Viciados em Celulares


Selfie no Oscar 2014Celulares e Smartphones já fazem parte do cotidiano do brasileiro. Não sabia da profundidade dessa realidade até entrar em contato com o trabalho de uma professora durante meu mestrado em comunicação e linguagens que havia feito sua pesquisa de doutorado justamente sobre isso. A professora doutora Sandra Rubia da Silva escreveu a tese entitulada Estar no tempo, estar no mundo: a vida social dos telefones celulares em um grupo popular, onde ela explora o cotidiano de uma comunidade popular e sua relação com aparelhos de telefone celular.

Ela nos mostra uma realidade bem interessante que, mesmo uma comunidade onde seus habitantes não possuem tanto poder aquisitivo, o aparelho celular – geralmente os mais simples – já fazem parte de seu cotidiano. Os aparelhos mais modernos nos permitem realizar várias atividades complexas, comparáveis a muitos computadores pessoais, porém, mesmo os mais simples com recursos limitados como ligações e mensagens, conseguem integrar essa comunidade em várias dimensões, como as relações de gênero e e de gerações, na apresentação de si e até na participação religiosa da comunidade. Esse último, me recordo, os membros de uma igreja local compartilhavam diariamente por mensagens versículos a outros membros, como forma de expandir sua vivência religiosa.

Mas o uso de celulares vai mais além. Recentemente, na última apresentação do Oscar, a apresentadora Ellen DeGeneres conseguiu revolucionar a apresentação e levá-la a um novo patamar utilizando um smartphone. Com ele ela twittou sobre a apresentação, fez uma ligação para pedir uma pizza e tirou fotos dos participantes. Com essas ações, ela não só aproximou o telespectador que estava acompanhando suas redes sociais mas também mostrou o lado humano dos atores e atrizes da platéia. O celular conseguiu integrar várias realidade em um grande evento.

Selfie tirado no programa Painel RPCPorém,  uso do celular acaba chamando a atenção dos psicólogos somente quando seu uso se transforma em abuso. Alguns chegam a dizer que são viciados ou dependentes desse aparelho. Inclusive, esse foi o tema de um programa de televisão local, o Painel RPC, do qual participei e foi ao ar hoje de manhã. Nele, pudemos ver o depoimento de alguns jovens sobre seu uso extremo do celular, como nunca o deixam de lado e como podem até esquecer suas carteiras mas não se esquecem dos aparelhos. De certa forma, algumas pessoas estão deixando de se relacionar com outras pessoas para se relacionar com os celulares, acessando redes sociais, jogos, músicas, fotos e outros aplicativos e arquivos pessoais. E isso, muitos dizem que é o risco desses aparelhos.

Contudo, se culparmos os aparelhos nunca veremos qual é o verdadeiro problema. Os celulares não passam de ferramentas e, como ferramentas, são incapazes de gerar todo esse mal do qual são culpados. Uma caneta pode tanto escrever um poema e criar beleza no mundo quanto assinar uma declaração de guerra e trazer tragédias. O problema não é da caneta como tampoco é do celular. E isso me faz lembrar de um experimento clássico que demonstra que o problema da dependência de drogas não é do uso das drogas, mas sim do ambiente onde o usuário se encontra.

O experimento de Ratolândia modificou a forma como compreendemos a dependênciaEsse experimento foi feito com ratos. Na década de 50 e 60, experimentos com ratos demonstravam que a mera exposição à droga era suficiente para tornar ratos saudáveis em ratos dependentes. E essa conclusão virou a regra básica para como lidar com as drogas: a mera exposição a elas faria com que uma pessoa pudesse virar dependente. Porém, revisando o experimento anos mais tarde, os pesquisadores conseguiram demonstrar que o problema não estava nem nos ratos ou nas drogas: o problema era basicamente social. Os ratos do experimento inicial viviam em gaiolas fechadas, enquanto outros ratos que viviam em um comunidade social mais ampla – chamada no experimento de Ratolândia – não apresentavam tanto problema assim com as drogas, por mais que elas estivessem amplamente disponíveis.

Da mesma forma, a pesquisa de Silva mostrou que o celular pode fortalecer o vínculo da comunidade, mas casos isolados nos mostram que pessoas podem se fechar nesse aparelho. Então, no caso da dependência dos celulares, o problema parece ser muito mais social do que do aparelho.

Quando uma pessoa se fecha em seu mundo virtual através do celular – ou de um computador – podemos nos perguntar como está o ambiente social dessa pessoa que torna a relação virtual mais atraente do que a presencial. Mas isso não reflete somente a situação presente, mas também toda uma construção social e histórica. Nossa sociedade vêm se construindo cada vez mais em torno do acesso à informação imediata e o celular pessoal é uma resposta a isso, pois permite que individualmente tenhamos o acesso à informação global que precisamos.

O problema surge quando essa realidade se torna melhor do que a realidade fora do celular. Por isso defendo que, se vemos um problema assim, devemos olhar ao nosso redor. Um aparelho celular pode ser uma ferramenta excelente para praticamente qualquer coisa que queiramos hoje que envolva tecnologia e acesso à informação. Mas isso não significa que nossos valores sociais e pessoais devam ficar em segundo plano. Não temos viciados ou dependentes de celular: temos sim uma sociedade carente de contato real que joga seus cidadãos para buscar uma realidade melhor na virtualidade.

E caso você queira ver na íntegra minha participação no Painel RPC deste sábado, você pode conferir os vídeos nos links abaixo:

Comments (2)

  1. Humberto

    Muito bom! O risco da vitualização da relidade já existe desde a invenção da impressa e até antes, desde a invenção da linguagem…

  2. […] Alguns dizem que é por conta das políticas sociais do atual governo. Outras, que é por conta da facilidade de comunicação nos tempos atuais, que permite maior visibilidade daqueles que antes estavam escondidos. Eu acredito mais nessa […]

Deixe um comentário