Quem observa os observadores: os rolezinhos e o medo das massas


Encontro de Blogueiros de Curitiba acontecia regularmente em Shopping, com dezenas de pessoas.

Fonte: Jonny Ken Itaya http://www.flickr.com/photos/jonnyken/2435699977/in/photostream/

Organizar encontros no shopping através da internet e de forma periódica: blogueiros de Curitiba já faziam isso em 2009, inclusive com o apoio do shopping em questão que chegou a ampliar o acesso ao Wifi por conta disso, como mostra esta matéria aqui do próprio estabelecimento. E, desde essa época, o mesmo Shopping recebe a visita organizada de grupos vindo da periferia da cidade ouvindo suas músicas preferidas e vestindo suas calças no joelho e pantufas no pé sem muito preconceito… Até hoje é assim, sem grande separação, sem tantos conflitos (só um pouco e só de vez em quando).

Na mesma época inaugurou na cidade um outro shopping que dizia ser o maior centro comercial do sul do Brasil, só que lá, pela proximidade a um grande terminal de ônibus que facilitava a chegada de gente “diferenciada” de mais longe, eles tiveram esse tipo de problema de barrar a entrada desses grupos. A resposta foi uma investigação do Ministério Público que percebeu que vários shoppings faziam algo parecido, por mais que fosse velado.

Agora, no final do ano passado, foi inaugurado em um bairro nobre da cidade um shopping de grã-fino, cujas lojas da entrada já demarcam seu público de cara, com lojas como Luis Vuiton, Ermenegino Zegna, Prada e Tiffany & Co., só pra listar algumas. Fico imaginando que ninguém da periferia teria algum interesse nesse shopping, principalmente porque nem seu cinema foi inaugurado ainda e a praça de alimentação é decadente. Minha mãe que literalmente mora na frente do shopping adora, mas eu, sinceramente, não vejo motivos e não gosto de frequentá-lo.

Quem é esse novo público que quer frequentar shoppings?Mas, esse lance todo do rolezinho mostra outra coisa. Não é só limitação de público em espaços publico-privados ou, como tive que ler hoje, limitação de entretenimento em espaço reservado a consumo. Já ouvi gente dizendo que shopping irá barrar organização de muita gente feita pelas redes sociais, e digo que isso é mentira, pois o #ebc sobreviveu muito tempo agregando dezenas de pessoas de cada vez, chegando a mais de 50 na praça de alimentação. Já ouvi também que o problema é que são da periferia e estão roubando espaço da classe média, o que eu acho um motivo muito pequeno e muito sociológico, secundário.

O que vejo estar acontecendo é medo. Ligamos a televisão e vemos uma cena de uma pessoa rica frequentando espaços chiques de ricos e sendo feliz. Anunciamos e vendemos felicidade através do consumo. A periferia comprou e criou o Funk Ostentação, bandeira/hino dos rolezinhos. E além disso sente-se no direito de frequentar no mesmo espaço que aprendeu na televisão, a mesma consumida pelos privilegiados. Só que agora há um elemento desconhecido, um público novo na área e não sabem como reagir.

E como aprenderam a lidar com isso? Através da exclusão: afasta de mim isso que não conheço, isso que não gosto, nem que tenha que pagar. Aliás, não é assim que os filhos dos riquinhos passavam de ano, com o pai pagando, o famoso PPP “papai pagou, passou”? Ao menos é isso que eu cresci ouvindo e acredito que estamos vivendo um fruto disso, que as diferenças se resolvem com dinheiro.

A poícia precisou separar pessoas no shopping de outras pessoas do shoppingQuem frequentava originalmente aqueles Shoppings que agora estão promovendo censura e segregação social estão com medo. Não quero defendê-los, só chamar a atenção para uma realidade bem clara: quem tem medo, tem medo de algo que não se conhece. Vivemos em uma sociedade que não se conhece, onde parte tem medo da outra parte. Classifiquemos de forma bruta e gorsseira entre ricos e pobres. Por que os ricos tem medo dos pobres e os pobres não tem medo dos ricos e querem frequentar seus ambientes?

A mídia nos vende uma ideia: de que precisamos ser, a todo custo, felizes e para termos essa felicidade precisamos de dinheiro. Isso é mais do que simples anúncios: isso é propaganda ideológica. Ligamos a televisão e ouvimos o jornal falar em índice de emprego, não de trabalhos. Conheço muito vendedor de cachorro quente que não trocaria sua vida por nenhuma carteira assinada, mas essa é a meta e o sonho do brasileiro, divulgado pela propaganda estatal. E vemos dois tipos de programação, um voltado para os ricos (que os pobres também assistem) e outra voltada para os pobres (que os ricos não assistem porque têm TV à cabo e internet banda larga).

A televisão se transformou no meio de comunicação de massas preferido do povo. No ano passado, a venda de televisores cresceu 13% no Brasil e espera-se vender mais em 2014 por conta da Copa do Mundo e depois das Olimpíadas. Só que a televisão é uma comunicação de mão única, que só transmite e não recebe informações. Ela transmite informações que não são questionadas e são tidas como verdades. E o conteúdo dos programas passados pela televisão ilustra bem isso. Se tiverem tempo, assistam a este programa britânico sobre a televisão brasileira vista pelos estrangeiros (e lembrem-se de ligar as legendas, caso necessário).

A programação dos ricos é a novela, o telejornal com notícias econômicas e do mercado financeiro, além dos estilos de vida dos famosos e de Nova Iorque. A programação dos pobres é violência, sangue, barulho, exploração da sexualidade. A imagem que é passada do nosso povo é essa: ser rico é ser glamuroso e ostentar essa riqueza. Já ser pobre é ser violento, hipersexualizado e basicamente selvagem. (Vale lembrar aqui que estou fazendo uma generalização grosseira da forma como as coisas são apresentadas)

Por que será que vemos tanta violência na midia?O pobre vê a televisão e quer ser rico, porque talvez ele tenha se cansado da violência e quer o glamour de Paris que ele tanto vê na telinha. O rico vê a televisão e tem medo da violência e selvageria do pobre. Quando esses dois mundos se encontram em um ambiente público, acontece o que aconteceu com os rolezinhos: os ricos demonstram esse medo que sentem dos pobres.

Mas, quem é que falou para a televisão passar glamour e violência lado a lado? Foi seu público, não só quem assiste, mas principalmente quem tem condições de comprar os produtos que ela vende: a classe média. O mais interessante é que a violência é consumida pela classe média em qualquer lugar. Por exemplo, antes de o MMA fazer sucesso na Globo e virar febre entre todos, ricos e pobres, a classe média já assistia na internet e divulgava nas redes sociais. E foi por aí que a televisão viu a possibilidade de lucrar com isso.

No final, temos um povo que compra desinformação e se alimenta do medo do desconhecido. Vivemos em uma sociedade da alienação, onde não sabemos sobre o que estamos falando e não queremos nos informar. Preferimos confiar nas imagens da telinha plana recém comprada pra ver os jogos do Brasil nos dias de feriado futebolístico da Copa do que na nossa experiência do dia-a-dia. Vivemos em um mundo onde o preto é pobre, vagabundo e ladrão e o branco é senhor, rico e vítima. Somos construídos por nossos preconceitos e temos medo disso.

Mas esses dois Brasis não é exclusividade da televisão. Basta ver estas duas capas de um mesmo jornal, do mesmo dia, com duas manchetes diferentes. A primeira, vendida na parte “rica” da cidade, falando sobre educação. A segunda, vendida para a perifeira, falando sobre violência. Será que os pobres não se interessam pela educação? Será que os ricos não comprariam a violência? Por que essa separação de classes? Ou melhor, o que essa separação está nos falando sobre o nosso povo?

Um mesmo jornal, duas capas para dois públicos

O que o rolezinho mostrou para mim não foi o preconceito do brasileiro, pois isso é notícia velha, muito menos que estamos nos encaminhando para o apartheid – o que eu acho que é um salto muito grande. O que ele me mostrou é que dependemos MUITO da televisão e da mídia de massa para termos informação sobre o nosso país, sobre o nosso povo. Quando temos uma mídia que vende dois produtos diferentes para dois públicos diferentes, ela está vendendo informações sobre esses públicos para os outros públicos. E compramos isso também. Ao invés de termos a experiência de nos conhecer pessoalmente, conhecemos os outros através da televisão e isso basta.

E com isso, construímos nosso conhecimento em cima do medo – ou melhor, ignoramos o conhecimento e construímos nossas experiências em cima do medo. O público dos Shoppings finos onde ocorreram os rolezinhos conheciam o que além da violência desse novo público? Não é de se esperar nada diferente de uma mídia que vive de separação, alimentando e sendo alimentada por um público que pede separação, que vivamos a separação nos espaços públicos – a mesma separação que vivemos dentro de nós mesmos.

Vamos ver televisão para esquecer os problemas ou para intensificá-los?

E não tinha como não terminar este artigo sem colocar a música “Televisão”, dos Titãs, que sinto resumir bem o que tentei expor aqui…

Comment (1)

  1. No shopping aqui do lado ocorreu um desses rolezinhos, tanto que fecharam mais cedo no dia, e ouvi dizer que houve roubo e quebra de lojas, se é verdade ou não, não sei, mas não duvido de nenhuma das possibilidades. O interessante que esse shopping em questão é frequentado em sua maioria de pessoas da mesma classe das que fazem o tal rolezinho.

    Não pesquisei muito sobre isso, nem vi muitos videos, vi mais é comentarios, e isso tudo ajudou a eu ver como as pessoas acabam sendo preconceituosas e violentas em tais comentarios, em inúmeros lados, desde racismo, classicismo (não sei se seria essa a palavra), até ideologias politicas, tanto defendendo o lado dos “invasores” como dos “cidadãos do bem”.

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