A Psicologia Analítica e o Tratamento da Drogadição


Como lidar com as drogas, seus usuários e o mundo a sua volta?Recebi um email de um ex-aluno me fazendo uma pergunta muito bacana que gostaria de compartilhar aqui no blog – não só pelo interesse acadêmico da questão, mas também para que os leitores possam perceber que existem várias alternativas aos tratamentos dos problemas psicossociais. Reproduzo abaixo o email, com algumas ligeiras alterações:

Olá, professor,

Sou um ex aluno seu e trabalho com dependentes químicos. Gostaria de saber qual  o olhar da Psicologia Analítica para o ser humano dependente químico, a estrategia terapêutica, etc. Por exemplo, a Psicologia Comportamental vai olhar  as contingencias do sujeito, fazendo um analise do seu comportamento operante, quais os reforçadores que mantêm ou estingue comportamentos, etc… Em relação ao  terapeuta junguiano, o que ele deve olhar, como seria sua estrategia terapêutica?

Aprendi muito com você em sala de aula, imagino q vai poder me ajudar nessa também…

Abraços!

Então vamos ao ponto do email: ele quer saber quais são as estratégias terapêuticas da psicologia analítica no tratamento da drogadição. E para poder responder a essa questão, precisamos compreender dois pontos diferentes – que em si se multiplicam em vários outros: a postura do terapeuta e a dinâmica da drogadição. Então, vamos tratar primeiro do primeiro ponto, a postura do terapeuta.

Jung propôs que o terapeuta deve ser a medida de seu métodoJung, em diversos momentos e de diferentes formas, diz que não existe um método psicoterapêutico: o terapeuta é seu próprio método. O que ele quer dizer com isso? Basicamente que cada pessoa vai encontrar seu caminho de praticar a psicoterapia. E por que isso? Simplesmente porque a eficácia desse processo não é de aplicação de métodos, mas sim da força da relação feita entre as pessoas. Em outras palavras, não importa qual técnica ou método é utilizado, contanto que isso seja feito dentro de uma relação psicoterapêutica de confiança. O foco é sempre a relação.

Isso quer dizer que, de um ponto de vista junguiano, não iremos nos focar tanto assim em técnicas ou estratégias terapêuticas que vão além da formação da relação entre paciente e terapeuta. Existem técnicas usadas e muito conhecidas, como a Caixa de Areia, o Diário de Sonhos ou até a Imaginação Ativa – esta última, uma das minhas favoritas. Porém, nenhuma dessas técnicas tem como objetivo eliminar a necessidade da relação, muito pelo contrário: essas técnicas, quando bem utilizadas, servem justamente para fortalecer a relação, facilitando a compreensão sobre o paciente, ampliando a confiança sobre o terapeuta, criando laços e vínculos mais fortes, etc.

Qual técnica usar e qual estratégia seguir depende de cada psicoterapeuta. E diria mais: depende cada relação que o psicoterapeuta tem com seus vários pacientes. Posso dizer que, na minha prática, por mais que eu tivesse uma postura geral que fala muito sobre mim, para cada paciente diferente eu tinha uma relação e uma estratégia diferente. Com alguns, usava diário de sonho – algo que com outros nem sugeria – e com outros falava mais do que ouvia. Tudo vai depender da relação e da intuição sobre essa relação. Até o momento, desconheço técnicas objetivas que digam qual deva ser o melhor caminho, por isso Jung sugeriu que cada um seguisse o caminho que para si fosse melhor e que percebesse que seria melhor para o paciente. Por isso reconheço quando eu não consigo lidar um algum problema e encaminho para algum colega.

A psicoterapia deve focar no paciente, não em seu problemaDiante disso, um psicoterapeuta junguiano não irá tratar um paciente diferente dependendo de seu diagnóstico ou condição, mas irá tratá-lo por conta de diferenças individuais. Um exemplo: um terapeuta está atendendo um paciente e um tempo depois ele começa – por qualquer motivo – a usar drogas e isso torna-se um problema sério. A relação terapêutica essencialmente não mudará diante do novo diagnóstico ou o terapeuta não passará a tratar o paciente de forma diferente por conta da nova condição. A relação continua e deve continuar. Por isso uma terapia junguiana dificilmente será igual à outra. Ao mesmo tempo, o mesmo terapeuta tratado de dois casos diferentes com o mesmo diagnóstico irá fatalmente ter dois modos diferentes de tratar, não porque ele está tratando de diagnósticos ou condições diferentes, mas sim porque ele está tratando de pessoas diferentes.

Compreendido isso, podemos olhar para a drogadição como uma condição a ser trabalhada. Para começo de conversa, dentro de uma psicoterapia junguiana tratamos as pessoas, não suas condições ou transtornos. Então, não tratamos um drogadito, muito menos a drogadição: tratamos pessoas que podem – ou não – sofrer com a drogadição. Isso porque na grande maioria das vezes a drogadição em si não será a fonte de sofrimento da pessoa, mas seu sofrimento virá das consequências da drogadição.

Usar drogas proporciona prazer. A abstinência, a falta da droga, os problemas sociais e familiares decorrentes do uso das drogas, os crimes relacionados e tudo mais associado ao uso da droga provoca sofrimento e são os reais problemas do uso de drogas. Nesse sentido, não temos porque focar no uso da droga em si, mas sim na vida geral da pessoa que a leva a usar as drogas. Eliminar o uso de drogas pensando que isso eliminará as consequências danosas, de fato elimina a função da droga na vida da pessoa – que deve ser a primeira coisa a se compreender.

O ambiente do drogadicto fala mais sobre seu problema do que a droga que ele usa.A grande pergunta deve ser: “Pra quê?” Essa pergunta irá nos mostrar não as causas do uso da droga, mas sim as consequências. Ou seja, começamos a perceber que existem problemas na vida da pessoa que provocam sofrimento e que o prazer da droga consegue aliviar – mesmo que provisória, ilusória ou incompletamente. Mas, naquele momento, essa é a forma que o sujeito encontrou para dar conta desses problemas.

Por isso é que é tão eficaz as terapias religiosas, ou seja, fazer com que um drogadito passe a ser religioso: na prática, estaremos trocando uma droga que proporciona prazer e serve para ignorar ou lidar com seus problemas por uma prática que gera prazer e serve para ignorar ou lidar com seus problemas. O risco é que o vício se transforme em fanatismo. Porém, esse caminho não resolve o problema da pessoa, somente troca uma maneira de lidar com seus problemas por outra.

O melhor caminho é, de fato, enfrentar os problemas que levaram a pessoa à drogadição. Porém, isso deve ser feito com muito cuidado, pois da primeira vez que a pessoa tentou enfrentar esses problemas, ele não conseguiu e acabou usando drogas por conta disso. Por isso, esse processo deve ser acompanhado por um profissional ou com um apoio psicossocial muito grande. E isso é corroborado por pesquisas divulgadas recentemente que dizem que o problema das drogas não está nas drogas em si, mas sim em questões ambientes que, se forem resolvidas, o uso das drogas tende a diminuir. Discuto brevemente essa pesquisa neste artigo sobre vício de celular.

A vida pode continuar depois dos vários problemas...A postura junguiana segue essa mesma tendência: acompanhar a pessoa, não a dependência, e tentar fazer com que sua qualidade de vida geral melhore, nem que seja sua percepção da própria vida. Por mais que não consigamos mudar a vida do paciente, podemos ajudá-lo a perceber outros caminhos e outras possibilidades – principalmente se partirmos para os caminhos mais básicos do ser humano: a experiência imediata com o mundo, a experiência estética. Por isso é tão usada técnicas de arteterapia, pois diante da impossibilidade de mudarmos o mundo, cabe a possibilidade de mudarmos a forma como vemos o mundo.

E é isso que sempre repito: “o problema não está com o quê, mas sim com o como”. Ou seja, o problema não está na drogadição ou na vida do drogadito, mas sim na forma como essa mesma pessoa lida com a droga ou com a forma como ela percebe sua vida e seus problemas. O tratamento da pessoa com drogadição é um trabalho da relação terapêutica, da criação de vínculo e a possibilidade de transformar a forma como a pessoa vive – esperando que isso altere os padrões de vida que levam a pessoa a usar drogas. E por mais que ela não pare de usar drogas por qualquer motivo, provavelmente a necessidade psicológica de usá-las pode diminuir.

Espero que essa breve reflexão tenha ajudado a esse meu aluno e outros curiosos. Não sei se fui claro o suficiente, então, se tiverem mais perguntas, podem perguntar nos comentários! Se der, respondo diretamente aqui ou então crio um novo artigo com a resposta. Obrigado!

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