A Neutralidade Ideológica


Em tempos de “Escola Sem Partido” e de palavras de ordem contra a corrupção, o medo da tal “doutrinação ideológica” é muito grande. Doutrinação, palavra que indica uma formação de doutrina, de conhecimentos que servem de princípios para algum sistema religioso, filosófico ou jurídico. Então uma “doutrinação ideológica” serviria para transformar ideologia em doutrina, em princípios para algum sistema de pensamento. Mas, toda ideologia é exatamente isso. E todo sistema é ideológico. Logo, “doutrinação ideológica” é tão redundante quanto “subir pra cima” ou “água molhada”.

Tentar evitar ideologias é impossível. Nossa sociedade se organiza através de ideologias. Essa, na verdade, é uma discussão filosófica antiquíssima, porém, necessária, que pode ser resumida da seguinte forma: nós, seres humanos, somos seres biopsicossociais, ou seja, somos formados por porções biológicas e materiais, psicológicas e individuais, e sociais e ideológicas. Somos seres híbridos de tudo isso. E por isso, o que nos forma e o que formamos são também materiais e ideológicas. A partir do momento que pensamos, concebemos ou falamos a respeito de algo, esse algo já está sendo pensado, concebido e falado através de alguma ideologia. Não temos como fugir disso.

Capa do livro "The Crucible" de Henry Miller, ilustrando uma mão segurando corpos enforcados como se fossem marionetes.Ao mesmo tempo, querermos criar o crime de “assédio ideológico” – como defendem principalmente os propagadores da “Escola sem Partido” – é querer voltar aos tempos da Guerra Fria, quando existiam os tais “crimes de pensamento”, quando era um crime a pessoa ser, por exemplo, comunista. Mas o que seria “ser comunista”? Simplesmente, se você defendia ideias comunistas ou pensava como comunista: pronto, você era um comunista e o seu pensamento era considerado crime. Nos Estados Unidos isso passou a ser muito complicado a ponto de o escritor – e comunista – Arthur Miller escrever uma peça teatral chamada The Crucible, reproduzidas dezenas de vezes e inclusive transformada em filme (no Brasil, chamado de “As Bruxas de Salém”, de 1996) que conta a história de como foi no século XVII a caça às bruxas na cidade de Salém, Massachusetts.

Na peça, o autor nos conta uma história intricada de como uma jovem se vinga de sua antiga patroa – que a havia demitido por ter descoberto o caso da jovem com seu marido – acusando-a de ser uma bruxa, enquanto ela mesma havia praticado tais atos. A história se desdobra, enquanto a jovem e suas amigas se colocam como vítimas das bruxas, enquanto acusam cidadãos da cidade de bruxaria. As acusações se baseiam em sonhos, sentimentos ou falsas alegações de coisas que não podem ser provadas ou desprovadas, como o fato de uma jovem ter visto uma mulher recitando encantamentos para invocar o demônio. E, para completar, a menina que faz as acusações, é sobrinha do reverendo que encabeça as investigações de bruxaria na cidade, que culminou na morte de muitos inocentes.

Foto do senador McCarthy com a frase, "McCarthyism, the fight for America!"Essa história é uma alegoria à política da época do autor, chamada de macartismo, nome inspirado no autor de tal política, Joseph McCarthy. Sua ideia original era limpar os Estados Unidos da ameaça comunista e começou uma verdadeira “caça às bruxas” comunistas no país. Muitas pessoas foram interrogadas, e inclusive, algumas pessoas foram condenadas à morte por atos não-americanos: ou seja, eram comunistas. Vale lembrar que isso acontecia no auge da Guerra Fria e havia uma grande paranóia, medo e ignorância naquele país sobre o que era o comunismo e o que acontecia na União Soviética, o principal rival geopolítico dos Estados Unidos. Hoje em dia, maccartismo é sinônimo de investigação e acusação de subversão ou traição sem respeito pelas evidências.

E é justamente isso o que está acontecendo neste momento no Brasil que luta por uma “escola sem partido” ou por mais “neutralidade ideológica”. O cerne do macartismo é considerar ideias – como nacionalismo, ideologias ou patriotismo – crimes. Não todas, é claro, somente aquelas que vão contra o que é estabelecido como correto pela maioria dominante. No caso, podemos dizer com certa segurança, que o Comunismo é uma ideologia errada, passível de ser considerada crime. Mas “Comunismo” não passa de uma ideia que, se não for colocada em prática, não tem resultado algum. Uma pessoa defender ou acreditar no “comunismo” não quer dizer que ela vá sair por aí fazendo coisas comunistas e quebrando as leis. No caso, se a pessoa de fato quebrar as leis, ela deve ser julgada por quebrar as leis, não por ser comunista.

Capa do livro "O Estrangeiro", de Albert CamusO que me lembra de uma outra história, O Estrangeiro, do autor e filósofo argelino Albert Camus. (Caso você não tenha lido o livro e gostaria de ler, sugiro pular este e o próximo parágrafos.) Esse romance conta a história de Mersault e de como sua vida acabou em tragédia por conta de uma série de acontecimentos repentinos e absurdos. Ele começa relatando que sua mãe havia morrido e que ele precisava ir a seu velório – que era em outra cidade. Ele pega o trem e chega suado e cansado no momento do funeral, enquanto ele precisa lidar com a burocracia do enterro e de seus pertences. E ele não chora diante dos amigos de sua mãe (essa informação é importante). Depois, ele retorna à sua cidade, onde encontra um velho interesse romântico seu e resolve sair com ela. Eles se relacionam afetivamente e, eventualmente, encontram um grupo de estrangeiros árabes na praia – árabes que eram considerados cidadãos de segunda categoria naquela época. Por algum motivo – também aleatório – ele resolve andar armado e, por um acaso do destino, ele encontra, sozinho, um desses árabes na praia e o mata, aparentemente por legítima defesa. Ele então é preso.

O que se segue é todo um julgamento de Mersault, e entre idas e vindas dos advogados, entre leques e abanos para afastar as moscas e o calor desértico, e entre acusações e defesas, o protagonista eventualmente é condenado à morte, pelo assassinato do árabe. Mas o que é discutido na história é que, naquela sociedade, matar um árabe não era um crime tão grave assim para condenar alguém à morte. Mas o que o fez parecer um monstro que merecia morrer nas mãos do estado foi o fato de ele não ter chorado no funeral de sua mãe.

Tanto n’O Estrangeiro quanto no The Crucible, o que está em julgamento é o que as pessoas pensam e o que elas sentem a respeito de determinado tema – com consequências desastrosas para ambas as tramas. E o que está em voga hoje com toda essa onda de medo e paranoia contra a corrupção e à favor de uma educação apartidária é exatamente a mesma coisa.

Imagem de criança de vidro do Memórial da Criança não nascida.Coloca-se como justificativa para o projeto a defesa das crianças, que são tão frágeis e em formação e que são vítimas potenciais das ideologias defendidas pelos professores em sala de aula. Este é um projeto que, além de se basear em ideias que não fazem sentido, criminalizam uma das classes mais frágeis da nossa sociedade: os professores. Sim, professores passarão a ser criminosos, pois passarão a cometer todos os dias o crime de “assédio ideológico”, a não ser que ensine coisas que estejam de acordo com as ideologias dos pais dos alunos. Porém, em uma escola com alunos de famílias de diversas origens e crenças diferentes, eventualmente o professor irá ensinar algo que irá contrariar a ideologia de alguém. Entre 40 alunos por sala, lidando com muitas vezes dezenas de salas ao mesmo tempo, um único professor lecionando o mesmo conteúdo, faltamente irá encontrar alguém que irá ser seu acusador e chamá-lo de “bruxo” ou acusá-lo de assédio moral. E sabe o pior? Caso o professor, por motivo justo, dê uma nota baixa para o aluno ou o repreenda na sala, esse mesmo aluno pode muito bem inventar alguma acusação e anonimamente acusá-lo de assédio moral, crime esse passível de prisão e multa.

Mas, tanto os defensores do projeto “Escola sem Partido” quanto da tipificação do crime de “Assédio Moral” tem uma grande defesa: para o professor não se tornar um criminoso, basta que ele assuma postura de “neutralidade ideológica” e apresente todos os lados de uma discussão e dê a chance para os alunos de aprenderem as diferentes ideias e que eles decidam – junto às suas famílias – o que deve ser aceito como certo ou errado. Segundo as palavras do senador Magno Malta, autor pro projeto Escola Sem Partido atualmente no Senado, “os pais precisam ter o direito de que seus filhos tenham sua educação violada na escola. E qual o papel da escola? A escola é, nada mais nada menos, que um lugar que abre janela para o conhecimento.” Mas, ao continuar sua defesa do projeto, percebemos o que está por trás: um medo dos pensamentos de oposição aos seus. E por isso defendem a “neutralidade ideológica”.

Mas o que seria, então, essa neutralidade ideológica? É possível ter uma ideologia neutra? Infelizmente, sim. Mas a “ideologia neutra” não é o que o nome sugere, não é uma ideologia que fica no meio dos polos, sem tomar partido ou posição, fiel a ambos os lados. Ela é sim um ideologia partidária, e fortemente doutrinária. Ao contrário da água que tem o pH neutro – ou seja, não é nem ácido nem básico – a ideologia neutra se posiciona ao lado da ideologia dominante e a defende. Apoiar uma neutralidade ideológica é, necessariamente, apoiar a ideologia dominante. Vou tentar ilustrar.

Verde vs. Azul - a sociedade da ideologia cromáticaVamos supor que em um determinado país existe dois grupos de pessoas, aquelas que gostam da cor verde e aqueles que preferem a cor azul. Neste momento, os defensores da cor verde são maioria representativa em todo lugar: não importa onde olharmos, vemos verde nas paredes, nas roupas e até nos carros das pessoas; pais dão nomes a seus filhos de Verdolino e Verdura e abominam tudo o que é azul, a ponto de preferirem sair de noite e em dias nublados só pra evitar ver o céu. Ou seja, além de defenderem arduamente a cor verde, eles repudiam com todas as forças a cor azul. Quem tem o azar de nascer com os olhos azuis ou usa lentes de contato ou é recriminado por ser da “cor errada”. Já, os que defendem a cor azul precisam se proteger dos ataques e evitam, por mais que gostem, de nomear seus filhos como Azulina e Azuléu. E não encontram nada no mercado que possua a cor azul para poderem comprar, caso queiram, pois a sociedade é predominantemente verde.

Nessa sociedade, com medo do crescente número de pessoas que defendem a cor azul e que dizem que o céu é lindo do jeito que é, começaram a perseguir os azuis nas ruas e a atacá-los. Muitos professores defendem a cor azul – enquanto vários outros, a cor verde. Com medo de que seus filhos aprendam a gostar da cor azul – ou pior, que aceitem ainda outras cores diferentes da verde – os pais iniciaram o movimento “Escola sem Cor”, onde exigem que os professores ensinem suas matérias sem falar na “ideologia cromática”, dizendo que na escola não é lugar de aprender sobre cores e que isso é responsabilidade dos pais. Mas, como então os professores de física irão ensinar ótica e o espectro de luz visível? Como os professores de história vai ensinar sobre as revoltas e manifestações que ocorreram por conta das diferenças de cores? Como os professores de geografia e sociologia vão descrever que nas cidades grandes, os centros são dominados por pessoas que defendem a cor verde, enquanto a periferia possui predominância de pessoas que gostam de azul, além dos guetos e recantos de vermelhos, roxos e amarelos? Bom, para evitar a doutrinação cromática, os professores não podem falar sobre isso.

Ilustração de fábrica com nome de "escola" produzindo crianças encaixotadas em série.E qual o resultado disso? As coisas ficam como estão. Os alunos não vão aprender que cores diferentes fazem parte de um mesmo espectro de luz e que juntas formam a luz branca – e que, se juntarmos a luz verde com azul, teremos luz amarela, mas se juntarmos os pigmentos azul e verde, teremos tinta de cor verde azulado; na verdade, eles não aprenderam sobre cor alguma, pois isso seria assédio cromático. Esses alunos não vão aprender que a defesa das cores causou e causa divisão social e vão poder então aceitar a versão “neutra” de que as pessoas vivem na periferia “porque querem” ou “porque não se esforçam para morar no centro”. A defesa da neutralidade das cores acaba simplesmente solidificando a dominação da cor atual verde, defendida pela família tradicional, e criminalizando qualquer possibilidade de mudança. O resultado é que as crianças sairão formadas de forma massificada, sem possibilidade de pensar diferente justamente porque desconhecem o diferente, por ser proibido.

Defender a neutralidade ideológica não é defender a existência de opiniões e ideias de diferentes lados: é defender apenas o lado atual e dominante. Em uma sociedade capitalista, evitar de estudarmos o comunismo é defender o capitalismo – por mais que existam outras teorias diferentes a essas duas. Evitar que estudemos sobre homossexualidade e transexualidade é defender com unhas e dentes o heterossexismo e cisnormatividade. Evitar de falarmos sobre feminismo e sobre os direitos das mulheres é defender o machismo e o direito de dominação sobre as mulheres. Da mesma forma como evitar de falar sobre o preconceito racial e sobre os efeitos da escravidão no Brasil é permitir que o preconceito seja perpetuado – mesmo que de forma velada – e que os efeitos da escravidão nunca sejam resolvidos. Evitar falarmos sobre o problema é naturalmente defender que o problema não existe e que as práticas atuais estão corretas.

Quem defende a “Neutralidade ideológica” ou a “Escola sem partido” já tomou o seu partido e já tem a sua ideologia: essa pessoa está do lado dominante da sociedade e é contra o lado oprimido e dominado. Quem defende isso acredita na possibilidade de lutarmos contra ideias. Mas, como nos lembra “V” no genial V de Vingança, “ideias são à prova de balas”. Evitar falar de ideologia nada mais é do que evitar falar sobre outras ideologias diferentes da sua, já que a sua já faz parte do seu discurso e da sua postura na sociedade. Evitar falar sobre política é permitir que o grupo político dominante faça o que bem entender com a sua vida e a sua cidade.

Precisamos falar sobre tudo isso e precisamos de ferramentas para lutar contra toda forma de dominação. E a forma que temos para nos proteger da doutrinação ideológica presente nos projetos de “Escola sem Partido” e na tipificação de crime de “Assédio Moral” é justamente o debate, o estudo e o conhecimento das ideologias. Precisamos falar sobre elas para nos proteger delas. A melhor arma contra ideias são outras ideias. Não é evitando o contato com as ideias que nos protegeremos delas, muito pelo contrário: a ignorância é a pior defesa.

Imagem de teatro com os espectadores usando máscaras do filme V de Vingança.

Ao mesmo tempo, ao invés de ficarmos apenas defendendo que todas as ideologias precisam ser ensinadas, precisamos decidir de qual lado estamos e queremos ficar. Precisamos perceber que nossa sociedade – quer queiramos quer não – foi e é dividida entre “nós” e “eles”. Quer juntar tudo em uma coisa só é ignorar as diferenças. Dizer que não existe racismo e que todos somos humanos é ignorar o racismo e ser a favor dele. Dizer que não existe machismo e que todos somos humanos é ignorar e ser machista. Pior do que defender uma ideologia com convicção é defendê-la através da neutralidade, utilizando de subterfúgios argumentativos. Pessoas carregam história e essa história nos mostra o reflexo das segregações sociais. Ignorar isso é ignorar o sofrimento passado por muita gente que sempre ficou à margem da sociedade.

Quer permanecer no grupo do “nós” e deixar os outros no grupo do “eles”? Sem problema. Mas é melhor isso do que falsamente abrir as portas do “nós” para eles entrarem, sem considerar as diferenças entre os dois. Isso sim é assédio ideológico: é dizer que os outros precisam se adequar ao nosso padrão para serem aceitos. Pensar para a maioria apenas é assediar a minoria sim. O esforço não deve ser da minoria se ajustar, mas sim da maioria ser mais empática e modificar-se para acolher as diferenças.

Comments (2)

  1. Excelente texto, todos precisam ler isto.

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