Determinismo Biológico, Determinismo Social e o Poker


O poker será utilizado como metáfora, para compreendermos a relação entre biologia e sociedadeSemana passada participei de um Anticast sobre Determinismo Biológico X Determinismo Social onde conversei com um biólogo e um médico que defendiam o determinismo biológico e eu e uma arquiteta – junto com o host, um designer – que defendíamos o determinsimo social. Logo no começo da conversa eu disse que, para provocar mais, iria defender argumentos sobre o determinismo social, apesar de já ter defendido um ponto biológico sobre o comportamento humano logo no início. Devo dizer que meus argumentos não foram bem recebidos, talvez por não serem bem compreendidos. Mas também, para esclarecer, não concordo com a visão dicotomizada que apresentei – por mais que reconheça a necessidade de apreender esses argumentos para melhorarmos as nossas críticas.

A disputa entre essas duas visões é, de fato, complexa e controversa. Não existe nenhuma forma de determinarmos com clareza onde termina a influência da biologia e onde começa a da sociedade quando falamos sobre comportamento humano em suas mais variadas formas. Porém, já escrevi aqui a respeito do tema – ao falar sobre sexualidade – defendendo não um lado biológico ou cultural, mas sim uma perspectiva humana e subjetiva. Diante do debate feito no Anticast (que recomendo que ouçam, se possível), gostaria de retomar a discussão, mas desta vez, gostaria de fazê-lo através de uma metáfora, o poker. 

A Metáfora do Poker

Poker, para quem não conhece, é um jogo de baralho que possui várias regras e modalidades diferentes. Porém, todos eles possuem uma base em comum: vence a rodada quem possui a melhor mão, dentro de uma série de mãos possíveis, começando com a carta mais alta, até a sequência de 10 a Ás do mesmo naipe, o Royal Straight Flush, passando pelas jogadas clássicas, como o Full House e o Four of a Kind. E para a nossa metáfora, gostaria de apontar para dois aspectos do Poker: o baralho e as regras.

As cartas do baralhos determinam boa parte das jogadasO baralho constutiu o determinante material do jogo. Só é possível jogar se tivermos as cartas – e as jogadas possíveis só acontecem por conta de determinadas cartas recebidas, que possuem variantes de valor (de Ás a Rei, no total de 13) e de naipe (quatro no total). As mãos possíveis dependem da combinação das cartas, conseguidas em alguma das rodadas do jogo. Essas mãos dependem da combinação de cartas de valor igual ou sequente, e com a possibilidade de ter todas as cartas do mesmo naipe. Quanto maior a probabilidade de se obter a mão, menor seu valor. A jogada mais difícil é justamente a sequência das cinco maiores cartas de um mesmo naipe: dentro de um jogo só é possível obter quatro dessas. A mais fácil é justamente o par: são 78 combinações possíveis de pares. Podemos dizer que o valor das cartas determina o sucesso do jogo.

Do outro lado, temos as regras e os jogos possíveis. O mais comum, chamado em inglês de Five Card Draw, permite que cada jogador tenha em mãos cinco cartas no início do jogo, troque quantas cartas quiser (dentro de um limite estipulado pela mesa) e com essas cartas montar sua melhor mão. Vence quem possui a melhor mão – ou quem convencer os outros jogadores que tem a melhor mão, sem necessariamente a ter. Isso porque boa parte do jogo envolve apostas e blefes: o jogador só é obrigado a mostrar sua mão se pagarem o preço da aposta, caso contrário, o jogador que não quer pagar para ver ou aumentar a aposta, desiste da rodada e perde o que apostou para quem ficou. Assim, podemos dizer que as regras determinam o que pode ou não ser feito em um jogo.

As regras do jogo mudam a forma como as cartas são usadasÉ o embate entre regras e cartas que cria a dinâmica do poker. Um analista do jogo irá debater entre esses dois determinantes, vendo as jogadas possíveis, apostas, blefes e ordenações de jogo de um lado, e as combinações e probabilidades de cartas de outro. E um bom analista irá perceber que olhar para esses dois determinantes é necessário. Porém, para a nossa metáfora, vamos dizer que existem aqueles que dizem que todo jogo ou é determinado pelas regras e jogadas ou pelas cartas e combinações – da mesma forma como existem aqueles que dizem que o ser humano é determinando ou pela sociedade/cultura ou pela biologia.

Um caminho conciliatório irá dizer que é possível olharmos para os dois lados para melhor compreender o jogo, ou seja, ver a dinâmica das regras e a dinâmica das cartas combinando para vermos a total possibilidade do poker. E de fato, ao fazermos isso, temos uma melhor compreensão do todo. Da mesma forma, conhecer os determinantes biológicos e sociais nos ajudam a compreender melhor a complexidade do comportamento humano e todos os seus detalhes.

Mas, mesmo tentando ser holistas assim sobre o poker, esquecemos de um fator importantíssimo, que ultrapassa determinações: o jogador.

 

O Indeterminante Jogador

O jogo pode ser determinado pelas cartas jogadas e pelas regras impostas de tal forma que é possível fazer uma análise estatística muito precisa sobre o rumo do jogo – levando em consideração as probabilidades do baralho, da quantidade de dinheiro em jogo e os limites das regras (alguns jogos, por exemplo, impõem um valor máximo de apostas, outros são sem limites ou possuem apostas mínimas). Mas mesmo com tantos números utilizados para os cálculos de determinação, existe sempre um fator indeterminado: o jogador.

Os jogadores são o fator indeterminado do jogo

Se o jogo fosse frio, jogado por um computador ou um robô, que seguisse sempre as melhores probabilidades do jogo, teríamos sempre as melhores jogadas e os melhores rendimentos. Inclusive, os jogos de poker pelo computador, seguem um algoritmo que busca os melhores resultados. Se o jogador humano perceber os padrões de aposta e das cartas, é possível saber quando arriscar ou quando fugir – as apostas muitas vezes revelam a mão que o jogador possui.

Mas nos jogos de jogadores humanos, nem sempre é possível seguir padrões. Os melhores jogadores usam as probabilidades a seu favor, confundindo com apostas irregulares ou para ganhar rodadas fáceis (onde os outros jogadores não possuem jogos bons) ou para assustar jogadas difíceis e ainda sair ganhando, mesmo que seja pouco. Nesse caso, o jogador inclui uma variável indeterminada, pois não sabemos dos motivadores do ser humano para aquela mesa. Ele pode estar aprendendo a jogar e sua irregularidade é sinal de inexperiência e a famosa “sorte de principiante”, ou então sua irregularidade é sinal de experiência. Ou então o jogador pode simplesmente estar roubando no jogo, trocando cartas ou mudando o valor das apostas sem que os outros vejam. Seja qual for o caso, os jogos de poker são emocionantes de assistir justamente por conta desse fator indeterminado.

Da mesma forma, ao discutirmos o comportamento humano geral, veremos que a compreensão dos determinantes biológicos e sociais é importante e fica difícil saber onde termina a influência de um e onde inicia a de outro. Porém, essa discussão nos permite apenas compreender fatores coletivos, e dificilmente compreenderemos os motivadores individuais.

Digo isso porque na psicologia temos esse interesse sobre o indivíduo ou sobre o sujeito – que se opõe ao objeto. De forma geral, podemos dizer que qualquer abordagem psicológica irá ter esse olhar. Não necessariamente social ou biológico, mas sim subjetivo. Por exemplo, a psicanálise baseia-se em explicações biológicas de influência de seu criador – que era neurologista – porém, inclui um olhar sobre o inconsciente que oferece um fator indeterminado que dificulta dizermos qualquer certeza sobre o sujeito. O behaviorismo, do outro lado, olhar o sujeito influenciado pelo ambiente e inclui nesse ambiente os fatores sociais – mas reconhece que esses condicionantes são probabilidades, não certezas.

 

O Dilema da Liberdade

Podemos compreender a indeterminação humana sobre um aspecto que é muito levantado: a liberdade do sujeito. Se o sujeito é livre, ele é indeterminado. Porém, se ele é determinado, seja pela sociedade, seja pela biologia, ele não é mais livre. A questão da liberdade é algo realmente problemática, pois apresenta um fator de indeterminação muito grande que dificulta a compreensão determinista.

O jogador de poker depende de sua habilidade para superar as regras e as cartasSe o sujeito é livre, suas ações dependem unicamente de suas decisões. Porém, ele age nas relações sociais. Enquanto ele age segundo as convenções e regras do jogo social, não há problema algum. Mas, quando o sujeito age contra as ditas convenções, os problemas aparecem. Aparecem não por conta do conflito entre indivíduo e sociedade, mas sim porque a responsabilidade da ação recai sobre o sujeito, que foi livre ao escolher agir. Mesmo que ele tenha agido por conta de um determinante social, a culpa recai sobre o indivíduo livre.

Porém, se colocarmos os determinantes sociais e biológicos na jogada, podemos argumentar que o sujeito não era livre para escolher. O assassino poderia estar sobre efeitos de drogas, lesões neurológicas ou fatores genéticos que o levaram a cometer o crime. Ao mesmo tempo, o ladrão estaria agindo segundo os determinantes sociais que impõe ao sujeito o dinheiro a qualquer custo, o descaso em relação ao outro e as diferenças de classes – o que justificaria que o ladrão também pode ser visto como uma vítima da sociedade, pois não lhe foi ofertada a educação e oportunidades necessárias para que ele possa obter sucesso.

Determinantes tiram a liberdade. Mas o sujeito é tido como livre. É um grande paradoxo que eu só consigo resolver da seguinte forma: as determinações falam sobre o coletivo; a indeterminação, sobre o sujeito. Ao falarmos sobre as condicionantes biológicas ou culturais, estamos falando sobre aspectos coletivos da humanidade, a espécie humana ou a sociedade humana. Mas, ao falarmos sobre o comportamento humano individual, incluímos aí fatores indeterminantes que se revelam em questões como motivação, memória, experiência individual, história de vida, consciência, impressões, emoções, sonhos, projetos, inconscientes, complexos, traumas, crenças, etc, etc, etc, e liberdade.

 

A Metáfora do Jogador

Na nossa metáfora, o sujeito é o jogador. E em um jogo, o jogador é o indeterminante que, ao fazer a escolha, pode surpreender qualquer jogo. Ele é livre para aumentar a aposta, fugir ou pagar para ver. Porém, em um jogo, suas ações e escolhas são menos arbitrárias que na vida real.

Problemas acontecem na vida e no pokerMas, vamos supor que exista um jogador X que, depois de perder várias mesas, começa a ser mais cuidadoso com suas jogadas. Ele passa a demorar mais, pensar, calcular, projetar e por muitas vezes, desiste sem apostar. Para os jogadores, fazer isso de vez em quando é natural. Porém, para X, isso passou a ser rotina. Uma rotina que acaba atrapalhando a jogabilidade dos outros jogadores. Tanto que eles criam uma nova regra: existe um limite de 30 segundos para decidir fazer a aposta. Caso passe esse tempo, o jogador automaticamente sai da rodada e perde o dinheiro que apostou até então. No início parecia bom isso, mas X sempre perdia. Quando ele tentava participar mais rápido, dentro do tempo estipulado, ele acabava só perdendo mais dinheiro.

Alguns analistas começaram a dizer que a o problema de X eram cartas ruins em todas as mãos e eles resolveram criar uma nova regra: é possível comprar cartas novas, pagando com as fichas. Dependendo de quanto se pagasse, era possível até escolher quais cartas iria receber. Isso acabou facilitando o jogo para X, fazendo com que ele não perdesse tantas mãos e não tirando a diversão dos demais jogadores.

Mas mesmo assim, X passou a ser marcado como um “comprador”, ou seja, um jogador que precisa comprar as cartas para se ter o mínimo de chances de jogar, pois suas cartas naturais são ruins. Os outros jogadores não o levam a sério e X passa a se construir como sujeito dessa forma, como alguém dependente de cartas novas para lidar com as regras do jogo.

Porém, se analisarmos o jogo de poker, saberemos que as cartas que um jogador recebe não são naturalmente ruins ou boas, mas são aleatórias. É a habilidade do jogador que dita o curso do jogo, não a qualidade das cartas. Um jogador bom sabe jogar os outros jogadores a acreditar que ele possui as melhores cartas do jogo, mesmo sendo as piores e assim garantir que não irá perder tanto dinheiro ou ao menos ganhar um mínimo naquela mão. Mas se as regras são alteradas para lidar com jogadores individuais, facilitando suas jogadas ou dificultando que o indivíduo atrapalhe o ritmo do jogo, esse jogador irá se construir dessa forma. Um jogador que joga sempre como “café-com-leite”, não apostando de verdade, não perdendo de verdade, não poderá se construir como um jogador de verdade.

Da mesma forma acontece com o indivíduo fora da mesa de poker. Se o sujeito permitir, ele irá se determinar pelas regras da sociedade ou pelos padrões da biologia. Mas, de fato, ele constrói sua identidade pela relação com as outras pessoas. Sua profissão, família, nome, dados pessoais, características de personalidade: tudo isso é construído na relação com os outros. Se a pessoa gosta de cinema, é porque ele teve experiências positivas com o cinema. Se ele não gosta de frutos do mar, ele teve experiências negativas com frutos do mar. Não só experiências individuais, mas também em relações com outras pessoas – suas reações, marcas e identificações. O sujeito livre e indeterminado se constrói e é construído nas relações com as demais pessoas livres e indeterminadas.

 

Por Exemplo, A Depressão

O Jogador X, se estivesse se comportando dessa forma fora da mesa de jogo, poderia ser considerado depressivo. Um médico diria que seu comportamento é condicionado ou determinado por neurotransmissores desregulados e um medicamento irá ajudá-lo a viver melhor. Um sociólogo poderá dizer que a pressão social sobre a produtividade, o consumo e o excesso faz com que pessoas que se comportem de forma lenta, não produtiva e calma sejam taxadas como depressivas. Quem está certo? Não temos como afirmar quem vem primeiro, mas sabemos que o sujeito que está no meio, acaba construindo-se como depressivo, identificando-se com essas características, mesmo que inconscientemente.

Identificar-se como depressivo depende da forma como os outros tratam vocêNão quero dizer que, com isso, a pessoa passe a dizer “eu sou depressivo”, mas seus comportamentos pessoais são construídos de tal forma que são identificados pelas outras pessoas como sendo assim. Pode começar com uma tristeza inexplicável, uma falta de vontade de sair de casa ou ainda uma irritação com relação às outras pessoas. E a pergunta vêm: por que X se comporta assim, seria porque X aprendeu a se comportar assim ou porque sua biologia determina seu humor?

Essa pergunta sobre o determinante do humor só é relevante para a compreensão coletiva do comportamento, para saber se a espécie é naturalmente depressiva ou se a sociedade é construída assim. Para o sujeito, que é tido como livre, não importa. Foi Sartre quem disse, “não importa o que fizeram de nós. Importa o que fazermos com o que fizeram de nós”. Se o sujeito de fato é livre, possui consciência e capacidade de escolha, ele pode ter todos os neurotransmissores irregulares e todos os ensinamentos errados: o sujeito ainda poderá escolher o correto, o melhor e porá, dentro do possível, viver minimamente bem.

E por que isso é relevante? Porque se dissermos que o sujeito não é livre, que seu humor é determinado ou pela biologia ou pela sociedade, não termos como culpar mais o indivíduo por suas escolhas, pois elas seriam determinadas. Os erros não seria mais individuais, mas sim coletivos, ou complicações da espécie ou problemas culturais. Então, no fundo, a pergunta que devemos fazer é: qual é o papel do sujeito livre na nossa cultura?

Se o sujeito é livre, ele pode ser ensinado a lidar com os limitadores e condicionantes biossociais da melhor forma possível, para não atrapalhar a sua vida nem a dos outros. E isso também é possível com a depressão.

Psicoterapia é um trabalho individual. Psicofarmacologia é de influência biológica. Mas não temos um trabalho social para cuidar da depressão. A depressão – como qualquer outra psicopatologia – é vista como um problema individual, mas determinado biologicamente. O fator social é ignorado muitas vezes. Por isso temos o discurso que o remédio é necessário, pois desconhecemos o trabalho social e cultural. E muitos dos argumentos acabam sendo do tipo “mas você não vai querer que seu filho seja tratado diferente”, jogando no desejo social de normalidade a necessidade do uso de medicamento.

Mas, temos que reconhecer antes de tudo, que a depressão, como qualquer outra forma de compreensão sobre a loucura, é uma construção social. Depressivo é aquele que não concorda com os meios de produção ou de humor social. Antigamente era visto como melancolia, um dos quatro humores junto com o sanguíneo, o fleumático e o colérico. Mas, com o passar do tempo, passou a ser doença, pois o sujeito deixa de produzir, é isolado socialmente e pode cometer suicídio.

Dizer que existe uma construção social da depressão não remove sua importância ou gravidade, muito pelo contrário. Tampoco remove a necessidade de compreender os elementos biológicos relacionados. Mas não podemos reduzir uma construção social e de identidade pessoal a meros neurotransmissores. O sujeito é muito mais do que isso.

Imaginemos uma pessoa, de 18 anos, finalizando o ensino médio. Vamos chamá-lo de João. Ele resolve, antes de iniciar a faculdade, fazer um ano de intercâmbio nos Estados Unidos. Lá, ele tem dificuldade de relacionamento com sua família anfitriã, forçando-o no primeiro mês a mudar de cidade. Na nova escola, ele tem dificuldade de se relacionar com os colegas e professores, dificultando seu aprendizado do inglês. Por conta da distância, sua namorada termina com ele. João morre de saudades de sua família. E para completar, ele é diagnosticado com depressão.

Aqui podemos discutir se sua depressão é provocada por algum problema biológico que coincidentemente aconteceu naquele ano problemático de sua vida, ou se sua condição depressiva é resultante de todos os problemas sociais vividos. Mas a história de João não termina aí.

Será que a felicidade vem por conta da química ou a química acompanha a vida bem vivida?Após seu diagnóstico por dois psiquiatras americanos, ele passa a tomar remédio antidepressivo. Ele foi corretamente informado que os efeitos antidepressivos só aparecem após três meses de tratamento. Ele enfrenta seus problemas, sabendo que em breve, ao menos sua depressão irá melhorar. E de fato, melhora. Seis meses depois do início do tratamento, seu intercâmbio termina, ele retorna a seu país, reencontra sua família, não tem mais dificuldades com o inglês, reencontra os amigos e volta com sua namorada. E, para completar, sua depressão melhora.

A pergunta é: sua melhora foi por conta do tratamento com antidepressivos ou por conta da melhora da situação de vida? E antes que comentem do exemplo aparentemente absurdo, ele foi baseado em um relato real ouvido por mim em primeira mão, diretamente do paciente, que no caso atribuia sua melhora ao uso de antidepressivos, e reconhecia sua depressão como uma condição biológica aleatória e inesperada, como uma gripe ou outra doença física.

De uma perspectiva psicológica, o fato foi que João melhorou. O complicado é que ele se construiu psicologicamente como um ser determinado biologicamente, sem alternativas e escolhas sobre o que fazer. João, no exemplo acima, não percebeu que ele tinha escolhas durante sua vida – se não do que fazer, ao menos de como fazer. No exemplo acima, João construiu-se como uma pessoa sem responsabilidade sobre sua própria vida, vivendo não à mercê da biologia, mas sim à mercê daquilo que os outros dizem que é a biologia.

 

A Doença Mental

Dizer que um problema depende de seus componentes sociais não retira dele suas influências biológicas e vice versa. Mas prender-se nessa oposição é ignorar o fato de quem vive é um sujeito indeterminado. E aqui, novamente, entra a questão da escolha: ou o sujeito é determinado pela biologia e/ou sociedade – e consequentemente é irresponsável por suas escolhas – ou o sujeito é livre e é responsável por suas escolhas. O problema maior é que a sociedade parece que quer irresponsabilizar o sujeito de algumas coisas, enquanto o responsabiliza de outras.

Se o sujeito fica triste, deprimido ou melancólico quando não pode, é porque existe algo de errado com seu corpo que não implica em escolha: irresponsabilidade sobre seus sentimentos, emoções e humores que passam a ser constrolados pela biologia. Agora, se o sujeito rouba, mente ou comete algum crime – mesmo que seja por pura sobrevivência – ele precisa ser responsabilizado pelo que fez, pois isso dependeu de escolhas individuais e de ao menos um certo grau de decisão: responsabilidade pelo convívio social.

Ao que me parece, o sujeito só é responsável por aquilo que favorece à sociedade e é irresponsabilizado daquilo que ultrapassa as capacidades sociais. Pois se dissermos que o sujeito é emocionalmente responsável, a sociedade deveria ensinar e favorecer o desenvolvimento de competências emocionais, ao invés de simplesmente reprimir toda e qualquer forma de manifestação que seja contrária ao desenvolvimento coletivo. Ao mesmo tempo, é cômodo para a sociedade dizer que o ladrão que rouba pra se alimentar é ladrão e precisa ser preso, pois isso favorece justamente à elite dessa mesma sociedade que consegue isolar na cadeia quem “suja” sua imagem.

A nau dos loucos como metáfora de como a sociedade trata quem é diferenteO pior de tudo é que quando falamos de “doença mental” acontece exatamente a mesma coisa. O louco, durante muito tempo, era excluído da sociedade – como podemos ver nos alegóricos “Navios dos Loucos” (sugiro, inclusive, a leitura deste artigo para quem quiser aprofundar o conhecimento sobre a questão: “Entrando na Nau dos Loucos”). Mas, recentemente, ele foi “promovido” de excluído social para “doente mental”. Só que a exclusão continua, na forma de internamentos (que, graças à reforma psiquiátrica, estão diminuindo) e mudanças forçadas de personalidade para ajustamento social através de alterações químicas. Algo semelhante era feito ainda no século XX com homossexuais em países como a Inglaterra, através de castrações químicas, para que essas pessoas deixassem de praticar atos homossexuais, vistos, na época, como crime, e depois como doença, para finalmente serem aceitos.

Dizer que a depressão (ou qualquer outro transtorno) é uma doença é ignorar os anos de exclusão social que os que são chamados de doente mental sofreram e é ignorar o fato que hoje essas pessoas ainda são excluídas por sentirem, pensarem e se comportarem de forma diferente das demais. Ao mesmo tempo, é tirar do sujeito a responsabilidade sobre si mesmo e sobre sua vida.

Responsabilizar-se não é culpar-se, reconhecer-se como causa do problema. Responsabilizar-se é reconhecer-se capaz de viver suas consequências. Se por algum acaso sou afetado por isso que chamamos de depressão, devo sim responsabilizar-me por isso. Isso não quer dizer entregar-me a qualquer resposta dada pela “ciência” ou pela “medicina” sem questionar – até mesmo porque existem vários problemas relacionados a isso que precisam sim ser questionados – mas sim reconhecer que a tristeza, a melancolia e o sofrimento fazem parte da vida, que não é necessário abrir mão de meus sentimentos, por pior que sejam elas, em nome de uma pretensa normalidade.

Ao mesmo tempo, eu que não sofro diretamente disso, devo responsabilizar-me socialmente sobre a depressão e os demais problemas, para acolhe-los também como formas dignas de vida. E, caso a avaliação individual mostre que é possível um auxílio de remédios, então, que eles sejam usados – mas não que sejam os protagonistas do tratamento. O protagonista deve ser o próprio sujeito.

 

Concluindo a Metáfora do Poker

Se passássemos a tratar os jogos de poker da mesma forma como tratamos a nossa vida, todos os que possuem dificuldades de jogar – e que atrapalham, por conta disso, os outros jogadores – receberiam ajuda com suas cartas, mediante pagamento, é claro, tudo para manter o fluxo de jogo sem alteração (enquanto alguns enriquecem com isso). Mas podemos também perceber que os mais experientes podem ensinar os jogadores mais inexperientes a jogar também e todos podem participar.

Nossa sociedade criou um sistema louco de responsabilidade e liberdade, onde isso é sinônimo de individualidade e egoísmo. Mas o sujeito não se constrói sozinho: ele precisa do outro. Todo jogador só é tão bom quanto os jogadores com quem se permite jogar. A identidade é construída não de forma independente, mas sim relacional. E o mesmo pode ser dito sobre a liberdade, a consciência, as crenças e tudo o que for subjetivo. Toda subjetividade, de fato, é intersubjetiva.

Mas se insisto que as questões subjetivas são biologicamente determinadas, é como dizer que o jogo de poker pode ser decidido pelas cartas que o jogador receber e as melhores cartas sempre serão vencedoras. Porém, se insisto que as questões subjetivas são socialmente determinadas, é como dizer que a decisão do jogo de poker recai sobre o correto e melhor uso de suas regras. E ambas as posições ignoram o jogador, o fator indeterminado do jogo.

Na vida é a mesma coisa. Nada do sujeito é biológica ou socialmente determinados. Essas questões oferecem condições que, junto com a história de vida de cada um, ajudam a construir quem a pessoa é. Alterar a química da pessoa e ignorar as condições pessoais e sociais é tão inútil quanto alterar a sociedade sem levar em consideração a individualidade e sua relação com o próprio corpo. Nada determina e no final, tudo depende de cada um e da forma como cada um se relaciona com os demais.Poker é um jogo de pessoas, não de cartas e regras

Comments (4)

  1. Eliton Macedo

    Muito bom o texto, o que eu acho é que as pessoas preferem pensar que existe um determinismo seja ele social ou biológico porque assim suas escolhas podem ser maquiadas com os mesmos, criando assim consequencias determinadas excluindo a “responsabilidade” do sujeito é mais pratico dizer que vc é doente do que você adimitir para vc mesmo que não quer fazer determinada função que a sociedade espera de você….queria escrever maisas já me delonguei aqui…até

  2. Suellen Tereza

    Ta aí, eu sempre tive dificuldade de me colocar em uma das extremidades, chegando a pensar que me faltava dados para me “encaixotar” de vez em uma das premissas: biológica ou social. Contudo, vejo que não se enquadrar dá um tom a mais nessa discussão: Loucura Moderna. Atualmente, a loucura é estar fora das normas cientificas, culturais, religiosas, etc… Logo, não ter uma caixa é sinônimo de louco. Diante ao seu texto Pablo e de tantas coisas que tenho lido, em especial Rubem Alves, penso que precisamos disseminar o ensino da loucura. Afinal, responsabilidade é coisa pra Louco!

    Muito bom seu Post!

  3. […] explicação divertida diz que o que aprendemos não se associa a conhecimentos inatos mas sim a instintos inatos – instintos que podem ser definidos de várias formas, mas uma delas diz respeito a […]

  4. Ronaldo

    Se queremos mudar a situação social e econômica de nosso País e do “Mundo”, já que tudo depende de como nos relacionamos com os demais, e de que nada é determinado, usemos então nossas cartas da melhor forma possível. Elas farão a diferença!!

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