A Menina e os Sapos, ou O que os olhos não veem, o coração sente.


Era uma vez uma menina...Era uma vez uma menina. Todos diziam que ela precisava encontrar seu príncipe encantado. Ela então leu que alguns sapos, quando beijados, tornam-se príncipes encantados. Ela então resolveu procurar esses sapos.

Mas ao se aproximar dos batráquios, ela começou a observá-los, pois queria saber a melhor forma de convencer a um deles a se transformar em seu príncipe. Ela ficou durante um bom tempo à distância, só observando. E quanto mais observava, mais gostava dos sapos. Gostava tanto que não queria que eles se transformassem em príncipes. A menina queria que os sapos fossem o que são: sapos.

Ao ver os sapos, ela pode aceitá-los pelo que são: sapos.Ela então ficou muito próxima de um sapo especial. Ele tinha a pele verde enrugada e ganhou o nome de Verruga, por conta de uma grande verruga que ele tinha na cabeça. Verruga gostava especialmente de carinhos em sua cabeça enrugada.

Porém, ao tentar mostrar para as pessoas que agora ela era feliz com seu sapo enrugado, ninguém queria se aproximar. Ela foi rodeada por palavras baixas, dizendo que o sapo era feio, que ela era uma menina linda e não cabia à menina andar com um sapo: ela precisava de um príncipe.

Mas ninguém quis saber sua opinião. Ninguém quis saber oque ela achava do sapo. Ninguém quis saber se ela queria um príncipe. E ninguém quis conhecer Verruga. Ninguém se interessou pela vida da garota.

A menina gostava muito dos sapos e não se importava com a opinião dos outros.O que todos queriam é que a garota vivesse o desejo deles. Cada um tinha uma opinião de como a garota deveria viver, das escolhas que deveria fazer, do que seria certo e errado para ela cometer. Mas essas opiniões não eram construídas levando em consideração a vida da menina, mas sim a vida, as escolhas e as experiências de cada um. Ninguém queria reconhecer a felicidade que a menina encontrara com os sapos e, em especial, com Verruga. O que todos queriam é que ela tivesse a felicidade que eles tiveram ou não conseguiram com seus príncipes.

A menina conseguiu, a princípio, ouvir as outras pessoas, tanto é que foi procurar nos sapos o tal príncipe prometido pelos outros. Porém, ela viu que o príncipe não era necessário, pois bastava a amizade dos sapos. Ela conseguiu ver que, ao observar e aceitar o sapo, ele passava a ser completo em si mesmo. Ele não precisava virar príncipe: ele não precisava ser alguém que correspondia ao desejo de outra pessoa. O sapo foi aceito pela menina como ele era.

A menina gostava dos sapos e ninguém conseguia entender...Porém, enquanto a menina fazia isso, todo o nojo que as outras pessoas tinham pelo sapo por não ser príncipe, passou a ser da menina. Agora, ela era errada, ela precisava mudar: ela precisava se adequar ao desejo dos outros para poder ser aceita. Se ela quisesse continuar com os sapos, eles precisariam estar ocultos, praticamente engolidos da vista dos outros.

Mas ela nunca entendeu como foi possível ela conseguir aceitar o sapo por quem ele era mas ninguém consegue aceitá-la por quem ela é. Ela nunca conseguiu entender como é possível ela aceitar sem julgamento, enquanto os outros só julgam sem aceitação.

Só depois de muito tempo e de muitos corações partidos foi que a menina – agora mulher – percebeu que a aceitação não depende de justificativas, julgamentos e razões. A aceitação depende da vivência e da observação. Quando olhamos para o outro com os olhos do nosso desejo, não conseguimos aceita-lo. Para aceitá-lo, precisamos deixar nosso desejo de lado e compreender a vivência do outro. Se não conseguimos observar, podemos perguntar e simplesmente ouvir. Ouvir sem julgar, sem responder, sem dizer o que é certo ou errado, sem dizer o que é bom ou mau daquilo que o outro fez: esse é o caminho para a aceitação. Dizer que você quer o outro mas o outro precisa mudar, precisa fazer diferente e mascarar isso como “cuidado”, “amor” ou “preocupação” é não aceitar. A final, se realmente se interessassem por ela, ao invés de dizer que ela está fazendo errado ao andar com tantos sapos, as pessoas poderiam perguntar o que ela vê nos sapos e quem sabe elas poderiam aprender a gostar dos bichos como ela gosta.

A mulher cresceu e aprendeu a aceitar os sapos e a rejeitar as críticas e julgamentos.A mulher sofreu enquanto crescia, pois ela não gostava do afastamento que ela percebera que os outros provocavam. Alguns inclusive se aproximavam, mas para depois criticá-la e julgá-la por não estar satisfazendo os desejos deles. Por mais que ela tentasse, essas críticas eram mais fortes do que grandes muros e cercas elétricas. Cada conselho sobre sua vida era como uma facada em seu coração, pois esses conselhos ignoravam o que ela estava fazendo, seus motivos e suas amizades com os sapos. Cada sugestão de como ela deveria encontrar um príncipe era mais forte do que um soco no estômago, pois ninguém podia aceitar o fato de ela não querer príncipes e estar satisfeita com sapos.

Mas agora a mulher vive rodeada de sapos que ela aprendeu a amar e percebeu que é muito mais satisfatório isso do que viver rodeada de críticos que nunca se interessaram por quem ela era. A final, o que os olhos dos outros não podiam ver, o coração da mulher conseguia sentir, seja isso o amor pelos sapos ou o sofrimento vindo das críticas e julgamentos. E com isso ela conseguiu fazer a sua escolha: ser amiga de vários sapos e viver muito feliz sem príncipes e, principalmente, longe do julgamento cego dos outros.

Comments (6)

  1. Texto incrível. Aprendi muito sobre isso na cadeira de Antropologia jurídica. Aceitar o diferente, entender o outro… Só que são livros muito “cascudos”. Esse texto, cheio de poesia e simplicidade pode ser uma ferramente melhor para transmitir tolerância. Um abraço.

  2. Adauto Souza

    Muito bom o texto….

  3. Humberto

    Consideremos se não é melhor sermos sapos e gostarmos sapólatras que buscarmos e procurarmos princesas animahdas…

  4. Para algumas pessoas, só a maturidade adquirida ao atravessar os anos é que trará essa visão e esse entendimento.

  5. Milene Farias

    Pablo seus texto são incríveis…Parabéns. Mas esse pessoalmente me tocou bastante, pelo simples fato de ter sempre a visão diferente das pessoas para fatos polêmicos. isso traz muitos afastamentos e julgamentos mas também muita aprendizagem e amadurecimento para mim. E como a “menina e os sapos”, hoje sei viver feliz com essa minha visão longe dos julgamentos cegos dos outros. Muito obrigada pelo texto.

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