O Senso Comum e a História do Inconsciente


Doodle homenageando Sigmund Freud, mostrando seu rosto como se fosse a superfície de um iceberg.Hoje é o aniversário de Sigmund Freud. Há 160 anos – no dia 6 de maio de 1856 – nascia o homem que seria conhecido como sendo o pai da Psicanálise. Não só sua teoria, mas ele também são conhecidos por muitas ideias e muitos conceitos e, principalmente, muitas descobertas e invenções. A importância de Freud é tanta que até o Google o homenageou no dia de hoje, com o Doodle.

Freud é conhecido não só pela teoria psicanalítica, mas também pela prática psicoterapêutica associada com a psicanálise. Alguns dos conceitos que ele desenvolveu incluem o Narcisimo, o Complexo de Édipo, Recalque, a importância da sexualidade na vida do sujeito, Pulsões de Vida e de Morte, Id, Ego e Superego – conhecida como a segunda tópica – e até pela organização psíquica nas estruturas do Consciente, Pré-consciente e Inconsciente. Mas uma coisa que ele não fez foi sugerir o que chamamos de “Metáfora do Iceberg”, que compara o inconsciente à parte submersa de um iceberg. Quem fez isso foi Gustav Theodor Fechner.

Foto clássica de Gustav Fechner.Fechner (1801-1887) foi quem propôs que o funcionamento mental é análogo a um iceberg, com a vida consciente comparável à superfície do mesmo, enquanto a vida inconsciente estaria submersa. Ele propôs isso como parte de sua teoria chamada de Psicofísica, que aproxima o funcionamento mental às leis da física e da fisiologia. Sua maior contribuição à história da psicologia foi a proposta do que é chamada de Lei de Fechner – ou lei de Weber-Fechner que prevê que existe uma relação entre a quantidade de um estímulo ambiental e a intensidade da sensação sentida pelo corpo em uma proporção logarítmica. Em outras palavras, quando a quantidade de estímulo é baixa, qualquer alteração de intensidade é sentida de forma mais forte do que uma mesma quantidade de alteração feita se o estímulo já é alto.

Por exemplo, se você está num show musical ou ouvindo música com um volume bem alto e de repente se aumenta ou diminui a intensidade da música em 20 decibéis, você não sentirá tanto quanto se estiver em silêncio ou com a música em um volume bem baixo e houver uma alteração de mesma magnitude. Isso, além de demonstrar que existe uma relação direta entre o estímulo ambiental externo ao corpo e a sensação interna sentida pelo sujeito de uma forma matemática e quantitativa, mostra que há um universo de possibilidades muito maior que desconhecemos sobre nós mesmos.

imagem de Gottfried Leibniz.Se considerarmos que existe uma quantidade de sensação relacionada a uma quantidade de estímulo, há também um nível onde, mesmo existindo estímulo, não existe sensação – ou ao menos não existe consciência dessa sensação, mas ela está presente. Essa hipótese já foi proposta pelo filósofo Gottfried Wilhelm von Leibniz (1646-1716) – o mesmo que, junto a Isaac Newton, criou o Cálculo. Ele o chamou de “Limiar da Consciência”, e propôs que existe uma quantidade mínima de estímulo que é percebido de forma consciente, mas que abaixo disso, é percebido de forma inconsciente. Ele dá o exemplo da chuva que conseguimos ouvir quando há gotas suficientes caindo para fazer barulho que passe esse limiar, mas uma gota só caindo não é o suficiente para isso.

E o que isso quer dizer? Simplesmente que a ideia de Inconsciente já havia sido proposta e estava sendo estudada por muitas outras pessoas antes de Freud e da Psicanálise. Mas, por algum ato da história – ou pela história mal contada do senso comum – temos a impressão errônea de que foi Freud quem descobriu o inconsciente ou foi ele quem propôs o principal conhecimento sobre o inconsciente. Ele foi importante sim. Freud avançou muito do nosso conhecimento psicológico. Mas ele não foi o criador ou descobridor do inconsciente.

Caricatura de Fred, sentado em uma carteira, fazendo anotações e Schoppenhauer com livro na mão e dedo em riste ensinando. A história do inconsciente é muito mais complexa do que imaginamos e conhecemos. De certa forma, somos inconscientes dessa história. Não conhecemos seus pesquisadores e suas propostas. Não sabemos que já se estudavam sonhos séculos antes de Freud e do livro A Interpretação dos Sonhos. E também desconhecemos que a proposta do inconsciente sexual e do recalque já havia sido feito por Arthur Schoppenhauer em seu livro O Mundo como Vontade e Representação, de 1819.

Porém, isso não tira a genialidade de Freud nem tampouco diminui a importância de sua obra. Muito pelo contrário, conhecer essa história coloca o médico austríaco junto com grandes mentes da humanidade como um grande contribuidor para compreender esse mistério que chamamos de psique e de Inconsciente.

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