Archives for : Psicologia e Sociedade

O Anacronismo das Ciências Humanas


O tempo passa, mas os pensamentos continuam os mesmos...Estudo e leciono história e epistemologia há alguns anos. E sinceramente, estou ficando cansado das teorias baseadas em pensamentos do século XIX regendo as práticas cotidianas, sociais e políticas do século XXI. Já progredimos e evoluímos muito desde essa época do início da revolução industrial, mas nossa filosofia, sociologia, psicologia e ciências humanas de forma geral ainda se baseiam em pensamentos dessa época. Muita coisa já mudou nas nossas organizações pessoais, já passamos por muitas crises e tivemos muitos experimentos para saber que esses modelos de ciências humanas também precisam passar pelos mesmos processos.

As ciências naturais conseguiram evoluir com suas pesquisas. A física de hoje já não é a mesma do século XIX. A biologia talvez seja a ciência que melhor conseguiu evoluir – talvez por usar a evolução como um dos mais importantes pressupostos. A química o tempo todo está fazendo novas descobertas e mudando até mesmo a forma de compreendermos a sociedade. E por que ainda queremos usar, para embasar as ciências humanas, as ideias do século XIX?

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Uma nova rodada para a “Cura Gay”


Como aconteceria a Cura Gay?Diante da notícia do arquivamento do projeto da “Cura Gay”, vemos que as manifestações populares conseguem mostrar para os deputados qual é o desejo do povo e não só de uma minoria. Pela notícia, parece que o Dep. João Campos resolveu arquivar o projeto, mesmo ainda acreditando nele. Mesmo assim, tem muita gente ainda falando sobre isso, principalmente por conta da desinformação. E quem mais está desinformado é o próprio legislativo! Um dia após o arquivamento pelo autor original, o Deputado Anderson Ferreira, do PR-PE – também da bancada evangélica do congresso – reapresentou o mesmo projeto, sem alterações, pois ele sente que isso ainda precisa ser discutido…

Pois bem, vamos discutí-lo! Um pouco tempo depois de eu ter escrito meu artigo sobre o que há por trás da cura gay, é lançado um vídeo do deputado Marco Feliciano onde ele se propõe a falar “tudo da cura gay”. Até aí, acho ótimo ele também esclarecer os pontos que ao público ficaram vagos. E, de fato, ele começa esclarecendo vários deles!

Mas, ao mesmo tempo, ele nos chama a atenção a respeito da “desonestidade intelectual” que a mídia supostamente faz ao manipular a opinião do público a respeito desse projeto de decreto legislativo. Segundo suas palavras, “desonestidade intelectual: quando querem destruir a imagem de alguém e quando querem que as pessoas pensem uma coisa, quando na verdade é outra”. O mais interessante e tudo isso é que quem foi desonesto intelectualmente não foi a mídia – que no máximo pode-se dizer ignorante dos detalhes. Quem foi desonesto intelectual foi o próprio pastor que manipulou a verdade para “destruir a imagem” da mídia e dos psicólogos a respeito da cura gay. Então, vamos por partes…

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Jiddu Krishnamurti e a Revolução


Em tempos de revolução social, acho interessante vermos um outro lado da história. Jiddu Krishnamurti é um psicólogo indiano que revolucionou muito do pensamento oriental e ocidental e é relativamente pouco conhecido por estas bandas. Tentarei aos poucos trazer alguns fragmentos de seus pensamentos, para servir de base para nossas reflexões.

Esta de hoje é sobre a revolução. Estamos tentando acordar para as realidades sociais, para as mudanças políticas e para a revolução do povo, muitas vezes através de atos violentos. Porém, a verdadeira revolução começa com cada um. Somente quando cada um mudar é que poderemos ver a mudança na sociedade.

A verdadeira revolução não é revolução violenta, mas a que se realiza pelo cultivo da integração e da inteligência de entes humanos, os quais, pela influência de suas vidas, promoverão gradualmente radicais transformações na sociedade. --Jiddu Krishnamurti (1895-1986)

O que realmente está por trás da “Cura Gay”…


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Ainda estamos dormindo e não vamos acordar tão cedo…


Venha para o Brasil, disseram... Será legal, disseram...Com o risco de parecer conspiracionista, preciso esclarecer algumas questões que percebo do que vejo das recentes manifestações no Brasil. E aproveitar para fazer um breve resumo de tudo o que venho pensando ultimamente.

Admito que inicialmente via tudo isso como manifestações populares legítimas, baseadas em críticas reais sobre a forma como o Brasil estava sendo condizido. A final, eu também sou contra a realização da Copa do Mundo em 2014, considerando que não temos infra-estrutura social para isso. Eu também estou de saco cheio da roubalheira, da corrupção dos mandos e desmandos do governo e dos parlamentares.

E quando o povo começou a tomar as ruas incentivados pelo aumento do ônibus, eu achei uma iniciativa bem interessante. E quando a polícia começou a reagir com medo – pois aquelas agressões gratuitas que vimos só pode ser fruto do medo – eu vi legitimidade. Principalmente quando a bandeira levantada era “Não são só vinte centavos”.

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O Eu, o Outro, o Indivíduo e a Sociedade



Qual deve ser o peso da responsabilidade, do indivíduo ou da sociedade?
Hoje percebi que o tema que tem mais postagens minhas é o de Psicologia e Sociedade. E refletindo sobre isso vi que, mesmo este blog tratando de psicologia, tecnologia e tudo mais, meu foco maior está sendo nas questões sociais mais relevantes e – muitas vezes – mais polêmicas. E me perguntei: por que esse meu interesse?

E percebi que o interesse está justamente na desinformação social com relação aos focos e conceitos das discussões. Passo bastante tempo discutindo com pessoas sobre algumas questões sociais, como a violência e os direitos civis, para perceber que muitos – se não todos – os posicionamentos se colocam ou em um ou outro ponto de uma balança bem delicada: o problema maior está no indivíduo ou na sociedade?

Vou pegar como exemplo um dos temas de discussão mais atuais, a diminuição da maioridade civil. Adolescentes mantando pessoas ultimamente têm trazido à tona a discussão sobre se adolescentes merecem ser presos e tratados como adultos pelos crimes cometidos. E muitos argumentos são lançados a favor e contra o assunto. Alguns dizem que o jovem já têm consciência sobre seus atos e merece ser punido, outros dizem que ele é só mais uma vítima dos problemas sociais e que medidas socioeducativas são melhores do que a cadeia. Uns voltam e dizem que prendendo adolescentes os adultos pararão de utilizá-los como bode-expiatório de seus crimes e outros voltam a dizer que cadeia não ressocializa nem diminui a violência urbana.

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Os Bodes Expiatórios e os crimes da sociedade


Culpamos o bode pelos nossos errosOutro dia estava comentando em sala de aula que temos uma cultura do bode expiatório, onde queremos encontrar um culpado pessoal para os problemas da sociedade. Na tradição original do “bode expiatório” na grécia, os pharmakos eram pessoas escolhidas por uma cidade para que elas levassem consigo os crimes e pecados da cidade e eram castigadas com o pior dos castigos da época: o Ostracismo, ou seja, eram banidas da cidade, perdiam a cidadania e nunca mais podiam voltar.

Para entendermos o quão grave era isso para eles, naquela época, vida em cidade era mais importante que vida individual, tanto é que cidades inteiras eram castigadas, como aconteceu com Sodoma e Gomorra, na bíblia ou ainda no mito de Édipo com a cidade de Tebas. Viver sem cidade era viver sem identidade.

Na tradição bíblica, todo pecado – seja ele da cidade ou do indivíduo – precisava ser pago com a morte. Eles resolveram que, ao invés de matar o pecador, essa pessoa sacrificaria um bode que morreria pelo pecado da pessoa e assim o mandamento de que todo pecado seria pago com a morte estava sendo cumprido. O cristianismo modifica isso pois eles aceitam o sacrifício de Jesus como sendo o sacrifício definitivo para todo o pecado do mundo, então a partir daí, ninguém mais precisa morrer por conta do pecado.

Então temos aí um padrão mítico, do mito do bode expiatório, onde uma pessoa acaba se responsabilizando – ou levando a culpa – pelo grupo: uma pessoa pagando pelos crimes e erros de um grupo todo. E, por mais que isso pareça algo de uma mentalidade antiquada, esse é o padrão que eu mais vejo pelo mundo atualmente, o que nos diz que nós temos ainda uma mentalidade antiquada.

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Anestesia ou Hiperestesia social com relação aos homossexuais?


Vivemos anestesiados socialmenteParece estranho esses termos médicos sendo utilizados para tratar de questões sociais, principalmente por alguém que critica a medicalização da sociedade. Mas os termos anestesia e hiperestesia, antes de serem da medicina – relacionando a efeitos de fármacos ou sintomas clínicos – são conceitos da estética.

Estética é o ramo da filosofia que trata das impressões dos sentidos, da percepção, da beleza e da arte. Durante muitos séculos, a filosofia vem tratando de questões estéticas, até mesmo questionando se a beleza é algo exterior, objetivo ou é interior e depende do observador. É claro que não chegamos a um consenso e existem defesas para os dois lados. Mas a questão aqui entra não nos padrões objetivos/subjetivos da estética, mas sim na sua falta ou em seu exagero.

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A Psicofobia e o Diagnóstico em Saúde Mental


Como devemos tratar quem sofre?Quem me conhece e conhece meu blog sabe que eu defendo encontrarmos alternativas aos tratamentos medicamentosos dos transtornos mentais. Isso porque não acredito na eficácia dos remédios para tratar transtornos mentais. Mas isso acabou trazendo um problema anexo: a psicofobia.

Psicofobia é o medo, preconceito ou repulsa a pessoas que foram diagnosticadas com transtornos mentais. Em outras palavras, se eu mostro indiferença a uma pessoa dita “bipolar” ou à sua condição posso ser chamado de psicofóbico, de não reconhecer seu sofrimento. Mas aqui existe uma diferença entre a condição e seu tratamento ou diagnóstico e infelizmente temos essa grande confusão.

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