI! Usar uma teoria datada como tendo um valor universal é tentar nos manter naquela data. Uma teoria construída em torno da primeira revolução industrial já não consegue dar conta de uma realidade da quarta revolução industrial, a revolução da informática. Uma teoria construída sobre uma sociedade vitoriana já não consegue dar conta de uma sociedade “pós-pós-moderna”. Seria tão anacrônico quanto usarmos o Steampunk para explicar o Cyberpunk – mas é isso que as ciências humanas insistem em fazer ao insistirem em ensinar os “clássicos” do século XIX…

É interessante conhecer os movimentos históricos das ideias das ciências humanas. É interessante ver que, quando as ciências naturais estavam crescendo e progredindo graças ao positivismo, as ciências humanas de matriz mais romântica estavam decaindo. E, para conseguir ter uma base relevante em uma época que pedia esse olhar mais positivista, os pensadores das humanidades que conseguiram adaptar seus pensamentos para um olhar mais positivista, ganharam espaço e credibilidade.

Algumas concepções mais atuais colocaram valores antigos em xequeMas de lá para cá, o positivismo perdeu seu glamour inicial e muita coisa da modernidade colocou os parâmetros matemáticos do positivismo em xeque, relativizando muita coisa. A pós-modernidade se caracterizou por isso, em relativizar e interdisciplinarizar, em mostrar que um conhecimento não é tão preciso assim quanto se imaginava. Os neo-positivistas começaram – antes mesmo da pós-modernidade – a traçar novos rumos para as ciências, mostrando como a linguagem que se utiliza para se falar de ciência é o que importa e que as observações do mundo positivo são secundárias.

Mas, mesmo assim, parece que existe uma resistência das ciências humanas em aceitar isso. Parece que ainda sofremos daquele velho ranço do século XIX que, para ser aceito como ciência, é necessário termos um padrão rígido de ciência natural positivista. Parece que ainda não percebemos que ninguém mais está olhando o mundo assim e que existem muitos pensadores atuais que conseguem ir além disso!

O mais interessante é que hoje em dia, graças a todos esses olhares novos e novas possibilidades de integração epistemológica, estamos tendendo a olhar e falar em fenômenos híbridos, em realidades híbridas, filhotes de duas ou mais realidades distintas que formam uma nova forma de compreensão da vida e do mundo. Se tivesse que organizar a base do pensamento humano moderno em uma palavra-chave para cada período, faria da seguinte forma:

  • Séculos XVII-XVIII – Iluminismo. Palavra-Chave: Método.
  • Séculos XVIII-XIX – Romantismo. Palavra-Chave: Paixão.
  • Século XIX-XX – Positivismo. Palavra-Chave: Controle.
  • Século XX  (primeira metade) – Neo-Positivismo. Palavra-Chave: Compreensão.
  • Século XX (segunda metade) – Pós-Modernismo. Palavra-Chave: Relativismo.
  • Século XXI – “Pós-Pós-Modernismo” (?). Palavra-Chave: Hibridismo.

E isso é válido para todas as ciências atuais. Quanto mais olhamos, mais vemos o mundo e a vida como resultado híbrido de partes diferentes. As ciências humanas mais atuais também estão caminhando para a compreensão do híbrido. Na Educação para o século XXI, por exemplo, não nos baseamos somente em Piaget e seus processos cognitivos, ou em Vigotski e seu modelo de interação social: percebemos como os diversos fatores psicológicos, sociais, políticos e principalmente tecnológicos contribuem para a construção do ambiente de aprendizagem que precisa ser necessariamente híbrido, para dar conta das demandas educacionais do século XXI. Na sociologia do século XXI, percebemos que as demandas sociais vão além das demandas do trabalho e que o campo das tecnologias da informação e comunicação estão modificando as relações sociais e construindo um campo híbrido de relacionamento e vivências. Até mesmo as relações de identidade sexual já não são mais as mesmas e temos além das velhas concepções heterossexistas, as homossexualidades e as transsexualidade e até mesmo as assexualidades no século XXI!

Hoje em dia não existe mais diferença entre o online e o offlineO mais interessante é que esse hibridismo do século XXI é caracterizado pelo complemento da cibernética, ou seja, o ciber-hibridismo ou cibridismo. Hoje não somos mais o que eramos antes principalmente porque nossas vidas estão intimamente relacionadas aos avanços tecnológicos da cibernética e da computação e comunicação. Não precisamos mais decorar números de telefone ou tabuada porque nossos celulares fazem isso por nós e existem computadores em cada esquina para nos ajudar. Isso modifica até nossa relação com nossos processos cognitivos!

As ciências humanas do século XXI precisam se atualizar para o pensamento híbrido ou cíbrido. Por isso não adianta querer recorrer a epistemologias de base que se construíram no século XIX, quando a palavra-chave era “Controle”, ou “Precisão”. Hoje nossa realidade já é outra e as epistemologias de base precisam dar conta dessa realidade híbrida.

Não estou aqui defedendo um relativismo pós-moderno, onde qualquer coisa vale, mas sim a realização de que, graças a esse relativismo, percebemos diversas realidades e a nossa realidade atual é fruto dessas multiplas percepções do mundo. Não vivemos em um mundo relativo mais, mas vivemos em um mundo fruto desse relativismo. São tantos os pais e mães diferentes da nossa realidade, que ela agrega o melhor – e o pior – de todos eles e uma única realidade híbrida. E cabe a nós trabalharmos agora com isso, até encontrarmos uma forma melhor de lidar com o que ainda está por vir, sem medo de deixarmos no passado os autores do passado e abraçarmos com gosto os pensamentos do presente que nos levam ao futuro.

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