Uma breve reflexão sobre a dor e o sofrimento


Será que a dor é inevitável e o sofrimento, opcional?Como se trata de uma breve reflexão sobre a dor e o sofrimento, não vou entrar em grandes detalhes. Caso alguém tenha alguma questão ou pergunta que queira fazer, faça nos comentários que tentarei responder da melhor forma possível!

A diferença entre a dor física e a dor psicológica é gritante. Na dor física, o corpo emite uma série de neurotransmissores responsáveis por aliviar os impulsos nervosos da dor – que tem o objetivo de avisar que algo está errado naquele local e impede que você faça algo pior com ele. Assim, se seu pé doi por conta de uma torção, a dor física fará com que você use menos o pé, permitindo que ele se cure naturalmente, enquanto seu cérebro lança neurotransmissores para aliviar essa sensação. Dependendo da intensidade e frequência da dor física, ela até pode ser prazerosa (por conta desses mesmos neurotransmissores), como o prazer da dor do exercício, por exemplo, ou de uma massagem…

Já a dor psicológica provém de sentimentos profundos, de base não física. Sentimos essa dor também no corpo por conta de processos psicológicos como a memória que nos faz relembrar outros momentos onde sentimos dor e nos faz revivier essa dor. A dor psicológica não está associada a nenhum neurotransmissor de prazer, muito pelo contrário: ela está associada a uma diminuição considerável desses neurotransmissores (tanto é que a diminuição crônica deles é considerado critério diagnóstico de depressão).

A dor física possui processos fisiológicos que podem, em certas situações, trazer prazer.Enquanto a dor física tem seus altos e baixos (dependendo da intensidade, frequência e reposição dos neurotransmissores), a dor psicológica só tem seus baixos e isso ocorre por conta da memória. O sujeito que sofre relembra e revive o momento traumático e por conta disso, nunca se está verdadeiramente curado ou livre do sofrimento. A dor física passa com o tempo, enquanto a dor psicológica se intensifica com o tempo.

O interessante é que o tratamento para ambas as dores é basicamente o mesmo: atenção e cuidado. Se tenho dor física é porque algo lá não está me fazendo bem. Devo então dar atenção e cuidado, seja uma torção, fratura ou infecção ou doença. Se ignoro, além de essa dor potencialmente aumentar, o que está provocando pode eventualmente me fazer muito mal ou até me matar.

O mesmo acontece com a dor psicológica, pois seu tratamento é a atenção e o cuidado. Se tenho uma dor psicológica ou um sofrimento, devo olhar para o que está provocando, sua causa, o trauma. Devo também cuidar disso, resignificar o evento, encontrar alternativas – coisas que os psicoterapeutas estão treinados para fazer. Sem reconhecer isso e sem esse cuidado, esse sofrimento ou o que está provocando pode eventualmente me fazer muito mal ou até me levar à morte. Nesse caso, a morte pelo sofrimento pode vir na forma de um acidente desnecessário ou de um suicídio.

Infelizmente não sabemos valorizar a dor psicológica. Só sabemos ver a dor quando sua causa é um agente físico. Mas um trauma é tão ou mais grave quanto uma batida ou topada, principalmente porque não compreendemos nem entendemos sua ação ou seu agente causador. E por isso, o trauma fica esquecido, abandonado e crescendo em gravidade. Cada negligência é nociva, tanto quanto negligenciar um corte. E o pior é que a infecção psicológica pode ser contagiosa, ou seja, meu sofrimento pode se tornar sofrimento de outras pessoas.

O trauma é uma ferida emocional: não é a causa, mas o caminho para a cura.O trauma é um grande mistério, não porque ele é desconhecido, mas sim porque ele não é compreendido. O trauma não é a causa do sofrimento: o trauma é a oportunidade de o sofrimento interno vir à tona. Ou seja, já sofremos internamente de alguma forma e o evento traumático só traz esse sofrimento à tona. Então, se o trauma é a oportunidade de esse sofrimento de sair, de se expor e de ser vivido, o trauma também é a oportunidade de o sujeito entrar, de refletir e de se auto-conhecer. O sofrimento é o caminho para a auto-descoberta, pois é através dele que encontramos o melhor caminho para nossos pontos mais profundos.

Imagine a analogia de um ferimento de bala. Se alguém leva um tiro, os médicos utilizarão o próprio ferimento de entrada da bala para procurar o projétil dentro do corpo. Não adianta eles quererem encontrar outro caminho menos doloroso, pois qualquer outro pode trazer mais danos: por mais doloroso que seja mexer em uma ferida aberta, é através dela que encontraremos o corpo estranho. Com o sofrimento é igual: revisitar o trauma é revisitar a porta de entrada para nosso mundo interno e conhecer o que realmente nos faz mal.

Então, o problema não foi o acidente de carro: o problema é a insegurança com a própria vida. O problema não foi a briga na escola: o problema é a falta de confiança nos outros e em si-memso. O problema não foi a mordida do cachorro: o problema está no medo do irracional e da agressividade em si mesmo. O problema não foi a demissão: o problema está com a impotência e a falta de confiança em si-mesmo. O problema não está na discussão com o outro: o problema está no medo do abandono e na solidão. O problema nunca está fora, com os outros: o problema é sempre com o próprio sujeito, nunca com algo dele, mas sempre com a forma como ele lida com as situações.

A recomendação que deixo, então, principalmente neste final de ano e início de 2014 é que saibamos respeitar e reconhecer melhor o sofrimento alheio. Palavras machucam mais do que feridas, pois a feridas curam e cicatrizam, mas a insegurança, a ansiedade, a angústia e o desespero só aumentam. Lembremos de sempre nos aproximar.

Palavras podem também curar e ajudar, quando acompanhadas do acolhimentoSe palavras podem machucar, elas também podem curar. Se não tem nada positivo a acrescentar, o silêncio é sempre melhor, pois esse mesmo silêncio está passando uma mensagem de aceitação incondicional, pois as condições ficaram para traz com as palavras não ditas. Críticas são úteis somente em duas situações: se a pessoa pediu sua opinião (portanto está preparada para aceitar a palavra potencialmente traumática) ou se essa crítica está acompanhada do acolhimento. Caso contrário, não se iluda: sua crítica irá ferir emocionalmente o outro. Seja construtivo, busque elogios e procure o lado bom das pessoas – pois acredite, o sujeito conhece os seus defeitos, pois o sofrimento é o único sentimento do qual nunca conseguimos fugir e do qual sempre temos certeza.

É só perceber: as lágrimas não são sinal de dor física, mas sempre de dor psicológica. Podemos aguentar estoicamente um soco no estômago, sem derramar uma lágrima – pois a dor física pode não provocar sofrimento algum. Mas a dor psicológica, o sofrimento, esse sim provoca lágrimas – seja essa dor ruim ou até mesmo boa, vinda de uma surpresa ou de algo extremamente feliz, o que nos leva a outro ponto: o sofrimento não é ruim, é somente sentir com grande intensidade algo que temos dentro de nós. Se vivemos isso como algo ruim, então devemos mudar nossa postura. Se vivemos isso de forma boa, então devemos valorizar esse momento.

Mas esses caminhos dificilmente podemos fazer sozinhos, por isso que o sofrimento é sempre delicado, pois são raras as pessoas que sabem compreender o nosso sofrimento. Se você tem alguém que sabe fazer isso e sofre com você (ou seja, é empática*, simpática* ou tem compaixão*), valorize-a como ela merece, pois essas pessoas valem ouro!

* A palavra grega pathos significa sofrimento. É interessante como no nosso idioma sentimentos de aproximação ao outro envolvem sofrer junto com o outro. Ser simpático é ter o pathos junto. O mesmo acontece com a compaixão e a empatia. É o sofrimento que nos torna humanos e é o sofrimento que deve nos aproximar. Infelizmente, como não sabemos como sofrer – e como não somos nada empáticos – nos afastamos de quem sofre, aumentando assim o cíclo da dor psicológica.

Comments (7)

  1. Julio Ito

    Muito bom o texto, Pablo!

    Quando vc diz que “o trauma não é a causa do sofrimento: o trauma é a oportunidade de o sofrimento interno vir à tona” me remete à consideração que Jung fez na Psicologia do Inconsciente que “o trauma, motivo aparente da doença, nada mais é do que a
    oportunidade que algo que está fora do domínio da consciência (…) tem de se manifestar.”

    A analogia do ferimento de bala foi show, muito didática.
    Ótimo texto para um começo de ano!

    Abraços.

  2. […] indica, o principal embasamento científico do uso de psicofarmacologia para o tratamento eficaz do sofrimento psíquico está sobre o efeito neuroquímico no cérebro. Pronto. Só isso. Porque foram feitas várias […]

  3. […] Uma breve reflexão sobre a dor e o sofrimento – Por que insistimos que sofrer é errado? Por que insistimos que o único caminho é o bem estar? Por que não aprendemos a lidar e viver nossas emoções negativas? Grande parte do problema não está no sentimento negativo, mas sim em como nós lidamos com ele. […]

  4. Nayra Caliope

    Muito Bom o texto.
    Nossa cultura pós moderna condena qualquer tipo de sofrimento e incetiva a fuga da dor. Porém ela é necessária para o grande encontro com o nosso eu.

    Muito bem apresentadas suas comparações e colocações.

  5. Simone Carvalho das Neves

    Excelente texto! Parabéns!
    Me ajudou a clarear algumas coisas referente a temática.
    Estou escrevendo meu TCC sobre fibromialgia com o seguinte título: A produção de sentido da dor: mulheres com fibromialgia atendidas em uma clínica escola de psicologia. O objetivo é compreender o sentido da dor para essas mulheres. Nas entrevistas apareceu muito as questões emocionais como responsáveis pelo aumento das situações de dores físicas, bem como os traumas emocionais relacionados ao aparecimento da FM. Gostaria de saber se tens alguma literatura sobre sofrimento para me indicar para a discussão dessa parte.
    Aguardo retorno, via e-mail se possível
    Abraços
    Simone

  6. gustavo silveira ferreria

    Muito execelente estou sofrendo por uma traição dupla foi embora e não consigo esquecer a taidora e por isso já estive quase em depressão ela voltou ficamos juntos perdoei quando tudo estava bom ela fugiu na madrugaga o pior ainda ela estar com outro e muito londe eu aqui sendo enganando por ela e sofrendo não me controlo ficou mandando mensagens e elogios e ela me engandno que vai voltar.. O texto foi maravilhos e se puder me ajudar mais o meu imail é gustavo.silveira [email protected] com

  7. Davi eduardo

    Foi muito bom ler este texto pq fala da critica abril meus olhos ,sobre …eu estou sofrendo pq perdi minha mãe de câncer..ela queria morrer em casa mas para confoorto dela a levei pro hospita por causa do oxigênio q ela precisava e agora não sei si fiz o certo acho q não respeitei sua última vontande mesmo sabendo q seria o melhor pra ela asim eu achava .

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