Temos como negar o que está diante de nós?Estava no Facebook dias atrás quando vi o desabafo de uma amiga sobre uma questão pertinente aos estudos culturais de gênero que ela estuda no mestrado. Ela estava desabafando que existem pesquisadores que, de certa forma, levantam a bandeira do negacionismo biológico, colocando que tudo é uma construção cultural. No caso, ela estava explicando que existem pessoas que, para defenderem que as diferenças de gênero são questões socialmente construídas, atacam qualquer possibilidade de aceitar marcações biológicas para a definição de gênero. Ou seja, gênero deveria ser uma escolha ou construção pessoal, não uma imposição cultural, muito menos utilizando-se de argumentos biológicos.

Esse é um debate acalorado, com apoiadores de ambos os lados. Eu, particularmente, aceito a posição da minha amiga que, por mais que existam definições culturais na discussão sobre gêneros, não podemos esquecer que possuímos corpos biológicos e que esses corpos biológicos impõem de certa forma limitações como menstruações para as mulheres (por mais que muitas delas prefiram tomar remédios para evitar os desconfortos mensais) e a impossibilidade de gerar vida para os homens, por exemplo.

A diversidade sexual é muito mais complexa do que imaginamos...Os exemplos do século XXI sobre a diversidade sexual são tanto, mas tantos, que realmente podemos pensar que aquilo que aprendemos na escola não faz mais sentido. Não temos somente rosa e azul, meninas e meninos, portadores de pênis e portadores de vaginas: temos todo um espectro no meio que questiona nosso conhecimento sobre sexualidade. E esse espectro vai desde os heterossexuais cisgênero que aprendemos na escola (homens que se casam com mulheres e vice-versa), até os homossexuais cisgêneros (homens que gostam de homens e mulheres que gostam de mulheres) e os transgêneros (que nascem de um gênero e vivem de outro) sejam eles heterossexuais ou homossexuais. E diante disso, nos perguntamos, um homem que gosta de mulheres e vive como mulher (até fez cirurgia de mudança de sexo), ela (ou seria ainda ele?) é homossexual (pois é uma mulher que gosta de mulher) ou heterossexual (porque nasceu homem e gosta de mulher)? Isso sem contar os intersexuais – conhecidos também como hermafroditas – que nascem sem uma definição clara de gênero, por diversos motivos, seja por ter um pênis quase inexistente ou um clitóris avantajado, ou os assexuados que não querem ou não gostam de nenhum gênero ou os bissexuais que gostam dos dois ou os andróginos que não se identificam com nenhum ou com ambos! Ufa! Espero não ter esquecido de ninguém.

Quis só mostrar como a questão sexual não é nada fácil de se resolver. Essa questão de gênero e sexualidade é realmente bastante complexa. Existem tentativas de esclarecer problemas, como aqueles que sugerem que ao invés de usarmos termos como heterossexual ou homossexual devemos usar termos como androfílico (que gosta de homens) ou ginofílico (que gosta de mulheres). Assim, é possível um transexual ser androfílico ou ginofílico sem o problema de sabermos se ele é homossexual ou heterossexual. Mesmo assim, temos termos diferentes sendo usados de forma aproximada e muita gente pode então confundir gênero com identidade de gênero, sexualdiade com orientação sexual. Mas, eu vejo que temos esses problemas justamente por conta de uma posição social, um discurso cultural muito claro, que chamarei aqui de heterossexismo, ou a ideologia de que a heterossexualidade é a sexualidade prevalente nessas questões de gênero e identidade e todas as outras estão erradas.

O mais interessante é que temos argumentos dos mais variados para defender essa perspectiva, tanto aqueles que dizem que o heterossexismo é o padrão natural para a vida, pois somente podemos ter a continuidade da vida através de relações heterossexuais como aquelas que dizem que a heterossexualidade é o padrão cultural aceito na nossa sociedade ocidental-cristã e por isso devemos respeitá-la. Não vou entrar aqui nos meandros do machismo e feminismo inerentes à questão heterossexista – pois isso abriria um leque de discussões que neste momento não estou preparado para fazer – somente quero alertar para essa perspectiva e ao fato de termos duas possibilidades de interpretação desse ponto.

Somos mais do que um número ou um documentoUma coisa que me incomoda desse tipo de discussão é que parece que a gente esquece um lado e quer só falar do outro. Nessa questão, tem duas coisas essencialmente que me incomodam: a primeira é o fato de que, de certa forma estamos falando de identidade e isso é também uma questão psicológica além de social. Uma identidade não é somente algo dado a nós – como um número dado pelo Estado, mas é também algo intrínseco à consciência, uma diferenciação ou aproximação entre o eu e o outro – mas parece que esse aspecto psicológico é relegado ao esquecimento em nome ou da grande força da cultura ou da grande força da natureza. E criamos aí dois grandes discursos, o naturalista e o culturalista. E no meio disso existe o sujeito, perdido entre essas forças, dependente delas.

O que não percebemos – e isso me incomoda sobremaneira – é que tanto o naturalismo quanto o culturalismo são discursos, e como discursos podem ser utilizados como meios de obtenção de poder. Podemos ter poder com o naturalismo tanto quanto com o culturalismo e ambos podem ser nocivos não pelo conteúdo do discurso, mas sim pela forma de discurso de verdade nas relações de poder, ou seja, discursos que não são questionados e aceitos como verdades absolutas, capazes de transformar a vida de todos nós. O que acontece é que o sujeito, à mercê dessas forças, forma-se conforme ditam os discursos. Então temos de um lado sujeitos culturalistas e e de outro, sujeito naturalistas, ou seja, sujeitos que se submetem às forças culturais e sujeitos que se submetem às forças naturais. Essa lógica aplicada à discussão de gêneros aqui mostra tanto sujeitos que vivem segundo os instintos, segundo os padrões “naturais” de maternidade, paternidade ou genitalidade e inclusive utilizam esses argumentos para dominar aqueles que julgam serem diferente (como os trans e os homos, que não se encaixam nos “padrões naturais”) ou então temos sujeitos que vivem segundo padrões culturais, que aceitam que a genitalidade e a maternidade são construções sociais e como construções ninguém precisa se submeter a regra nenhuma e construir o seu lado do jeito que for, nem que seja um rapaz branco se identificando como uma mulher negra nas redes sociais…

A ideologia anda lado a lado com o poderO que não percebemos disso é que, por trás desses discursos naturalistas e culturalistas, temos ideologias que são defendidas sob esses discursos. Quando falamos em naturalismo, estamos de tabela defendendo o discurso inatista, de que se uma pessoa nasce assim, não há nada que se possa fazer, faz parte da natureza, está escrito nas pedras do DNA e pronto, aceite e siga em frente. Já o discurso culturalista defende o ponto contrário, empirista, que o que vale é a experiência e a aprendizagem, que se alguém é assim é porque ela aprendeu a ser assim ou pior, escolheu ser assim, logo, ela pode mudar para poder se encaixar nos desejos da maioria.

Outra coisa que não percebemos é que AMBOS os discursos são dominadores. Se nascemos assim, somos dominados pela natureza. Se aprendemos a ser assim, somos dominados pela cultura da maioria. Ambos os discursos são usados como foram de repressão, dominação ou força para encaixar o outro. O discurso naturalista quer empurrar goela abaixo dos culturalistas o fato de que pessoas nascem diferente e não há nada que se possa fazer. O discurso culturalista quer empurrar goela abaixo dos naturalistas o fato de que essas noções “naturais” são meras construções sociais e, por conta disso, podem sim ser mudadas. Porém, ambas podem defender que existe um lado correto a ser seguido e o outro deve ser, por consequência, eliminado.

Um exemplo de como isso acontece em outra área são as discussões sobre Saúde Mental. De um lado, temos aqueles que defendem posições naturalistas, dizendo que a doença mental é fruto de desequilíbrios bioquímicos no cérebro e que a solução deve ser o tratamento medicamentoso para equilibrar esses neurotransmissores. Do outro lado, temos os culturalistas que dizem que a doença mental é uma imposição da sociedade, uma forma de repressão sobre aqueles que pensam ou se comportam diferente dos demais e que não existe nenhum marcador biológico que caracterize uma doença mental além da imposição da normalidade social.

O que não percebemos é que, por trás desses argumentos temos as mesmas ideologias. O naturalista defende que a doença mental biológica precisa ser aceita do jeito que é e que a mudança só é possível através do caminho médico. O culturalista defende que a doença mental em si não existe e é só uma imposição cultural de normalização. Porém, existem evidências para os dois lados, tanto para o naturalista quanto para o culturalista. O problema sempre está em olhar para um lado e negar o outro. Enquanto o naturalista nega a cultura, ele não percebe que o controle químico do comportamento responde a uma demanda de controle social, de um comportamento socialmente aceito. Enquanto o culturalista nega a natureza, ele não percebe estamos falando sim de pessoas com problemas reais e que muitas vezes aceitação, psicoterapia e conversa não vai resolver o problema, como podemos ver neste vídeo que descreve como muitos casos de epilepsia são diagnosticados errado como quadros de TDAH:

O triste, e o que realmente me incomoda disso tudo, é que, no meio dessa guerra, esquecemos do sujeito que está no meio disso tudo. E o que o sujeito tem a dizer sobre isso?

Os estudos psicológicos sobre subjetividade, por mais diferentes que sejam (desde a psicanálise naturalista e romântica de Freud ao behaviorismo empirista e cientificista de Skinner) concordam em um aspecto: o sujeito é construído por meio de relações e através das relações entre natureza e cultura. Todos temos um lado cultural e um lado natural. Até Lacan, o mais abstrato dos psicólogos, defensor da linguagem que chegou a dizer que não existe o real e tudo é simbólico ou imaginário, chegou a dizer que a única experiência real que temos é o nascimento do corpo. Ou seja, até ele consegue admitir que o natural e o cultural coexistem de alguma forma (nem que seja o natural como ponto de partida para o cultural).

Então, ao falarmos de identidade, natureza e cultura, estamos falando de subjetividade e o ponto de vista psicológico é o melhor a falar sobre ele pois é o primeiro a admitir a realidade de ambos os lados da conversa e a olhar diretamente para o ponto que está entre esses opostos: o sujeito psicológico. Quero aproveitar para deixar uma citação do psicólogo suíço Carl Jung, que fala exatamente sobre isso no livro Psicologia do Inconsciente (e desculpem pelo tamanho da citação, mas o livro inteiro vale a pena ler, então escolher só esse trecho foi complicado):Psicologia do Inconsciente de Carl Jung

Se formulássemos teoricamente essa realidade, obteríamos a seguinte proposição: na neurose existem duas tendências, que estão em estrita oposição uma à outra, sendo que uma delas é inconsciente. Formulei-a intencionalmente nessa forma genérica, pois quero salientar que o conflito gerador da doença, embora não deixe de ser um fator pessoal, também é um conflito da humanidade inteira, em vias de manifestar-se, porque o desacordo consigo mesmo é um sinal do homem cultural. O neurótico é apenas um caso específico de pessoa humana em conflito consigo mesma, tentando conciliar dentro de si natureza e cultura.

Como é sabido, o processo cultural consiste na repressão progressiva do que há de animal no homem; é um processo de domesticação que não pode ser levado a efeito sem que se insurja a natureza animal, sedenta de liberdade. De tempos em tempos, como que uma onda de embriagues varre a humanidade que vai-se encravando dentro da coação cultural: a Antigüidade experimentou isso na onda de orgias dionisíacas vindas do Oriente, que depois se integraram como um elemento essencial e característico da cultura antiga. Seu espírito contribuiu, em larga escala, para que o ideal estóico de numerosas seitas e escolas filosóficas do último século aC evoluísse para a ascese e o caos politeístico daquele tempo desse origem às religiões ascéticas de Mitra e de Cristo. Uma segunda vaga de embriagues dionisíaca de libertação percorreu a humanidade ocidental durante a Renascença. É difícil fazer um julgamento crítico do tempo em que se vive. A série de questões revolucionárias levantadas na segunda metade do século passado incluía uma “questão sexual”, que suscitou toda uma corrente literária. Nesse “movimento” radicam também os primórdios da psicanálise. Isso influiu consideravelmente na evolução unilateral da sua formação teórica. Ninguém fica completamente imune à influência das correntes contemporâneas. Assim é que a “questão sexual” foi visivelmente relegada para um segundo plano, dada a premência dos problemas políticos e ideológicos. Contudo, isso em nada altera o fato básico de que a natureza instintiva do homem sempre colide com as barreiras culturais. Os nomes vão mudando, mas o fato permanece o mesmo. Hoje em dia, sabe-se também que nem sempre é só a natureza instintiva animal que está em desacordo com a coerção cultural. Muitas vezes, novas idéias são premidas do inconsciente para a luz do dia, entrando em choque com a cultura dominante, tanto quanto os instintos. Atualmente, seria fácil estabelecer uma teoria política da neurose, uma vez que o homem atual está sendo agitado principalmente por paixões políticas, às quais a “questão sexual” constitui apenas um preâmbulo sem maior importância. É possível que ainda se venha a constatar que os abalos políticos não passam de precursores de uma convulsão religiosa, de repercussões muito mais profundas. O neurótico participa, sem ter consciência, das correntes dominantes do seu tempo, que estão configuradas em seu próprio conflito.

A neurose está intimamente entrelaçada com o problema do próprio tempo e representa uma tentativa frustrada do indivíduo de resolver dentro de si um problema universal. A neurose é uma cisão interna. Na maioria das pessoas, essa cisão representa uma ruptura entre o consciente, que desejaria manter-se fiel a seu ideal moral, e o inconsciente, que é atraído por seu ideal imoral (no sentido atual da palavra) e que a consciência tudo faz para desmentir. Esse tipo de pessoa é o daquelas que gostariam de ser mais decentes do que no fundo são. No entanto, o conflito também pode dar-se no sentido inverso: há pessoas aparentemente muito indecorosas e desprovidas de convenções. No fundo, isso não passa de uma atitude pecaminosa, pois nelas o lado moral está no fundo, no inconsciente, da mesma forma que a natureza imoral no homem moral. (Por isso, sempre que possível, os extremos devem ser evitados, porque provocam a suspeita do contrário).

Vale a pena dizer que a primeira edição desse livro é de 1916 e a última edição do autor foi de 1942. Não sei exatamente de quando foi esse trecho pois Jung mesmo modificou muito sua forma de pensar com o tempo, mas vale a pena reconhecer que essa ideia tem ao menos 70 anos, se não mais. Diante disso, vemos que somos todos assim, tentando conciliar natureza e cultura. E percebemos que existe muito mais em consideração do que simplesmente diferentes perspectivas: quando defendemos um lado, seu oposto torna-se inconsciente, ou seja, seu oposto passa a agir sobre mim de tal forma que eu não percebo e muitas vezes até nego, mas ele está lá, nem que seja na necessidade de olhar para ele para construir minha perspectiva através da negação do outro.

Será que somente os químicos conseguem explicar nossas emoções?E é isso que acontece tanto com as perspectivas naturalistas como com as perspectivas culturalistas. Ambas apresentam problemas ao negar os seus opostos. Os naturalistas defendem que o que é natural deve ser respeitado e a cultura é irrelevante (já ouvi, por exemplo, de um naturalista que a “felicidade é somente química cerebral”, por exemplo). Já os culturalistas defendem que tudo é construção social e, por isso, tudo é relativo à cultura. até mesmo a natureza. Só para dar um exemplo de como isso é controverso, quero pegar o caso da homossexualidade para ilustrar o meu ponto (sem querer desmerecer nenhum outro caso).

Existem aqueles naturalistas que são contra a homossexualidade e dizem que o que é natural é a procriação sexuada heterosseuxal e que a homossexualidade não ajuda na procriação e se utilizam da definição científica de reprodução sexuada para defender essa posição, chegando, inclusive a propor uma “cura gay”. Ao mesmo tempo, existem aqueles que demonstram – inclusive com estudos e pesquisas científicas – que existe o comportamento homossexual na natureza de outros animais e, inclusive, mamíferos evolutivamente próximos de nós, e por isso, a homossexualidade é algo natural.

Então, temos argumentos naturais a favor e contra a homossexualidade. Como resolver o impasse? Um caminho é ver qual é a influência cultural sobre essas perspectivas. E é aí que entram os culturalistas. Eles vão mostrar que nossa sociedade, sob a influência da cultura judaico-cristã, sempre foi contra os comportamentos homoafetivos, tidos como imorais e pecaminosos (não à toa Jung usa esses termos em seu livro na citação acima, pois Jung também é “fruto de sua época”). Por isso, a aceitação de argumentos naturalistas contra a homossexualidade reflete justamente a influência cultural da religião sobre o pensamento científico.

Mas, ao mesmo tempo, posso reconhecer que existe uma ideologia libertária, contrária à religião, que quer se utilizar de discursos “pseudo”-científicos para apoiar a homossexualidade naturalista, pois acreditam que essa postura existe somente para se opor à religião, então, é uma crítica à religião que, quer queiramos, quer não, faz parte da vida da grande maioria da população mundial (ao menos no brasil, mais de 80% da população se diz cristã, não só religiosa). É uma mesma perspectiva sendo utilizada para apoiar dois pontos contrários. Como compreender isso?

Quando olhamos o discurso e vemos os argumentos naturalistas, podemos “ler” nas entrelinhas – ou por trás das linhas – que existe uma ideologia, uma ideia principal a ser defendida ou, neste caso, a ser usada como defesa: o inatismo. Em outras palavras, ao se utilizar dessa perspectiva naturalista, ambos os lados estão querendo defender a ideia de que se isso é algo dado para nós, não há nada que possamos fazer a não ser aceitar – ou no pior dos casos, se resignar. Porém, se mostro que determinado ponto não é natural, posso fazer de tudo para tentar defender a natureza e recuperar o padrão perdido, ou seja, se mostro que a homossexualidade (ou a monogamia ou o padrão que quiser colocar aqui) não é natural, podemos usar de forças quaisquer para naturalizar o comportamento anti-natural e consequentemente imoral do sujeito (já que a moralidade também pode ser defendida naturalmente) e propor uma cura para a homossexualidade, por exemplo. Esse é o ponto da coerção do discurso naturalista.

Será que nascemos assim ou nossa cultura nos constrói assim?

Já o discurso culturalista coloca tudo em perspectiva: tudo depende da cultura e como temos várias culturas, nada está escrito em pedra e tudo é mutável. Mutatis mutandis, mudando o que precisa ser mudado – e pode ser mudado – com isso a cultura não é nada fixo e podemos não só reconhecer as amarras ideológicas dos outros como nos libertar dessas amarras e permitir um espaço mais livre, através da mudança do necessário – e, com isso, a permanência do necessário também (ou não?). No nosso exemplo, o culturalismo pode tanto mostrar que a imposição religiosa foi e é danosa a milhares de pessoas que não se encaixam nos padrões heterossexistas normativos e por isso precisamos mudar, como podemos mostrar que esse discurso libertário age justamente contra o discurso conservador da religião e por isso, o discurso libertador precisa ser mudado para se preservar o discurso religioso tradicinal. No final da conversa, não chegamos a conclusão nenhuma e só vimos que o problema é ainda maior do que pensávamos.

E o ponto central, o sujeito, onde fica nisso? Não fica. Ele não aparece. Discutimos sociedade, discursos, gêneros, ideologias, mas esquecemos do sujeito que sofre preconceitos, que não consegue se relacionar com seus familiares, porque pensa diferente, que não consegue emprego, não dá conta de pagar as dívidas: esquecemos do sujeito real no meio do discurso ideal. E o mais interessante de tudo é que esquecemos que esse sujeito é justamente aquele que está discursando!

E esse é o segundo ponto que me incomoda: o problema não é nem cultural nem natural, o problema é humano. O ser humano é construído de todos os lados, de todos os opostos, de tantos contrários quanto formos capazes de conceber. O ser humano é tanto cultural quanto natural e é justamente essa oposição que nos torna “humanos, demasiadamente humanos” (para usar uma expressão de Nietszche, personagem estudado por Jung no livro citado). Quando discutimos cultura ou natureza estamos esquecendo desse lado. E, no final, não importa, pois estaremos falando de dois lados de uma mesma dinâmica e, enquanto um for vivido o outro será negado. E toda oposição é perigosa justamente porque nos leva a seu contrário, algo que Jung chama de enantiodromia.

Será que é possivel negar qualquer coisa assim?E o negacionismo – tanto cultural quanto natural – é perigoso por conta disso. Negar a biologia a ponto de criticarmos uma mulher por se reconhecer assim por ter um útero (e com isso está ignorando os séculos de dominação sobre as mulheres por conta do útero e que elas precisam se livrar dessas amarras de gênero se querem realmente serem livres, ou algo assim) é negar um dos lados da experiência humana. Negar a cultura a ponto de criticarmos um religioso que ignora os fatos naturais da humanidade e que na natureza não vemos divindade alguma se não através dos olhos da cultura é negar também uma outra possibilidade de experiência humana, vivida há muito mais tempo que a científica.

Mas, a final, qual lado está certo? Nenhum e ambos ao mesmo tempo. Nenhum lado está certo pois nenhum tem a resposta definitiva. Posso mostrar, por exemplo que, por mais naturalista que uma pessoa seja, ela não irá aceitar o incesto, o estupro, a poligamia e a pedofilia como práticas sexuais aceitáveis acontecendo com a sua família, por mais que essas sejam práticas sexuais naturais comuns entre mamíferos superiores e inclusive entre os chimpanzés, nossos primos mais próximos evolutivamente. Posso mostrar também que, por mais culturalista que uma pessoa seja, ela não consegue viver sem seu corpo, sem satisfazer suas necessidades básicas de dormir, comer, sonhar – por mais que tentemos modificar nosso corpo através de químicos para operar segundo os padrões culturais, ainda dependemos das forças naturais da biologia e da química para isso.

Não podemos escapar de nenhuma dessas realidades pois ambas estão certas e ambas precisam ser vividas. Ambas as perspectivas são discursos que podem e são usados como forma de controle e submissão do outro. Mas ambas são realidades humanas intrínsecas que constroem nossa subjetividade, constroem quem nós somos, pois somos fruto da natureza e da cultura. Enquanto vivermos valorizando um lado em detrimento do outro, viveremos um padrão neurótico. Mas, segundo Freud, melhor ser neurótico do que ser psicótico e viver sob o caos total, certo?

Essas oposições não poderão ser solucionadas a não ser que encontremos um ponto onde ambos os lados possam ser vividos. E esse ponto é o ser humano. Precisamos reconhecer que somos os dois lados e que ambos os lados, como discursos culturalmente construídos, podem e são usados como forma de controle e poder. Temos que reconhecer que ambos os lados também são reais e que precisamos deles para sobreviver. Identidade sexual, opção sexual ou sexualidade, seja lá como queiramos chamar, não é nem natural nem cultural: é os dois, pois identidade, opção e sexualidade é algo intrinsecamente humano. Por isso mesmo Jung reconhece que em todo humano possuímos nosso aspecto contra-sexual, ou seja, todo homem tem seu lado feminino (que ele chama de Anima) e toda mulher, seu lado masculino (que ele chama de Animus), relevantes ao processo de individuação.

Jung, Junguianos e a Homossexualidade, de Robert HopckePorém, podemos olhar também essa teoria sob o olhar natural e cultural apontado aqui e perguntar: e no caso dos homosseuxais, transexuais, intersexuais e asexuais, como fica essa questão? Muitos psicólogos junguianos se fazem essa mesma pergunta e tentam trabalhar com a teoria para dar conta do empasse. Uma resposta aparentemente satisfatória é dada por Robert Hopcke, analista junguiano e homossexual que fez um estudo aprofundado da teoria junguiana do tema no livro Jung, Junguianos e a Homossexualidade, onde ele apresenta uma hipótese interessante da identidade sexual relacionada não só aos aspectos contra-seuxais (que ele não nega), mas também ao aspécto da totalidade, chamada por Jung de Self.

Para ele, os heterossexuais se relacionam com o sexo oposto pois projetam seu aspecto contra-sexual neles – por exemplo, homens se apaixonam por mulheres pois elas recebem a projeção de sua Anima, então esses homens estão, a princípio, se apaixonando por seu lado feminino inconsciente. Já os homossexuais se relacionam com o aspecto da totalidade da personalidade ao projetar em outra pessoa do mesmo sexo o Self, não o aspecto contra-sexual. Então, para Hopcke, a questão da preferência sexual depende de qual padrão projetamos no outro. Porém, eu não me sinto satisfeito com essa abordagem, pois ela não dá conta dos transexuais, dos intersexuais e dos assexuais, somente da relação com o outro, não consigo mesmo. Para Hopcke, ainda somos definidos como homens e mulheres dependendo do gênero biológico que nascemos.

Anima - Anatomia de uma noção personificada, de James HillmanEu já prefiro outra abordagem que podemos tirar do livro Anima – anatomia de uma noção personificada, de James Hillman, onde o autor analisa a obra junguiana e conclui algo completamente diferente que os outros psicólogos junguianos: que tanto homens quanto mulheres possuem padrões masculinos e femininos de Anima e Animus, ou seja, esses padrões não são definidos pelo gênero. O que ele defende é que os arquétipos são universais e, por isso, não podem ser limitados pelo órgão genital. Dessa forma, homens não possuem uma feminilidade inconsciente chamada Anima e nem mulheres, uma masculinidade inconsciente, o Animus. Anima e Animus seriam padrões arquetípicos universais perceptíveis através dos mitos e padrões culturais como Feminino e Masculino. Seria como reconhecer que existe um Yin e um Yang na natureza humana geral, independente do que você tem no meio das pernas ou das letras do seu DNA. Se você é humano – seja homem, mulher, homo, hetero, trans, cis, a, inter ou o que quiser – você sofre dos mesmos padrões humanos.

Outra coisa que ele defende é que nossa consciência individual é construída através desse padrão universal humano. Ou seja, todos nós nos construímos seguindo esse padrão. Ele vai dizer que o padrão masculino é o padrão da identidade, da individualidade, da unicidade – tanto é que o monoteísmo é basicamente masculino, o Deus único é homem porque o padrão masculino é o da unicidade. Enquanto isso, o padrão feminino é da relação, da multiplicidade e da totalidade, opondo-se ao padrão masculino. Então, psicologicamente, o padrão do Animus serve como referência para a construção de um complexo pessoal da identidade, da individualidade e da unicidade: o Ego. Enquanto isso, a Anima serve como referência para a construção de um complexo da relaçao, da multiplicidade e da totalidade: a psique. O Ego é o centro e a Psique, a circunferência. É somente através de ambos que podemos alcançar a plenitude do Self, que é tanto centro quanto circunferência.

Isso dá conta da teoria da identidade, pois podemos tanto nos identificar com os nossos egos e assim sermos mais masculinos, tendo nosso lado feminino inconsciente, projetando no outro esse aspecto, ou podemos nos identificar com nossas psiques, sendo mais femininos, relacionais e múltiplos, projetando no outro nosso lado masculino inconsciente. Assim, a identidade de gênero é respeitada não por aquilo que nos é dado – seja ele natureza ou cultura -, mas por aquilo que fazemos com o que nos é dado, ou seja, nossa identidade pessoal. Segundo essa perspectiva, somos ao mesmo tempo fruto do nosso ambiente, do nosso destino natural ou cultural como também fruto das nossas escolhas e identidades, dos nossos acasos e incertezas.

Como lidar com as nossas individualidades em meio a tantas igualdades?É por isso que, na discussão entre natureza e cultura eu sempre fico do lado psicológico, que agrega natureza e cultura. Não quero defender identidades de gênero ou orientações sexuais: quero apenas reforçar que estamos falando de identidades e de orientações humanas. A sexualidade humana é tão variada quanto a própria humanidade. Quando vemos as multiplicidades psicológicas, qualquer que seja a definição externa – seja ela natural ou cultural – que se imponha, acaba sendo uma violência contra o indivíduo. E se olharmos para essa individualidade, única e singular, podemos aprender muito mais sobre quem nós somos do que quando tentamos padronizar todas as singularidades da mesma forma.

Comments (3)

  1. […] grande problema é que esses papéis sociais e familiares são já predefinidos pelo gênero da pessoa, o que acaba complicando quando a sociedade encara uma configuração “alternativa”, […]

  2. […] como ligações e mensagens, conseguem integrar essa comunidade em várias dimensões, como as relações de gênero e e de gerações, na apresentação de si e até na participação religiosa da comunidade. Esse […]

  3. […] humano em suas mais variadas formas. Porém, já escrevi aqui a respeito do tema – ao falar sobre sexualidade – defendendo não um lado biológico ou cultural, mas sim uma perspectiva humana e subjetiva. […]

Deixe um comentário