Direitos Iguais e a Transformação da Família


Direitos matrimoniais iguais é um movimento de escala mundial.Recentemente li um argumento bem interessante sobre o problema do casamento gay ou da “igualdade de direitos” para os homossexuais que realmente me fez pensar que ele é de fato um risco para a família tradicional. Infelizmente, não me lembro a fonte, mas tentarei reproduzir aqui as minhas reflexões a respeito desse argumento.

Durante muito tempo construímos uma imagem de sociedade tal que inclui não somente a visão da “família nuclear” pai-mãe-filho, mas também papéis sociais para pais e mães e filhos. Cada um tem sua responsabilidade não só na família, mas também na sociedade. Quando homossexuais exigem direito de casamento, eles exigem poder participar desses papéis sociais permitidos para as famílias heterossexuais. O problema é que eles não se encaixam. Se a família nuclear é pai-mãe-filho, quando dois homens se casam, teremos o que, pai-pai-filho, teremos uma família sem mãe? O mesmo quando duas mulheres se casam, teremos uma família com duas mães e sem pai? Ou será que uma dessas pessoas assumirá o papel oposto? 

Uma família nuclear tradicional seria formada por pai, mãe e seus filhos.Existe um discurso social construído sobre essa visão tradicional de “família nuclear” que diz que mesmo que uma criança cresça sem uma figura parental na sua família próxima, ainda é possível viver normalmente pois a sociedade supre essa “falta” com figuras parentais substitutas, como parentes, vizinhos ou até mesmo instituições ou profissionais como médicos, policiais e professores que representam esses papéis na vida da criança. Mas isso só se justifica por conta da visão tradicional de família nuclear.

Os relacionamentos homoafetivos estão desconstruindo isso, pois estão nos mostrando que é possível uma criança crescer não só sem um desses papéis tradicionais, mas também com mais de uma pessoa próxima exercendo o mesmo papel tradicional. Famílias com dois pais ou duas mães são tão possíveis quanto são as famílias monoparentais de pais divorciados, solteiros ou viúvos, sem a necessidade de um papel auxiliar.

Mas, se não bastasse, essa reconfiguração da estrutura familiar está também mostrando que os papéis sociais de homem e mulher são frágeis e precisam mudar. A final, em uma casa com dois pais, quem é que lava a roupa e quem é que sai pra trabalhar? Em uma casa com duas mães, quem é que prepara a janta e quem é que assiste ao futebol?

Em uma família tradicional, o homem tem o seu papel definido e a mulher também. Não se questiona isso e isso é confortável para todos. Os homens machistas gostam de serem servidos pelas mulheres submissas, enquanto as mulheres machistas gostam de serem protegidas por seus homens dominantes. Entendam: não há nada de errado em ter uma família com essa configuração tradicional, muito pelo contrário – contanto que essa construção seja de mutua e livre escolha e não um ato forçado por normas e tradições sociais. O problema é quando essa configuração está tão estabelecida que fica praticamente impossível pensarmos em novas formas de família e de papéis sociais a ponto de nos sentirmos realmente ameaçados.

As famílias modernas possuem muitas configurações diferentesO grande problema é que esses papéis sociais e familiares são já predefinidos pelo gênero da pessoa, o que acaba complicando quando a sociedade encara uma configuração “alternativa”, como dois pais ou duas mães – ou quem sabe até mesmo três pais, duas mães e um pai ou a configuração múltipla poliamorosa que acontecer – ou no caso de transexuais que queiram constituir famílias… Essas novas configurações familiares de fato colocam em risco os papéis de gênero da família tradicional, que já são ameaçadas de outras formas por conta das novas configurações de pais solteiros ou até mesmo de novas famílias de pais divorciados.

Pois, se formos vizinhos de uma família homossexual, onde um homem fica em casa cuidando dos filhos e fazendo faxina enquanto o outro sai pra trabalhar, as esposas pode começar a ter ideias estranhas de que seus maridos também poderão trabalhar em casa e cuidar dos filhos, como elas fazem – a final, o marido do vizinho faz isso. Se tivermos um casal de lésbicas como vizinhas e uma delas adorar assistir ao futebol com os amigos, os maridos ficarão com medo de que suas esposas queiram também chamar seus amigos para assistir ao futebol enquanto ele não está em casa, e isso é inaceitável… Pois, para poder manter a família tradicional é necessário manter uma relação de desigualdade social.

A igualdade de direitos matrimoniais para os homossexuais coloca em risco a família tradicional justamente porque a família tradicional nunca teve essa igualdade de direitos socialmente aceita. Até pouco tempo, somente os homens podiam pedir divórcio, por exemplo, e até hoje é amplamente aceito que a mãe é quem deve ter a guarda do filho (acompanhado do discurso tradicional que um filho precisa da presença de sua mãe e, consequentemente, o pai é dispensável).

O que está sendo ameaçado é a desigualdade no casamento tradicional.

Mas, no caso dos homossexuais, se eles alcançarem o status de igualdade de direitos matrimoniais, essas configurações nas famílias tradicionais vão precisar mudar para que as novas famílias façam sentido! A final, no caso de um divórcio de dois homens, quem tem a guarda da criança, se são dois pais? E no caso de duas mulheres, quem será considerada a mãe do casal, a mãe biológica, caso exista uma? Seria possível uma família tradicional funcionar com a mulher trabalhando fora e ganhando mais do que um homem ou o marido trabalhando em casa, fazendo faxina, lavando roupa e cuidado dos filhos? Seria possível presenciarmos uma cena onde a esposa está no sofá assistindo ao futebol enquanto o marido está na cozinha lavando a roupa e cuidando das crianças? São tantos os riscos de transformação, que os críticos dos direitos iguais de fato se sentem ameaçados e com razão.

Permitir que homossexuais possam ter os mesmos direitos familiares que os heterossexuais ameaça os papéis de gênero socialmente construídos para as famílias tradicionais. E isso é fato. O problema é que isso não é necessariamente algo ruim. Talvez nossas famílias já estejam há muito tempo em uma situação de desigualdade, onde os homens têm mais direitos e as mulheres mais obrigações. Talvez já seja hora de mudarmos isso. A igualdade matrimonial é um caminho para começarmos a repensar os nossos papéis tradicionais e nossas relações desiguais nos nossos casamentos tradicionais. Porque, sinceramente, essa tradição de desigualdade realmente não é lá muito agradável para ninguém e precisa urgentemente ser revista.

Porque se uma coisa que as novas configurações familiares estão mostrando é que nossas crianças não precisam de pai e mãe de qualquer forma, mas sim de uma família amorosa e afetiva, independente de quem faça parte dela. Nessas horas vale muito mais uma família com dois pais ou duas mães que se amem, do que uma família tradicional desregulada, sem afeto nem amor e que tenha um pai e uma mãe que se odeiem. Vale muito mais uma relação de afetividade e igualdade onde os papéis não são tão tradicionais do que papéis sociais bem definidos, construídos sobre uma base de desigualdade.

ATUALIZAÇÃO: Recentemente encontrei algumas fontes que descrevem a transformação da família brasileira e alguns dados que me chamaram a atenção é a diminuição das novas famílias, com menos ou até sem filhos, a diminuição do número de casais casados e o aumento do número de casais divorciados, a condição de escolha de parceiros da mesma cor como sendo predominantes, boa parte dos filhos de um casal é biologicamente somente de um dos pais e o aumento de famílias onde a mulher é a chefe do lar. Essas transformações acontecem já independente da aceitação ou não de casais homossexuais.

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