O que Aprendemos com a Mentira


O que aprendemos com a mentira?Desde quado eu assisti ao filme “O Primeiro Mentiroso” (ou “A invenção da Mentira”, The Invention of Lying, 2009) do comediante inglês Ricky Gervais pela primeira vez, tenho pensado bastante sobre a mentira. Não só nas consequências danosas que percebemos quando nos deparamos com uma mentira, mas sim os motivos que levam as pessoas a mentirem. Em outras palavras, por que as pessoas mentem? O mais legal é que a resposta não é a que a gente mais imagina.

Se perguntarmos por aí “Por que as pessoas mentem?” a maioria das respostas que vão nos dar é “porque as pessoas querem enganar” ou “querem ganhar vantagem” ou até mesmo “porque não gostam de você” ou “porque são pessoas más”. Mas isso não são os motivos que levam as pessoas a mentirem. Isso é o que elas ganham ao mentirem. O motivo é outro e é muito mais simples: as pessoas mentem porque foram ensinadas a mentir. Simples assim.

E como uma pessoa aprende a mentir? Da mesma forma como aprendemos qualquer coisa, através da relação que criamos entre o que fazemos e suas consequências. Se a consequência daquilo que fazemos é positiva, tendemos a repetir aquele comportamento. Se é negativa ou não tem nenhuma consequência perceptível, nossa tendência a repetir o comportamento diminui. Foi isso que descobriu B.F. Skinner há muitas décadas atrás.

Antes dele, pensávamos que a aprendizagem estava relacionada ou a interiorização de regras – ou seja, vemos algo “lá fora” no mundo e através da nossa percepção fazemos com que isso passe a ser uma imagem interna, associando essa nova experiência a algum outro padrão que já temos internamente – ou então ao condicionamento respondente, ou seja, já sabemos como fazer algo e aos poucos vamos associando novas funções e comportamentos a velhos hábitos, condicionando novas respostas a estímulos conhecidos – como o cachorro do Pavlov que associou a salivação já conhecida ao som da sineta.

 

Essa é a visão de aprendizagem: ela acontece por associação a algo que já temos. Mas essa visão traz um problema simples: se aprendemos baseado em algo que já sabemos, então como se deu o nosso primeiro aprendizado? Ou seja, a primeira coisa que aprendemos ao nascer, foi associado ao quê? E é aqui que entram as explicações divertidas.

Uma delas, proposta por grandes gênios da filosofia como Sócrates, Platão, Descartes e Leibnitz – este último foi um dos inventores do Cálculo diferencial e integral, junto com outro gênio, Newton – é que já nascemos com conhecimentos prévios ou inatos. Essa visão vai se transportar para a psicologia do século XX em idéias como a que nascemos com arquétipos inatos e que em cima deles construímos nossas experiências.

Outra explicação divertida diz que o que aprendemos não se associa a conhecimentos inatos mas sim a instintos inatos – instintos que podem ser definidos de várias formas, mas uma delas diz respeito a comportamentos que já nascemos prontos para executar e não precisamos aprender a fazer. Então já teríamos alguns comportamentos básicos, como ver, mamar, esticar os músculos, além dos reflexos naturais do corpo e em cima desses instintos é que aprendemos a falar, ler, conversar, acreditar, apostar na bolsa de valores e a fazer qualquer outra coisa que quisermos.

 

Ou seja, a visão clássica diz que aprendemos por associação, o que nos leva à conclusão lógica que já nascemos com algo inato que nos prepara para aprender todo o resto ,seja isso algum conhecimento – ou, como chama Richard Dawkins, um “Meme”, conceito inspirado nas “Mônadas” de Leibniz – ou então um comportamento, que chamamos comumente como instinto.

Dessa forma, podemos entender que uma mentira, por exemplo, é algo que vai contra o que seria verdade e quando mentimos sabemos que estamos mentindo pois sabemos qual é “A” verdade essencial. Uma mentira seria algo que vai contra a nossa essência verdadeira.

E essa visão é muito cômoda, pois ela vai ao encontro de muita coisa que já acreditamos, como que existe uma essência humana, algo que inato e essencial a todas as pessoas – principalmente às pessoas de bem. Mas essa visão essencialista e inatista não dá conta de explicar as exceções às regras que percebemos. Se o ser humano, por exemplo, é por natureza bom, como explicar as pessoas más? Ou se o ser humano é mau por natureza, como explicar as pessoas “naturalmente boas”? Então, por que as pessoas mentem pois se são naturalmente boas, não precisariam ir contra sua essência verdadeira, mas se são essencialmente más, a mentira seria o padrão a se seguir.

 

Diante disso, podemos seguir pelo caminho crítico e reconhecer que o essencialismo e o inatismo não estão nos ajudando a compreender como aprendemos e de fato estão nos atrapalhando. É mais fácil então aceitar que de fato nosso aprendizado não diz respeito ao que já sabemos antes, mas sim com as consequências das nossas experiências.

Ao invés de dizer que aprendemos pois nossa experiência se associa a algo que já temos, é melhor dizer que aprendemos pois nossa experiência traz alguma consequência positiva. E associamos também porque isso nos traz uma consequência positiva: associar uma experiência nova a algo que já sabemos é mais fácil e usa menos energia do que aprender algo do zero, sem experiências prévias. Mas a chave de tudo é: quais são as consequências?

E é aqui que entra a questão de que mentimos pois aprendemos a mentir. Isso porque a forma como a sociedade lida com a verdade e a com a mentira é completamente ambígua e paradoxal. Para explicar esse ponto, vou ilustrar com um caso fictício.

Joãozinho estava brincando com sua bola dentro de casa. Seus pais disseram que ele não deveria fazer isso, pois existe uma grande chance de a bola quebrar algo valioso. Mesmo assim Joãozinho brinca dentro de casa e quando seus pais perguntam, ele sempre diz que ele brincou no quintal e que antes deles voltarem, ele se arrumou e por isso não está sujo.

Qual foi a consequência da mentira do Joãozinho? Ele pode brincar de forma cômoda, sem se preocupar com sujeira. E, além disso, ao mentir, ele pode fazer o que quiser, sem se preocupar com as restrições chatas dos pais.

Mas isso é óbvio, certo? Ele está ganhando vantagem ao mentir. Mas a verdadeira aprendizagem vem a seguir:

Joãozinho um dia, ao brincar com a bola dentro de casa, quebra um vaso de vidro de sua mãe. Ao voltarem pra casa, os pais perguntam para Joãozinho o que aconteceu e ele mente dizendo que o vento soprou o vazo que caiu. Os pais inicialmente aceitam e Joãozinho é reforçado na mentira. Porém, mais tarde eles descobrem que a janela estava trancada e não fora aberta durante o dia e eles questionam novamente seu filho que diz a verdade: eu brinquei dentro de casa e quebrei o vaso. O que acontece? Ele é punido.

A punição na cabeça dos pais – e na cabeça da maioria das pessoas – vai servir para ensinar que mentir tem consequências ruins, pois Joãozinho mentiu ao dizer que brincava no quintal e não dentro de casa. Mas essa punição não veio como consequência da mentira: a punição veio como consequência do Joãozinho contar a verdade. Então seus pais ensinam que se a criança mente ela tem a vantagen de não ser punida enquanto ninguém descobre, mas se Joãozinho conta a verdade, ele é punido por contar a verdade.

A consequência disso é que somos ensinados a mentir. E somos ensinados a não contar a verdade, pois a mentira nos leva para onde queremos acreditar e a verdade nos mostra a realidade que muitas vezes não queremos aceitar. Mentimos para fugir de punições e consequências aversivas que a vida nos oferece quando falamos a verdade.

Ninguém quer saber a verdade sincera. Todos queremos a mentira que nos ilude. Por isso acreditamos nas coisas, pois a realidade nos mostra algo sem graça, enquanto a crença nos mostra esperanças. Saber que o arco-íris nada mais é do que a refração de luz nas partículas de água suspensas no ar não é tão legal quanto acreditar que o arco-íris é uma ponte que liga o mundo dos deuses ao nosso e que ao final dessa ponte vamos encontrar um pote de ouro guardado por duendes. Ou então, saber que esta vida é a única que temos e que cada erro que cometemos não teremos como voltar atrás e tentar novamente é bem mais deprimente do que acreditar que teremos ao menos uma outra vida de alegrias e prazeres depois dessa nossa vida de miséria e sofrimento. Então aceitamos a auto-ilusão da mentira.

Acreditamos na mentira pois não sabemos a verdade. E a verdade não precisa ser acreditada para continuar sendo verdadeira. Então, o que alimenta o nosso hábito de mentir são três coisas: as vantagens que temos ao mentir, as punições que recebemos ao falarmos a verdade e a nossa vontade inata de acreditar em qualquer coisa que faça nos sentir bem, o que geralmente é uma mentira, pois a verdade não tem o objetivo de nos fazer sentir melhor. E se encontramos um comportamento aleatório que acreditamos ser verdadeiro, mesmo não sendo, e passamos a nos comportar como se assim fosse, chamamos isso de superstição. E a superstição é uma crença em uma mentira, com o objetivo de nos fazer nos sentir melhor.

No filme “O Primeiro Mentiroso”, uma das coisas que eles discutem brilhantemente é como tanto a arte como a publicidade são formas de mentira. A literatura, a ficção, as esculturas, pinturas e até mesmo as religiões são mentiras. Ao ver esse filme percebemos que tudo o que nos rodeia é mentira. Ou seria como disse Pablo Picasso, “A Arte é a mentira que nos permite conhecer a verdade”.

 

As roupas que usamos foram compradas através de propagandas que mentiram e até mesmo nossas roupas estão escondendo e mentindo o formato do nosso corpo. A comida que comemos é fruto de uma arte, a culinária, que engana nossos sentidos a acharem que um hambúrguer ou uma pizza é bom para nós. E até mesmo os jornais mentem por omissão ao escolherem qual parte da verdade querem mostrar para nós e qual vão esconder. E por que os jornais fazem isso? Porque se não o fizerem, eles não vão vender tanto quanto vendem. E no final das contas, o valor do Mercado está acima do valor da verdade.

É interessante notar também que, se estivéssemos na Grécia antiga, ao valorizar o Mercado estaríamos venerando o deus Hermes – conhecido como Mercúrio pelos romanos. Hermes, além do deus do mercado, do comércio e da comunicação, é também conhecido por ser um deus mentiroso e enganador, brincalhão e trapaceiro. Não é à toa que valorizarmos mais a mentira que pode ser vendida do que a verdade que pode acabar com uma venda, com uma amizade ou com uma posição social adquirida. Você pode ouvir mais sobre esse deus no episódio #104 do Papo Lendário – Hermes, o Deus Moderno.

 

Enquanto isso, mentimos para nós ao dizermos que existe uma verdade essencial. Mentimos para nós mesmos ao dizer que a verdade deve ser valorizada mais do que a mentira. Mentirmos para nós mesmos ao aceitarmos conhecimentos e comportamentos supersticiosos só porque daquela vez deu certo – e ignoramos todas as outras vezes que não funcionou. E mentimos ainda mais ao não querermos perceber que boa parte dos nossos problemas são cotidianamente criados e alimentados por nós mesmos ao continuarmos a aceitar as pequenas crenças que nos iludem ao invés de lutarmos pelo mundo que nos rodeia tal qual ele é e se apresenta para nós.

Ao usarmos a punição ao descobrirmos uma mentira – ou um erro – na tentativa de corrigir, estamos nos iludindo achando que vamos ensinar o correto. De fato, o que estamos ensinando é que o erro está em dizer a verdade ou em descobrirem o nosso erro. Mentir ou estar enganado sem saber não é ruim – na verdade, enquanto erramos, estamos bem, enquanto estamos mentindo e não sabem a verdade, estamos em vantagem.

O que a mentira nos ensina – se soubermos corretamente aprender com esses padrões – é que precisamos urgentemente rever a forma como lidamos com as informações e principalmente a forma como usamos as punições como ferramentas educacionais. Punir não ensina, na verdade, acaba ensinando coisas erradas, como mentir e enganar. As crianças colam na prova porque a cola, se não descoberta, leva a nota alta e aprovação, enquanto que a verdade de não ter aprendido leva a punição, nota baixa e reprovação.

E tudo isso porque nos ensinam errado. E nos ensinam que errar é ruim. E por isso, quando acreditamos em uma mentira, queremos que essa mentira seja sempre a verdade e evitamos aprender com os nossos erros.

Deixe um comentário