Uma breve reflexão sobre o Narciso Moderno


O Narciso ModernoO mito do Narciso é muitas vezes utilizado para ilustrar o que chamamos – graças à psicanálise – de Narcisismo. Comumente, relacionamos ao narcisismo o mesmo que egoismo ou então preocupar-se muito com a própria imagem. No mito grego, Narciso era um jovem que foi condenado, devido à sua arrogância, a apaixonar-se por sua própria imagem. Só que as pessoas só conhecem o lado de “Narciso era apaixonado por si mesmo” e usam isso para falar a respeito de pessoas que não conseguem ver além dos próprios umbigos, ou daqueles que se prendem muito em suas imagens virtuais nas Redes Sociais.

Só que o mito fala muito mais do que isso e o que o mito complementa sobre Narciso pode muito bem nos ajudar a compreender o Narciso Moderno.

A flor do narcisoO mito do Narciso conta a origem da flor de mesmo nome, uma flor muito bela que só poderia ter sido criada a partir de uma pessoa muito bela. O Narciso do mito era um jovem muito belo e por conta disso, vivia cercado de ninfas. Narciso era mimado e querido e constantemente elogiado. Todas o amavam, mas ele não sabia o que era amar, pois ele não sabia o que era perder. Quando temos de tudo, quando todas nossas necessidades são sanadas, não sabemos o que é a falta, não sabemos valorizar o que realmente é especial e importante e não sabemos nos doar para os outros. Narciso não sabia amar.

Por conta disso, ele ignorou os clamores de amor da ninfa Eco que, por conta do amor não correspondido deprimiu-se e começou a definhar. Quem ama o outro, doa. Mas se esse amor não é correspondido, a pessoa não recebe o retorno de seus gestos e toda essa energia não volta. A pessoa definha. Sobrou à ninfa unicamente repetir o que qualquer pessoa dissesse perto dela, pois até mesmo sua própria voz tinha sumido. Eco nos ensina que precisamos nos relacionar com as outras pessoas, se não, ficamos unicamente replicando e reproduzindo o que os outros dizem.

Por conta dessa posição arrogante de não considerar ou reconhecer a postura do outro, Eco foi castigado pela deusa Hera a sofrer do mesmo mal que causou: de amar alguém que não podia corresponder da mesma forma. Ele foi castigado a apaixonar-se por si mesmo. E para que isso se concretiza-se, Hera fez com que ele cassasse um porco selvagem muito rápido. cansado da perseguição infrutífera, Narciso deixou às margens de um rio para beber água e se refrescar e se deparou com a imagem do ser mais lindo que já viu. Ele apaixona-se por si-mesmo. A história termina aqui e dizem que, por pena, transformaram Narciso em uma flor para que pudesse sempre ser admirado por sua beleza.

Mas a nossa reflexão vai além disso. Narciso não é só aquele que se apaixona por si-mesmo, como dizem. Narciso não é aquele chato que, no meio do almoço familiar, fica olhando pra tela do celular e se isola dos outros. A tecnologia, os computadores, os celulares e tablets não são as faces d’água que nos fazem ficar isolados do mundo. Narciso sempre foi isolado do mundo e nunca se preocupou com mais ninguém. Narciso sempre foi mimado e egoista, mesmo antes de ser castigado. Foi graças à arrogância de Narciso que Eco definhou e tornou-se apenas uma fraca repetição das outras pessoas. Mesmo se ele não tivesse nunca mais olhado para seu reflexo, ele continuaria desse jeito.

E essa tecnologia que nos deixa antissociais...O que fazemos hoje em dia é culpar o rio pelo ato do Narciso. O que fazemos hoje é dizer que o Narciso não pode olhar para seu reflexo para poder ser uma boa pessoa. Acontece que Narciso nunca foi uma boa pessoa. O espelho não fez nada além daquilo que ele já fazia: ele já era socialmente isolado, ele já era arrogante. ele já era mimado, ele já era egoísta.

Se bem que o castigo o forçou a ver um outro lado que ele não via. O castigo não foi ele se apaixonar por alguém que não podia corresponder – pois ele poderia se apaixonar por uma pedra ou até mesmo por Eco que já era apaixonada por ele. Seu castigo foi simplesmente se apaixonar, se importar com outra pessoa além de si-mesmo. Mas ele era tão incapaz disso que ele acabou se apaixonando por si-mesmo. E continuou não se importando com mais ninguém.

Mas não é isso o que acontece nos dias de hoje, com o Narciso Moderno. O Narciso Moderno é diferente do Narciso Antigo. O Narciso Antigo era egoista e mimado e acabou perdendo-se em si-mesmo. Já o Narciso Moderno não olha para si mesmo nas redes sociais: ele busca contato social através dos aparelhos tecnológicos. Ao ler o jornal, o Narciso quer saber o que aconteceu com as outras pessoas. Ao acessar o Facebook, ele quer se conectar com as pessoas que estão distantes. Ao abrir o Whatsapp, ele quer se comunicar com quem não pode falar no momento.

Porém, para as demais pessoas que presenciam isso, o Narciso Moderno é visto como arrogante, egoísta e mimado, que prefere os contatos virtuais aos contatos presenciais, tal qual o Narciso Antigo. Mas será isso culpa do Narciso Moderno, culpa do celular ou culpa das pessoas que estão à sua volta?

Echo e NarcisoO Narciso Moderno pode ter errado ao não tentar socializar com quem está perto e preferir socializar com quem está longe. Mas o que as pessoas próximas do Narciso Moderno fazem? Elas julgam. E ao julgar, o afastam. Ao contrário do Narciso, quem julga não olha a imagem: raciocina sobre o que é certo e errado e afasta o que é errado. No caso, julgam o ato do Narciso Moderno como errado e o afastam. E o que sobra ao Narciso Moderno? Buscar contato através da distância, pois a distância é a única coisa que ele recebe.

O problema não é da tecnologia. O problema também não é da pessoa. O problema está nas nossas relações sociais que não são de qualidade. Precisamos do contato. Precisamos do vínculo. Buscamos isso nas outras pessoas e não recebemos, pois todos somos um pouco Narciso. E o que fazemos? Caímos no espelho da tecnologia, não para olhar para si-mesmo, mas sim para buscar imagens com as quais nos podemos nos relacionar. Às vezes essa imagem é uma selfie. Outras vezes, essa imagem é a foto de uma pessoa querida que não está perto ou uma mensagem de saudades.

Selfie não é narcisismo. Selfie é recordação, é memória de um evento, lugar, aparência ou situação. Whatsapp não é narcisismo. Whatsapp é comunicação, é proximidade com quem está distante, é lembrança e saudades. Redes sociais não nos tornam narcisistas ou egoistas. A falta de vínculo social faz isso e as redes virtuais apenas dão espaço para aqueles que já estão distantes e separados.

Se estamos julgando quem se distancia de nós através da tecnologia, devemos de fato nos julgar – sermos mais Narciso e olharmos para nós mesmos – e perguntar o que eu estou fazendo ou deixando de fazer que faz com que a outra pessoa prefira buscar um contato virtual a ter uma relação real conosco? Será que sou eu quem está afastando a pessoa ou não estou me esforçando para aproximá-la de mim? E se esse é o caso, por que acho ruim que ela reaja exatamente da forma como estou agindo?

Eco nas midias sociaisQuando estamos nas Redes Sociais não somos Narciso suficiente. Lá, acabamos sendo mais Echo, colocando-nos como vítimas negligenciadas, buscando a atenção das outras pessoas, mas o que só fazemos é repetir o que os outros fazem. Inclusive, várias pesquisas mostram que nas redes sociais buscamos seguir pessoas que compartilham das mesmas opiniões que nós já temos. Ou então, para poder facilitar o engajamento, o algoritmo do Facebook prioriza postagens que replicam aquilo que você já falou ou curtiu ou compartilhou, mostrando apenas quem concorda com você.

Nosso problema não é sermos Narciso Moderno – sermos alguém que conseguiu olhar para para a imagem, que busca em algum lugar o vínculo que não encontrou nas pessoas à sua volta que só a paparicavam mas que de fato não se importavam com ela. Nosso problema é sermos apenas Ecos Virtuais.

Mas sobre isso, pouco falamos, com medo de apenas ouvir a repetição da nossa última frase…

A nossa última frase.

Comment (1)

  1. Kevyn Almeida

    Que texto maravilhoso. algum tempo eu estava pensando como as pessoas de hoje só olham ela, e só olham a carcaça, não conhece quem é a pessoa por dentro e não conhece ela mesmo… parabéns ótimo resto

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