Processo de Individuação – Resposta a Julio Ito


Como compreender quem nós verdadeiramente somos?Recentemente resolvi comentar os comentários de meus leitores e tenho visto alguma discussão surgindo nos posts. Mas, de vez em quanto, um comentário fica muito grande, a ponto de eu achar melhor colocá-lo como um post independente. Desta vez, o leitor Julio Ito fez uma pergunta deveras interessante em um post recente, sobre uma questão teórica da psicologia junguiana – ao contrário de outros comentários que não são tão agradáveis assim. Como eu acho que esse assunto é por demais sério para se responder brevemente, resolvi escrever um artigo relatando minha posição.

Julio pergunta sobre o Processo de Individuação e qual literatura eu recomendaria para quem quer saber mais sobre isso. Só que antes que eu possa indicar livros, preciso esclarecer algumas questões – que são resultado das minhas várias leituras sobre o tema. Porque a teoria do Processo de Individuação, a meu ver, é A teoria central da psicologia junguiana, é o ponto principal por onde todos os outros conceitos teóricos orbitam. Então, não adianta simplesmente indicar um ou dois livros, pois, é necessário se ter uma visão do todo para se compreender o que esses livros falam também.

A individuação é um dos temas centrais da obra de JungPara definirmos brevemente, Processo de Individuação é a teoria onde Carl Jung fundamenta sua visão de desenvolvimento humano. Vale frisar que aqui Jung fala de um “processo”, ou seja, não está falando de fases estanques ou uniformes, mas sim em processos, em passagens e experiências. E vale frisar que Jung fala de “individuação” e não de “individualização”, ou seja, é o processo de a pessoa tornar-se quem se verdadeiramente é e não o processo onde ela se torna um indivíduo. Por que isso é importante? Porque o sujeito, nesse processo, só se constrói em relação com outros sujeitos e com o mundo e o ponto principal aqui são as relações humanas.

E por que essa teoria é tão central assim? Porque todas as outras teorias relevantes – desde tipos psicológicos, complexos, arquétipos, inconsciente pessoal e coletivo e até as teorias que falam sobre psicoterapia – fazem referência no processo de individuação. Então, para se ter uma boa compreensão desse conceito, é necessário ter-se uma boa compreensão dos demais conceitos. E o problema começa justamente aí, pois ao se conhecer os outros conceitos, percebe-se que eles se modificam não só com o tempo e a maturidade do autor, mas também entre si, quando um se relaciona com o outro.

Pra começo de conversa, a obra toda do Jung pode ser dividia em três partes: a primeira parte de um Jung mais psicanalista, médico, naturalista, cientificista, onde ele apresenta seus primeiros e mais fundamentais conceitos, antes do que convencionou-se chamar de “confronto com o inconsciente”; uma segunda parte, um jung mais maduro, onde ele se aventura pelos temas que o tornaram conhecido, como religião, alquimia, sonhos, psicoterapia, etc, que escreveu após esse confronto com o inconsciente. E por fim, uma terceira parte que se baseia nas produções de durante esse confronto com o inconsciente, que ele só publica depois de muito tempo, onde ele inverte a lógica de muita coisa, onde ele apresenta as transformações da teoria. O mais interessante não é só a separação da obra junguiana, mas também a separação das teorias dos pós-junguianos que seguiram esses três caminhos também.

A individuação pode ser comparada com a jornada do heróiUm grupo de psicólogos ingleses seguiram as ideias de jung desde a época que ele era psicanalista, então seu foco é mais esse. Eles criaram um grupo conhecido como Psicologia Desenvolvimentista, e vai focar justamente no aspecto do desenvolvimento humano e nas preocupações da psicanálise, principalmente no desenvolvimento infantil. Nesse grupo encontramos psicólogos como Edward Whitmont, Michael Fordham, Erich Neumann e Edward Edinger. Para esse grupo, a Individuação ocorre durante toda a vida do sujeito, desde o momento do nascimento até o momento que ele é completamente individuado ao final da vida. É um processo de desenvolvimento contínuo e vão usar termos como “eixo ego-self” e “jornada do herói” para descrever esses processos.

Um segundo grupo foi aquele que acompanhou Jung após os anos de 1930, quando ele estava mais maduro com suas teorias e aprofundaram as questões mais avançadas de seus estudos. Nesse grupo encontramos as psicólogas que trabalharam com ele até o final de sua vida como Jolande Jacobi e Marie-Louise von Fraz, por exemplo. Para esse grupo, a individuação é uma preocupação para a segunda metade da vida, após um momento chave que Jung chama de Metanóia, que podemos brevemente identificar como sendo a “crise da meia idade”. Antes disso, o sujeito deve se preocupar em crescer, não em se individuar. Nesse sentido, esses autores vão tratar de um processo de individuação mais focado, menos difuso, concentrando nos confrontos com a Persona, a Sombra, a Anima ou Animus e em fim, com o Self..

Já um terceiro grupo – do qual me identifico mais – acaba pegando algumas chaves de compreensão da obra junguiana desse período do “confronto com o inconsciente”. Esse grupo compreende que a chave de entendimento da psicologia junguiana é a fantasia, a imaginação e a alma, que é identificada com a imagem. Esse é o grupo da Psicologia Arquetípica, encabeçado pelo psicólogo americano James Hillman. Essa leitura já não vê mais a individuação como um desenvolvimento, mas sim como um processo de “fazer alma”. Ou seja, a alma – ou psique – não se desenvolve: ela é construída, feita, criada ou imaginada, a partir de todas as relações que temos com os outros e com o mundo.

A compreensão dos símbolos é essencial para se conhecer a obra junguianaEntão, diante disso, temos três leituras da obra junguiana e três interpretações ou aplicações diferentes do conceito de individuação. A primeira diz que a individuação acontece durante toda a vida do sujeito e inclusive na primeira metade da vida, ela segue os passos do mito do herói e descreve a construção do Ego-Herói como uma separação do Self e na segunda metade da vida um retorno desse Ego ao Self. A segunda já diz que a individuação é uma preocupação para a segunda metade da vida, onde o sujeito irá revisitar e reconstruir seus complexos pessoais, mas desta vez direcionando-os para os arquétipos coletivos. E a terceira que não vai pensar em fases da vida, mas sim em um processo de viver contínuo, um processo da alma de construir as e de construir nas relações com os outros, o processo de “fazer alma” ou soul-making através da criatividade, imaginação e fantasia.

Diante disso, temos então três chaves de compreensão da Individuação: a mitologia, os símbolos e a fantasia. E esses conceitos são fundamentais, pois Jung mesmo, de certa forma, se utilizada de todos esses em toda sua obra. Sem o conhecimento da mitologia, não temos como compreender o crescimento individual baseado nos padrões arquetípicos que o mito nos conta. Sem o conhecimento dos símbolos não temos como compreender as relações entre o que é pessoal e o que é coletivo, tanto na primeira quanto na segunda metade da vida – principalmente sem compreender que o que é transformado no sujeito são os complexos pessoais, não os arquétipos coletivos. E, finalmente, sem a compreensão da fantasia e da imaginação, não temos como compreender os processos de viver e dos caminhos próprios do sujeito e da psique, muitas vezes independentes dos caminhos biológicos, mas que são sendas necessárias para a alma.

Então, o problema de recomendar leituras a respeito do tema é que, dependendo da leitura, temos interpretações e valores diferentes. Posso citar uma obra de cada um desses focos, só para começar:

O Homem e Seus Símbolos, de Carl JungDe um ponto de vista clássico, posso sugerir o livro O Homem e Seus Símbolos, que foi organizado pelo próprio Jung mas que conta com a contribuição de outros autores. É um livro extenso, mas extremamente recomendado. O capítulo 3, de autoria de Marie Louise Von Franz (que inclusive é a única autora além de Jung a ter contribuído para as Obras Completas de Jung da Editora Vozes) trata exclusivamente do processo de individuação.

Já de um ponto de vista desenvolvimentista, posso sugerir vários textos. O mais clássico de todos (que é um inclusive que particularmente não gosto muito) é o livro Ego e Arquétipo de Edward Edinger, onde ele apresenta e defende o conceito de Eixo Ego-Self. Posso também sugerir a obra de Michael Fordham de forma geral que trata principalmente de psicologia infantil, pois nele você encontra muita coisa sobre desenvolvimento ou individuação infantil e sua comparação com o mito do Herói. Outro livro clássico, excelente porém de difícil leitura é A História da Origem da Consciência, de Erich Neumann, onde o autor trata justamente de como a consciência se formou historicamente, comparando com a evolução dos mitos da humanidade. E finalmente, a leitura essencial, A Busca do Símbolo, de Edward Whitmont, que é um grande apanhado da teoria de Jung como um todo e, em sua leitura, você encontrará uma boa base teórica para se compreender o processo de individuação.

O Código do Ser, de James HillmanFinalmente, de um ponto de vista arquetípico, sugiro o livro O Código do Ser, de James Hillman, onde o autor apresenta a teoria da “Semente de Carvalho” e mostra como a nossa visão de caráter e vocação pessoal estão invertidas. Ele defende, nesse livro, que, ao invés de pensarmos que os eventos casuais da vida da criança servem para levá-la até seu futuro onde ela será quem ela foi construída, devemos considerar que tudo que a criança faz é para levá-la a concretizar o seu destino, ser quem ela verdadeiramente é, ou seja, é uma forma diferente, porém mais centrada tanto na teoria quanto em evidências, no que seria a individuação. É uma proposta audaciosa, mas, quando bem compreendida, faz muito mais sentido que as visões clássicas e desenvolvimentistas (ao meu ver, pelo menos).

Enfim, essas são as minhas recomendações de leituras e de compreensões sobre o processo de individuação. Espero ter contribuído! Qualquer dúvida sobre isso, podemos continuar conversando aqui nos comentários…

Comments (4)

  1. Mesmo tendo tido contato com “O homem e seus símbolos, há alguns anos atrás, por motivos que desconheço, fiquei com a ideia de que individuação era um processo que se dava no final da adolescência e começo da fase adulta. Pelo visto, tenho de estudar mais a teoria para compreender melhor, ou, pelo menos, reler alguns livros de Jung com mais atenção.

    Beijos!

  2. Julio Ito

    Fico muitíssimo grato e satisfeito com sua resposta-artigo, Pablo!

    Consegui ter uma ideia do quão profundamente é estudado o processo de individuação pelas “vertentes” – se assim podemos dizer – da teoria junguiana.

    No primeiro momento, durante e após a leitura do seu artigo, fizeram sentido para mim esses “três grupos” de leituras junguianas por mais que sejam distintos – talvez pela falta de aprofundamento teórico sobre esses três tipos de leitura.

    Pelo que entendi, os Desenvolvimentistas dizem que a individuação acontece durante toda a vida do sujeito (do nascimento à morte) fazendo analogia com o mito do herói (conheci o Campbell através de você também) – isto é válido pra mim.

    No segundo grupo (Clássico) que diz que antes da Metanóia “o sujeito deve se preocupar em crescer, não em se individuar”, compactua com algumas de minhas ideias, porém essa “restrição de faixa etária” (segunda metade da vida) soa para mim um tanto quanto rígida, pois acredito que é possível sim em se pensar em individuação antes da segunda metade da vida. Vou abusar da sua boa vontade e colocar aqui uma questão: parece-me que seja primordial para Jung que o indivíduo tenha alcançado “ajustamento” nos diversos setores da vida (financeiro, amoroso, familiar, social etc.) para que aí sim possa pensar na individuação – podemos seguir essa linha ou não tem nada a ver?

    Em relação à Psicologia Arquetípica do Hillman (li o fantástico Entre Vistas e voltarei a ler mais para frente com mais aprofundamento), eu consegui ter uma ideia bem vaga da teoria (a forma como ele explora os diversos assuntos é sem dúvida inovadora), – como você mesmo me alertou, a linguagem é demasiadamente hermética – mas pra mim ainda se torna um pouco difícil de compreender, passando-me a impressão de que é a teoria é tão abstrata que fica somente na teoria (não sei se deu pra entender…). Sei que é dificílimo explicar assuntos tão complexos em livros e ainda mais em comentários, então entendo se não puder responder à tempestade de dúvidas que me surgem.

    Agradeço novamente os esclarecimentos e irei atrás das literaturas indicadas para uma melhor elucidação.

    Abraços.

  3. […] Como se trata de uma breve reflexão sobre a dor e o sofrimento, não vou entrar em grandes detalhes. Caso alguém tenha alguma questão ou pergunta que queira fazer, faça nos comentários que tentarei responder da melhor forma possível! […]

  4. […] Essas oposições não poderão ser solucionadas a não ser que encontremos um ponto onde ambos os lados possam ser vividos. E esse ponto é o ser humano. Precisamos reconhecer que somos os dois lados e que ambos os lados, como discursos culturalmente construídos, podem e são usados como forma de controle e poder. Temos que reconhecer que ambos os lados também são reais e que precisamos deles para sobreviver. Identidade sexual, opção sexual ou sexualidade, seja lá como queiramos chamar, não é nem natural nem cultural: é os dois, pois identidade, opção e sexualidade é algo intrinsecamente humano. Por isso mesmo Jung reconhece que em todo humano possuímos nosso aspecto contra-sexual, ou seja, todo homem tem seu lado feminino (que ele chama de Anima) e toda mulher, seu lado masculino (que ele chama de Animus), relevantes ao processo de individuação. […]

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