A Psicologia e os Modelos de Conhecimento: reflexões sobre depressão e farmacologia


Como será que diferentes pensamentos sobre psicologia podem conversar?Devo admitir que a repercusão de algumas ideias vai mais além do que imaginava, mas isso é algo bom! Algumas ideias realmente são difíceis de serem compreendidas e eu trabalho bastante com elas. Por muitas vezes meus alunos demonstram dificuldades em compreender algumas questões diferentes, justamente por partir de modelos de conhecimento que não estamos acostumados. E isso pode trazer vários problemas para a compreensão geral das discussões.

Trabalho com psicologia analítica, psicologia existencial e fenomenologia, além de estudos de fenomenologia da imaginação e estudos do imaginário, o que implicam em uma série de pensamentos e formas de pensar que diferem bastante das formas tradicionais de pensamento e de conhecimento. É isso que me refiro quando falo em um “modelo de conhecimento”. E existem vários modelos diferentes que pegamos de “empréstimo” para servir para a nossa forma de conhecer o mundo. 

Ciência e Religião são dois modos de vermos o mundo.Algumas pessoas utilizam um modelo religioso e seu conhecimento do mundo e da vida segue o padrão do conhecimento religioso. Outros seguem um modelo de conhecimento científico e dentro desse modelo existem vários outros modelos, como o químico, o físico ou das ciências humanas. Há aqueles que pensam como artistas ou roteiristas ou cineastas e outros até como educadores. Esses modelos de conhecimento servem como base para construirmos o que conhecemos. E é por isso que temos tantos problemas conceituais diante de tantas questões polêmicas, porque geralmente, por mais que utilizemos de argumentos semelhantes, nossos modelos são diferentes, o que implica que a lógica de construção e validação do conhecimento será diferente.

Entrei em contato com esse conceito de modelos de conhecimento no livro A Psicologia e o Problema Mente-Corpo, de César Xavier. Nesse livro, o autor investiga diferentes teorias do conhecimento a cerca da mente e mostra que, no final, elas diferente porque partem de modelos diferentes. Mas, ao mesmo tempo, se partirmos de um modelo único, poderemos compreender as diferentes teorias – desde Descartes até Skinner – de uma forma mais coerente. O modelo sugerido para isso é o Modelo Híbrido, que considera o objeto da psicologia como um híbrido das diferentes oposições possíveis para compreendê-lo.

Essa proposta é um tanto quanto ousada, pois para isso devemos compreender que existem várias formas de olhar para o objeto da psicologia. Primeiro, temos a dificuldade em definir tal objeto. Alguns chamam de mente, outros de comportamento, outros ainda focam no inconsciente ou na cosciência e ainda existem aqueles que dizem que é o cérebro, ou então a interação social. Para facilitar essa confusão, chamarei aqui esse objeto de Psique – o que nos traz outro problema que seria a definição de psique. Por hora, não tenho como definí-la com tranquilidade, porém, se compreendermos o modelo híbrido, acredito ser possível definir a psique baseada nisso.

Se olharmos os diferentes modelos historicamente construídos para se compreender o objeto psicológico, veremos que ora um modelo parte de um lado, ora outro modelo parte de seu oposto. Por exemplo, podemos pegar alguns modelos mais populares, como o materialista, que vai dizer que a base da psicologia deve ser material e biológica, portanto, o cérebro. Tudo que historicamente tratamos como “psique” ou “alma” ou “mente” pode ser explicado como padrões cerebrais dos mais variados tipos. Seu oposto, obviamente, parte de uma perspectiva socio-cultural, que irá dizer que a psique é o resultado de uma construção cultural, de ações ambientais, históricas e linguísticas que determinam o que chamamos de psique; ou seja, os comportamentos, condutas, pensamentos e emoções dependem da forma como a cultura é construída e como a linguagem é trabalhada.

Qual seria o objeto da psicologia?Qual será a correta? Os materialistas irão dizer que a cultura depende da complexidade cerebral, por isso animais mais simples não possuem cultura tão avançada quanto a humana. Já os culturalistas dirão que a compreensão que temos do cérebro depende justamente do que desenvolvemos enquanto cultura e linguagem, pois uma linguagem diferente nos dá um conhecimento diferente desse órgão e de suas funções. É, novamente, um embate entre opostos.

Outra oposição clássica existe entre o modelo cientificista e o romântico, que emprestam olhares de filosofias do século XIX – o positivismo – e XVIII – o romantismo – respectivamente. O modelo cientificista tentará compreender o objeto da psicologia através da experimentação, do controle e de testes, delimitando aquilo que pode ser observado como sendo passível de ser estudado: o comportamento. Já o modelo romântico tentará mostrar que existem padrões psíquicos não observáveis diretamente mais que afetam indiretamente o comportamento e pensamento das pessoas; e é isso o que chamamos de inconsciente.

São tantos os padrões e tantas oposições que mal temos como saber qual modelo seguir ou qual é o melhor. Algumas pessoas, por terem dificuldade nessa compreensão, tentam encontrar padrões objetivos para definir qual é o melhor modelo e então podem cair em um de dois extremos: o ecletismo e o dogmatismo. O ecletismo vai dizer que todos os modelos são válidos e que podemos usar um pouco de todos, pois todos funcionam. Já o dogmatismo vai dizer que somente um modelo é o correto e todos os outros são errados. Mas qual desses extremos devemos seguir? Bem, ambos estão corretos e errados ao mesmo tempo.

O ecletismo acerta na validade de todos os modelos, mas erra ao dizer que o que justifica o uso dos diferentes modelos é que eles funcionam. O dogmatismo acerta que devemos nos posicionar em um modelo e buscar a solidez, mas erra ao dizer que os outros estão errados. Ambos caem em um problema similar, que é se fechar para a experiência da alteridade, do que é diferente. O eclético irá se apoiar nas técnicas que funcionam, mas não irá compreender o que embasa tudo isso justamente porque essa compreensão lhe levará para longe da técnica. O eclético acaba sendo também tecnicista. Já o dogmático fecha-se em um modelo e ignora os demais, caindo no erro do reducionismo.

XAVIER. A psicologia e o problema mente-corpoA grande questão é que estamos abordando o problema do objeto da psicologia pelo viez errado. Ou olhamos a partir daquilo que funciona, a partir das técnicas, ou olhamos a partir da teoria de base. E, com isso em mente, procuramos o seu objeto. A proposta é que olhemos primeiro para o objeto da psicologia para depois compreender o fundamento teórico e o prático. E o objeto da psicologia nos aparece de forma dúbia, pois hora podemos observá-lo como comportamento e padrões cerebrais, ora não podemos observá-lo, como nos sonhos ou pensamentos reprimidos; ora ele é íntimo e pertence somente ao sujeito, ora ele é público e pode ser compreendido socialmente. Ou seja, sua fenomenologia, sua forma de percepção e de compreensão é dupla. Porém, não temos como dizer que o objeto da psicologia seja duplo, seja um objeto interno e outro externo, um observável e outro não. O objeto é um só, o que justifica que os diferentes modelos consigam dar conta da totalidade da psique.

Por isso o modelo híbrido satisfaz. É um modelo único que compreende que o objeto da psicologia é um híbrido entre todas essas oposições. Ele é um híbrido do único com o duplo, do interno com o externo, do íntimo com o social, do observável com o invisível. A psique, então, não pode ser compreendida como sendo somente de um lado ou de outro, mas como sendo resultado híbrido dos dois lados. Isso é mais ou menos o que eu defendi no meu artigo recente sobre discussões entre natureza e cultura sobre questões de gênero.

O ponto de vista psicológico do modelo híbrido vai compreender essas dicotomias como sendo próprias do objeto psicológico e por isso tentará não cair para um lado ou para outro, mas sim compreendê-lo como resultado dessa dicotomia – ou a dicotomia como resultado da condição híbrida da psique.

Enfim, dei toda essa volta para justificar o motivo de meu posicionamento teórico-epistemológico aqui no blog. Tenho recebido diversas críticas justamente de pessoas que utilizam um modelo diferente do meu para compreender as questões que proponho refletir aqui. Uma dessas críticas recentes foi da leitora Luciana, artigo que escrevi para responder a um comentário dela em outro post. Sua resposta é um tanto quanto longa, mas eu gostaria de comentar os diferentes pontos, levando em consideração os pontos que brevemente levantei acima. Por isso, copiarei os diferentes parágrafos que comentarei em seguida:

Prezado Pablo, obrigada por sua resposta, mas tenho que discordar integralmente de vc. É triste ver que existam profissionais que pensem como vc. Há tantos furos nos seus argumentos que nem saberia direito por onde começar. É uma mistura de preconceito, desinformação e crendice que desanima de ver.

É seu direito discordar integralmente de mim, da mesma forma como eu discordo integralmente de você. Não acho triste existirem profissionais que pensem como eu: triste é eu não encontrar tantos profissionais que concordem comigo. Mas as discordâncias são saudáveis, pois são elas que nos ajudam a compreender melhor nosso conhecimento ao nos mostrar o outro lado daquiloq que estamos olhando. Mas dizer que meus argumentos são uma mistura de preconceito, desinformação e crendice é ir um pouco longe, principalmente quando tais acusações não são justificadas com evidências – ao contrário dos meus argumentos. Se você voltar ao texto verá que existem vários links tanto internos quanto externos e até um vídeo inteiro onde o palestrante apresenta várias outras evidências que utilizo para fundamentar meus argumentos. Não baseei meus argumentos em sentimentos, nem o valor das ideias passadas em cima do que eu particularmente senti – pois se assim fosse, essas ideias teriam pouco valor porque perceber a manipulação de uma indústria sobre o bem estar do ser humano me faz sentir muito mal.

Bom, em primeiro lugar, está bem claro que vc nunca teve depressão. Se tivesse tido não iria dizer que “sempre tive em mim a vontade de melhorar”. Não, não é essa a questão. A questão é que, quando se está no fundo do poço, existem apenas dois caminhos: a morte ou pedir ajuda. Portanto, o deprimido não tem escolha, não é algo nobre vindo de dentro. É o fim absoluto.

Bom, em primeiro lugar, se eu tive ou não tive depressão é um dado irrelevante para o conhecimento. Se, para poder falar de uma condição ou para poder tratá-la eu tenho que ter passado por ela antes, isso impossibilitaria qualquer tratamento médico ou psicológico, pois para tratar um câncer, o médico tem que ser um ex-paciente, para tratar das consequências da homofobia, o psicólogo tem que ser homossexual? Então só mulheres podem ser ginecologistas e só negros podem trabalhar o racismo. Isso em si não faz sentido. E outra, mesmo que eu tivesse passado ou estivesse sofrendo de depressão neste momento, a minha experiência dessa condição será definitivamente diferente da sua, a ponto de não termos como comparar uma com a outra ou dizer que a minha experiência faz com que eu compreenda ou deixe de compreender a sua.

Diferentes visões de mundo nos levam a diferentes conclusões sobre o mundoA aproximação nesse caso não está no fato de eu ter passado pela experiência ou não – pois isso de certa forma pode prejudicar. Eu ter a minha visão pessoal sobre o ocorrido, baseado em experiências pessoais pode fazer com que eu veja as outras experiências no viés da minha experiência e comece a induzir o que deve e o que não deve acontecer para os outros baseado puramente naquilo que eu vivi. Ao contrário, se eu baseio a compreensão do outro em cima da empatia que sinto pelo outro, é mais fácil perceber que o meu ponto de vista é apenas mais uma vista do ponto, assim como das outras pessoas, fazendo com que a dúvida seja mais constante do que as certezas – o que, novamente, não é problema algum.

Porém, existem alguns padrões gerais da natureza humana, reflexo do nosso lado biológico comum, que nos dão uma base de conhecimento. A psique humana também funciona a partir de padrões e se conhecemos esses padrões podemos conhecer seus diferentes funcionamentos. E é isso que estudei na faculdade de psicologia e foi isso que convivi e tratei nos meus anos de psicoterapia pessoa e, da mesma forma, nos meus anos como psicoterapeuta. E é isso que percebo cotidianamente nos mais diversos comportamentos humanos que ajudam a construir e desconstruir o que sei sobre o ser humano.

E mais uma coisa, não me lembro de ter dito em momento algum no meu texto a frase “sempre tive em mim a vontade de melhorar” ou algo que o valha. Mas dizer que isso não foi pensado e logo em seguida dizer que no fundo do poço, no fim absoluto, você ainda vislumbrou o caminho de pedir ajuda e não só da morte, esse caminho, esse pedido de ajuda é uma forma de dizer que se quer melhorar, é um reflexo dessa vontade de melhorar que sempre esteve aí e que foi encontrada através do pedido de ajuda. Algo que muitos psicólogos e psicoterapeutas, como Carl Rogers, Abraham Maslow, Carl Jung e outros humanistas, irão chamar de tendência a auto-realização.

Parece que estamos no fundo do poço, quando de fato estamos no meio de um tunel...Mas, para fins de argumento, sim, eu tive depressão e sim, cheguei ao fundo do poço onde as duas saídas eram ou a morte ou pedir ajuda. Na verdade, nem pedir ajuda era alternativa naquele momento, pois sabia que ninguém saberia como eu estava me sentindo, pelo quê estava passando. Minha sorte é que eu já havia passado por alguns anos de terapia pessoal e já era um psicólogo formado, então eu sabia racionalmente o que estava acontecendo, por mais que pessoalmente nada fizesse sentido.

Porém, nessa mesma época (nos anos de 2006 e 2007), eu tive uma epifania que me salvou: eu não preciso morrer para resolver os meus problemas, eu só preciso encontrar forças para viver um dia de cada vez enquanto eu descubro o que é que está me prendendo no fundo do poço. E, enquanto eu pesquisava o fundo do poço, eu vi que na verdade ele era um tunel. Demorei três anos para chegar nesse ponto e demorei mais uns cinco para sair dele. Confesso que de vez em quando ainda derrapo e caio novamente, mas do outro lado do túnel encontrei formas de compreender a vida e a mim mesmo que são bem diferentes dos modelos que vivia quando entrei.

E depois, enquanto tratei de vários casos de pacientes que chegavam com queixas de depressão ou transtornos de humor, percebia padrões semelhantes, onde o que a pessoa vivia era a morte e o desespero, mas bem no fundo – naquela luz do fim do tunel que está tão longe que nem conseguimos ver e achamos que estamos em um poço – ela queria melhorar, tanto é que estava lá procurando por ajuda para melhorar. Um paciente, inclusive, me relatava como já havia tentato várias vezes se matar, mas nunca conseguia porque sempre algo atrapalhava. Mas, em seu relato, esse “algo” que atrapalhava era ele mesmo, mas ele não percebia. Era algo em si mesmo que impedia a sua morte e o levava para uma melhora.

Quando a morte parece ser a única saída, existem outras...Um colega inclusive relatou que atendia uma pessoa com depressão. Uma tarde esse paciente liga para ele para desmarcar a consulta do dia seguinte, pois naquela noite ele pretendia se matar. Na hora, o psicólogo desmarcou o que tinha que fazer e foi até a casa do paciente e passou o resto da tarde com ele. Nesse tempo, ele descobriu muita coisa que no consultório não havia aparecido e lá eles encontraram a luz no fim do túnel e um motivo para o paciente continuar vivendo. Pois bem, se ele não tivesse uma vontade de melhorar, ele não teria ligado para o psicólogo e teria simplesmente se matado.

A morte faz parte da vida e não adianta fugirmos dela. Podemos compreender a morte do ponto de vista biológico e dizer que ela é o fim da vida e por isso deve ser evitada, ou do ponto de vista social, como algo que interrompe a vida e por isso deve ser evitada. Mas, do ponto de vista psicológico, a morte é uma fantasia que precisa ser vivida simbolicamente – caso contrário, passamos a vivê-la literalmente. E é isso o que acontece na depressão, uma dificuldade de vivência simbólica da morte e a única saída é a morte literal. Mas, acho que não quero me extender muito sobre isso. Se quiserem ler mais, escrevi sobre isso neste artigo: Sobre a Morte e o Viver.

Outro ponto equivocado: os efeitos colaterais são piores que a depressão. Errado. Os efeitos colaterais são realmente chatinhos, mas para quem está com depressão, não são absolutamente nada, ainda mais se formos comparar ao bem estar que se sente com o tratamento. Novamente, se vc já tivesse tido depressão, saberia do que estou falando.

Bom, não posso dizer sobre mim, pois no meu histórico de depressão nunca me permiti recorrer a ajuda química para algo que sentia que eu devia viver. O que posso falar dos efeitos colaterais são de relatos dos meus pacientes e amigos. Todos eles que tomavam remédios sofriam com isso, mais do que com o transtorno em si. Inclusive, era um padrão muito parecido com o sofrimento que os pacientes dependentes de droga relatavam.

Uma paciente que tomava antidepressivos há 40 anos e um coquetel de mais de 5 drogas para combater os efeitos colaterais tinha episódios de humor constantes – algo que o remédio deveria tratar mas não tratava e sempre que tentava diminuir a quantidade de remédios, justamente porque eles a faziam passar mal ou intensificavam a situação de humor, ela sentia fortes dores físicas e malestares ainda mais fortes.

Somos todos bipolares - só precisamos aprender a lidar com isso...Outra paciente que tomava remédios para tratar de transtorno bipolar sem inicialmente ter sintoma algum de mania (seu primeiro psiquiatra diagnosticou errado irritabilidade como estado de mania e todos os seguintes só confirmara o diagnóstico), apresentando inicialmente somente sintomas claros de depressão, começa a desenvolver, após dois anos tomando constantemente o remédio, sintomas maníacos correspondentes ao que ela estava tratando. O análogo é a pessoa tomar aspirina para tratar uma dor de cabeça que ela não tem e depois de dois anos ela desenvolver uma dor de cabeça forte que ela deveria estar tratando. Simplesmente não faz sentido.

Outro paciente que, para poder sair de casa tomava ansiolíticos, porém chegava tão dopado no consultório que mal conseguíamos conversar e a terapia demorou meses sem resultado algum. Porém, em um dia que ele esqueceu de tomar o remédio, progredimos muito, o suficiente para percebermos o quanto o remédio fazia mal.

Uma amiga que tomava anticonvulsivantes para tratar transtorno alimentar relatou que se sentia uma estúpida enquanto conversava com os amigos, algo que ela nunca sentia antes. Ela preferia o mal estar do TA do que o mal estar de não poder participar decentemente de uma conversa. Inclusive, esse tipo de situação a levou a tentar suicídio por overdose de antidepressivos.

Outro paciente que, para tratar de uma depressão que o impossibilitava de relacionamentos íntimos e sociais, desenvolve disfunção erétil e intolerância ao álcool – justamente o que o impossibilita de relacionamentos íntimos e sociais. Ou seja, ele queria se relacionar mais, mas os remédios o impossibilitavam disso e o deixavam ainda mais deprimido.

Posso seguir relatando vários casos episódicos de efeitos colaterais negativos dos remédios. Mas eles serão somente casos episódios e sem nenhuma relevância estatística, como você bem sabe. Mas, posso dizer por mim, já que ao que parece a força do argumento agora está na vivência pessoal: nunca tomei antidepressivo e nem pretendo tomar. Sofri e ainda sofro com a depressão e só minha esposa sabe o quanto isso ainda me afeta.  Não é agradável, mas reconheço o seu valor e sei o quanto ganho pessoalmente com isso. Não preciso ser feliz o tempo todo, isso minha depressão me ensinou. E ela me ensinou também a valorizar as pequenas coisas que antes ignorava. Se tivesse tomado remédios, provavelmente nunca teria aprendido isso.

Outra coisa que podemos perceber são o que as pesquisas apontam sobre a relação dos antidepressivos e a melhora do paciente em relação com a terapia. Vou deixar aqui referências para matérias e artigos sobre o assunto:

Placebo, pesquisas, indústria farmacêutica, manipulação. Eu sou cientista, já fiz pesquisa em universidade pública, já trabalhei na indústria farmacêutica e sou especialista em publicações científicas. Essa imagem do bicho papão malvado que falam da indústria chega a dar dó de tão ridícula e obsoleta. Já há muitas décadas que existe tanta regulamentação, controle e transparência nas pesquisas que é virtualmente impossível ver o tipo de maracutaia praticado há 30-40 anos por uma parcela mínima dos pesquisadores do mundo. Quem trabalha e se interessa por pesquisa sabe a seriedade do que é feito. Infelizmente o preconceito e a desinformação voluntária ainda são usados como argumento por profissionais como vc.

Poxa, meus parabéns! Esse percurso acadêmico não é para qualquer um, principalmente para alguém que sofreu tanto com depressão. Deve ter sido uma conquista e tanto tudo isso. Mas, sinceramente, não sei o que o seu currículo tem a ver com os meus argumentos. Apelo a autoridade nunca é um caminho bom para contra-argumentar. O caminho é apresentar evidências, como eu fiz no meu artigo anterior e estou fazendo novamente neste artigo – evidências essas que não foram contestadas, somente criticadas com diplomas e experiências acadêmicas que não dizem nada.

GOLDACRE. Bad Pharma.Meu argumento de crítica à industria farmacêutica está baseada em pesquisas, como as de Ben Goldacre que citei no outro post. Outras fontes incluem levantamentos históricos da psiquiatria e da psicofarmacologia que usei para escrever vários artigos neste blog. Inclusive, aquele vídeo de Goldacre é de 2012, nem é tão antigo assim e ele apresenta justamente a manipulação dos resultados negativos que não estão presentes nas publicações acadêmicas. Em seus livros Bad Science e Bad Pharma ele apresenta outras evidências de como as grandes indústrias farmacêuticas realizam suas pesquisas, manipulando os resultados encontrados. Goldacre é médico e ele relata que ele se sente enganado por essa falta de informação e não consegue tratar de forma adequada seus pacientes por conta disso. Então, esses argumentos não são baseados em preconceito e desinformação voluntária, mas sim em evidências. Talvez não sejam as evidências que você conhece ou que queira ver, mas são evidências mesmo assim.

E as suas, onde estão? E, por favor, se for apresentar evidências de pesquisas gostaria de ver aquelas independentes que não favorecem determinado laboratório que ajudou a financiar essa pesquisa. Pois, como bem sabemos, a psiquiatria é um campo bem delicado justamente por conta do envolvimento direto do dinheiro da indústria farmacêutica, como podemos perceber em seu envolvimento na redação do DSM – http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/1069893-cresce-influencia-da-industria-sobre-manual-de-psiquiatria.shtml

Aproveito e deixo também uma lista de alguns artigos em inglês que revisam a relação entre antidepressivos e placebos, pois acho que esse tipo de material pode nos ajudar a compreender a relação que propus. Muitos desses artigos possuem suas referências às pesquisas que eles comentam, então, ao menos, servem como base para as evidências que comentei:

O seu relato de como são usados placebos em pesquisa é mais um equívoco. O senhor entende de estatística e epidemiologia? Sabe como funcionam as pesquisas clinica e a científica? Sabe o que é randomização, estudo duplo-cego? Sabe quais são as severas restrições e critérios para a realização de estudos com placebos e por que são feitos? Sabe o que é porque existem as fases pre-clinica, fases I, II, III e IV em estudos clínicos? Os objetivos e a razão de existirem? A origem de tal esquema de pesquisa? Declaração de Helsinki?

Bom, vejamos… Eu entendo o que é estatística e epidemiologia. Sei como funcionam pesquisas clínicas e científicas. Sei o que é randomização, estudo duplo-cego. Sei quais são as restrições éticas e os critérios para estudos com placebo e inclusive a restrição ética do uso de placebos clinicamente. Sei quais são as fases pré-clinicas, fases I, II, III e IV de estudos clínicos, para testar desde toxicidade até efeitos principais e colaterais, além de eficiência e eficácia. Conheço a metodologia, objetivos e justificativa desses processos, além de sua história, dos erros cometidos e de como fazemos hoje e também a declaração de Helsinki, além de critérios de pesquisa com seres humanos e da resolução do CNS 196/96.

O placebo ocorre naturalmente...Mas citar essas questões – que tentei ilustrar de forma simples no meu outro aritgo para quem não conhece esses termos – não indica que meus argumentos não sejam válidos. Qual o problema do placebo em pesquisa que relatei? Por acaso ele não é usado como controle da eficácia dos medicamentos? Por acaso o “efeito placebo” não ocorre naturalmente? Quais são os problemas nos meus argumentos? E se quiser, pode ilustrar os problemas com esses termos que você listou que irei compreendê-los.

Além disso, infelizmente a ciência não é neutra e acreditar na neutralidade científica, como se os métodos aplicados e protocolos seguidos fossem isentar todas as pesquisas de enviesamentos ideológicos. Isso é ingenuidade. Todo pesquisador, por mais sério que ele seja, é influenciado pelo seu meio, pela comunidade científica e acadêmica, por suas ideologias, visões, objetivos e metas e também por seus preconceitos. Se tivesse mais tempo, listaria vários artigos publicados em periódicos que refletem ideologias e preconceitos – mesmo sem querer – que seguem todos os protocolos e recomendações práticas de pesquisa.

Outro ponto. As publicações científicas. Engana-se ao dizer que são manipuladas ou deixam de publicar resultados negativos. A rede de publicações especializadas no mundo é complexa e altamente competitiva. Especialmente nas últimas décadas com a internet e o fácil acesso a grandes volumes de informação, os processos e critérios de aceitação e publicação de resultados ficou muito mais transparente e focado na informação e na ciência. Não há mais espaço para as manipulações obscuras de outrora. Insistir nesse tipo de argumento é mais um exemplo pueril de desinformação voluntária.

Olha, eu conheço a complexidade das publicações científicas mundiais e inclusive os problemas que ocorrem por conta dos diversos protocolos implicados. Mas, quem fez a acusação da dificuldade de publicar os resultados negativos foi Ben Goldacre. Sei que existem revistas especializadas nesse tipo de publicação – porém, elas são minoria, comparada com as demais. Goldacre apresentou evidências e números que ilustram esse tipo de prática, o que simplesmente relatei na construção de meus argumentos.

E sim, ainda há espaço para manipulações dos mais variados tipos, principalmente pelo desconhecimento da falta de neutralidade científica e da indução ideológica de ideias (como falei acima), além de outros problemas práticos como por exemplo, o que chamamos de “salami science”, ou a multiplicação de uma mesma pesquisa em vários artigos diferentes, diluindo a informação e dificultando o acesso ao conhecimento, além de outros dilemas éticos como autoplágio, trocas de citações ou até o fato de resultados negativos não serem tão interessantes de serem publicados e não serem incentivados no meio acadêmico. Quero deixar aqui algumas breves referências sobre esses problemas nas publicações científicas:

E mais uma coisa, argumentos ad hominem como o “exemplo pueril de desinformação voluntária” realmente não são argumentos bons para se usar em um debate, pois mostram que o debatedor não possui mais argumentos e precisa recorrer a atacar seu oponente pessoalmente.

Ah, para sua informação, a Anvisa é um órgão sério e rigorosíssimo. Bem mais que o FDA em muitos casos. Eu já vi vários exemplos de perto.

Isso é muito bom saber, obrigado! Tive acesso a pouca informação sobre a regulamentação da ANVISA sobre os psicofármacos no Brasil e os dados que tive mais acesso foram da FDA e por isso me referi mais a ela. Parece que os Estados Unidos estão mais preocupados em reconhecer a manipulação dos dados do que nós brasileiros. Mas se a ANVISA é mais rigorosa, fico mais aliviado. Gostaria de ter acesso a alguns exemplos e se puder deixar algum link, agradeço, pois com certeza irão complementar meu conhecimento.

Muito triste ler esse seu texto, caro senhor. Muito triste mesmo.

Sinto muito você pensar assim. Mas espero que compreenda que quando coloco meus argumentos daquela forma é sobre uma perspectiva psicológica, considerando um potencial humano que ultrapassa as limitações bioquímicas. Justamente por reconhecer que podemos ir além do que simplesmente uma redução de neurotransmissores é que não aceito que nosso tratamento do sofrimento mental se reduza a isso. E, ao compreender a dinâmica do sofrimento – e por passar por isso sempre, como qualquer ser humano – é que valorizo o quanto o sofrimento pode nos ensinar.

Olhar para o lado psicológico, usando o modelo híbrido é compreender aquilo que não estamos vendo, é valorizar aquilo que foi desvalorizado. Se seu modelo segue outros padrões e isso funciona para você, ótimo! Parabéns, siga em frente e tenha uma ótima vida. É bom discutir com pessoas esclarecidas, que sabem de onde estão falando, ao contrário de outras que me aparecem por aqui. Porém, isso não justifica que somente o seu modelo seja válido. Podemos muito bem encontrar um meio-termo, um ponto onde os vários extremos são vividos.

Contudo, a proposta que tenho para esse ponto médio implica na valorização de questões que deixam outras de fora, como o apoio bioquímico para os transtornos mentais. Ainda vejo a eficácia dos psicofármacos como placebos – até que me apresentem evidências contrárias, que realmente os remédios podem fazer melhor para o paciente do que psicoterapia. Inclusive, quero deixar um vídeo que assisti recentemente sobre os efeitos do placebo que me esclareceu bastante sobre como podemos viver o “efeito placebo”. Esse vídeo, porém, é em inglês e sem legendas.

Discutir qualquer assunto referente à psicologia é polêmico justamente porque o seu objeto não se deixa reduzir a nenhum único padrão. Enquanto um vê uma coisa, o outro vê outra e, no final, todos estão certos de alguma forma, como a história dos cegos e o elefante. O segredo é tentar encontrar esse modelo de compreensão que de conta da diversidade de fenomenologias, sem cair no ecletismo, como o modelo híbrido faz.

Não podemos reduzir o ser humano a um lado ou a outro. Ele não é só natureza ou só cultura. Tampoco é só mente ou só corpo. O ser humano é ao mesmo tempo fonte e resultado de todos esses processos e não temos como ignorar nenhum deles. Porém, ao olhar esse novo ponto híbrido precisamos reconhecer que os demais pontos ganham outros olhares e outras perspectivas que precisamos valorizar de acordo.

Quero aproveitar e deixar aqui para quem se interessar em aprofundar o questionamento, o link para alguns de meus artigos onde falo sobre outras questões relativas ao tratado aqui. Aproveito e deixo também com uma breve reflexão.

  • Quem observa os observadores: mídia e psicopatologia – Por que a mídia insiste em vender felicidade? Qual o problema do sofrimento? Porque ela utiliza o medo para vender saúde? A manipulação dos sentimentos humanos ocorre com o objetivo principal de venda e nada mais.
  • Chapeuzinho Vermelho, os atalhos da vida e o Lobo Mau – Será que existe problemas em pegarmos atalhos para resolver facilmente os nossos problemas, mesmo aqueles que parecem enormes e sem solução? Se pegarmos o conto da Chapeuzinho Vermelho podemos usá-lo como metáfora para compreender o valor do caminho mais longo e os riscos reais dos atalhos que nos oferecem – principalmente quando vemos quem é o lobo que nos oferece tal atalho…
  • O marketing da loucura: estaremos todos insanos? – Um documentário que mostra como o poder da industria farmacêutica criou diversas doenças mentais a partir de propaganda. Não sei se eu chegaria às mesmas conclusões que os produtores, porém, os dados e evidências mostradas são alarmantes e preocupantes.
  • O problema da medicalização da vida – A medicalização é um problema real e corrente, quando passamos a perceber questões cotidianas e naturais como sendo problemas médicos que necessitam de atenção medicamentosa ou intervenção profissional. Ou não?
  • Uma breve história dos psicofármacos – A história nos lança excelentes ferramentas para compreender o que está acontecendo hoje, principalmente quando percebemos os motivos originais e os caminhos iniciados. Se algo começa errado e esse começo nunca foi questionado, tem como algo terminar certo?
  • Os efeitos dos medicamentos na vida – Efeito colateral ou dano colateral? Será que realmente o efeito colateral é menor comparado com o efeito principal? E será que podemos dizer que algo é vantajoso se traz tantas outras desvantagens?
  • O uso dos psicotrópicos e a sociedade – Por que insistimos em resolver os problemas do mundo através da química cerebral? Grande parte do sofrimento mental é resultado de problemas relacionais ou ambientais, de imposições sociais e culturais. Tratar o cérebro é culpar o indivíduo por um problema coletivo.
  • A psicofobia e o diagnóstico em saúde mental – Será que existe doença mental? Será que os diagnósticos não podem ser questionados? E por que precisamos associar a identidade das pessoas às suas condições de sofrimento?
  • Um apelo da depressão – um relato de um leitor sobre sua experiência pessoal com a depressão e os efeitos tanto dos remédios quanto da própria vida.
  • Os bodes-expiatórios e os crimes da sociedade – Os fármacos originalmente eram bodes-expiatórios e hoje em dia continuam sendo. Culpamos o indivíduo pelo crime da sociedade e induzimos ele a tomar remédios – fármacos – para se adequar a uma sociedade doente.
  • O que realmente está pro trás da “cura gay” e Uma nova rodada para a “cura gay” – A homossexualidade já foi considerada uma doença mental mas a comunidade médica já não vê mais assim. Porém, a sociedade ainda trata como se fosse doença que precisa de cura. Mas, se a homossexualidade já perdeu seu status de doença, será que um dia passaremos a aceitar os outros “doentes mentais” da mesma forma como aceitamos os homossexuais?
  • Uma breve reflexão sobre a dor e o sofrimento – Por que insistimos que sofrer é errado? Por que insistimos que o único caminho é o bem estar? Por que não aprendemos a lidar e viver nossas emoções negativas? Grande parte do problema não está no sentimento negativo, mas sim em como nós lidamos com ele.
  • Sobre a prática da psicoterapia – Existem diversas psicoterapias, mas todas elas têm o mesmo fundamento: cuidar do ser humano através da construção de vínculos e relacionamentos de confiança.
  • Psicofármacos, terapia e o efeito placebo – Se compararmos o resultado dos psicofármacos ao resultado de placebos, não vemos diferença. Se esse é o caso, não seria a eficácia dos psicofármacos resultado de efeito placebo? Isso explicaria muita coisa…
  • Um olhar psicológico sobre as discussões culturais e naturais sobre gênero e sociedade – O ser humano é único ou múltiplo? Ele é formado só de natureza ou só de cultura? E como é que essas diferentes visões interferem na nossa compreensão de humanidade e na forma como tratamos as outras pessoas?

Comments (2)

  1. Pablo, realmente uma excelente resposta às acusações infundadas (por falta de referências) do outro post. O apelo a autoridade (carteirada) geralmente costuma funcionar, porém tinha a extrema convicção de que vc não se deixaria levar por essa “artimanha cognitiva”… hahaha

    Como vc escreveu, tendemos a interpretar o mundo de acordo com o modelo ao qual temos mais afinidade e acabamos desenvolvendo uma espécie de “olhar viciado” que acaba algumas vezes nos tendenciando a dar valor somente ao nosso lado, descartando outras formas de pensamento. Ainda nessa linha, o ser humano não se reduz como vc disse, somente à mente ou ao corpo.

    Na Psicologia do Inconsciente (vc deve conhecer de trás para frente hahaha) tem uma frase que pode ser analogamente empregada a esse raciocínio de busca de consideração dos diferentes pontos de vistas e que gosto bastante, na parte das considerações finais, onde Jung diz que “uma psicologia que satisfaz unicamente ao intelecto, jamais é praticável; pois o intelecto por si só nunca será capaz de abranger a totalidade da alma.”

    Abraços,

    Julio Ito

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