Archives for : Psicopatologia

Uma breve história dos psicofármacos


Philippe Pinel ordena a retirada das correntes das pacientes internas em Salpêtrière. Clique para ver a imagem maior.Para compreender os efeitos da medicalização, precisamos compreender o que são e de ondem vêm os psicofármacos. Psicofármaco é um nome genérico que se dá a qualquer remédio que possui efeito exclusiva ou principalmente comportamental, um psicotrópico. Mas de onde veio a busca por remédios que têm esse efeito?

Tudo começa no século XIX. Na real, tudo começa antes, mas vamos olhar a partir dos anos de 1800. Nessa época, a ciência se consolidou como a ferramenta da busca da verdade e ela se consolida baseada em um paradigma naturalista e materialista, ou seja, a ciência trabalharia com áreas exclusivamente materiais e naturais, evitando questões filosóficas e espirituais, por exemplo. Isso acaba por fortalecer muitas áreas, como a física, biologia e até a medicina. Mas uma área da medicina não se fortalece tanto assim, a psiquiatria.

A psiquiatria, desde um século antes com Philippe Pinel, é a área da medicina que se preocupa em cuidar dos doentes mentais. Foi com Pinel que problemas relacionados à loucura passou a ser considerada doença, o que para a época foi um grande avanço, pois até então os loucos ou eram vistos como malandros ou como possuídos por demônios. De qualquer forma, eles deveriam ser deixados de lado e não socializados. A psiquiatria começou a reintegrá-los à atenção social, mostrando que a loucura era um problema de saúde.

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O Problema da Medicalização da Vida


Será que precisamos de remédios para tomar as nossas decisões de vida?Quem me conhece sabe que sou contra uma série de coisas. Uma delas – e talvez aquela com a qual estou atualmente debatendo e estudando – é o problema da medicalização. Entendemos por isso todo o processo de tornar médicos os nossos problemas da vida normais. O que isso quer dizer? Que tudo aquilo que antes eram sofrimentos, problemas e angústias agoram passam a ser doenças tratáveis através de remédios e tratamentos médicos.

Isso pode parecer uma coisa boa, já que podemos, através de pílulas, resolver nossas angústias e crises, mas na real isso é um grande tiro no pé. A medicalização acaba por se apresentar como um problema maior do que sua suposta solução. E, ao final de tudo, junta-se uma grande questão que precisa ser re-pensada, ou seja, pensada várias e várias vezes: qual o limite que demarco para o uso de drogas para controlar o meu comportamento?

Drogas que controlam o comportamento?

Sim. Os remédios psiquiátricos possuem efeitos muito semelhantes às drogas ilegais como cocaína ou heroína. Vamos, neste momento, falar basicamente dos remédios psiquiátricos, se bem que esta discussão pode servir para o abuso dos outros remédios – e os problemas da auto-medicação.

Hoje em dia muita gente utiliza remédios prescritos por psiquiatras e outros médicos com efeitos antidepressivos (para controlar a depressão) ou ansiolíticos (para controlar ansiedade). Outros ainda tomam remédios mais fortes como antipsicóticos (para controlar surtos de psicose) e anticonvulsivantes (para controlar convulsões epiléticas) para controlar comportamentos mais fortes como compulsões ou alterações forte se humor. A grande questão que se coloca aqui é a utilização de fármacos ou remédios para o controle de comportamentos indesejados. Mas é interessante descobrir de onde veio tudo isso…

Este texto, por ser muito grande, foi dividido em várias postagens, mas recomenda-se que todas elas sejam lidas. Por isso deixarei aqui um breve índice desses textos:

1- O problema da medicalização da vida

2- Uma breve história dos psicofármacos

3- Os efeitos dos medicamentos na vida

4- O uso dos psicotrópicos e a sociedade

Peço que, antes de criticarem, tentem ler todos os argumentos até o final. Sei que é bastante coisa, mas precisamos de todas as informações possíveis para sabermos do que estamos falando, não só da nossa opinião e experiência individual.

O Marketing da Loucura: Estaremos todos insanos?


Atualmente tomamos muitos medicamentos. Entenda aqui como isso aconteceu...Recentemente descobri um documentário que me deu muito o que pensar. Muito do que diz lá eu de certa forma já sabia, mas muitos argumentos são novos e assustadores. Trata-se de O Marketing da Loucura: Estaremos todos insanos?

O documentário trata principalmente sobre a relação da indústria do marketing com a indústria farmacêutica, de sua busca por lucros cada vez maiores e, principalmente de suas vítimas, os pacientes psiquiátricos. Alguma coisa sobre isso já foi dito aqui em diversos posts, mas talvez com este documentário os argumentos fiquem mais claros e evidentes. A final, são quase três horas de informação! Mas são três horas que realmente valem a pena…

Alguns dos pontos mais interessantes que o documentário mostra é o desenvolvimento histórico do uso dos medicamentos psicotrópicos, o motivo por trás disso e seu real funcionamento. O que me chamou bastante a atenção é a relação criada entre os medicamentos e as doenças, quase como se uma doença passasse a existir ou a ganhar reconhecimento não por sua gravidade ou seriedade mas sim porque existe um remédio no mercado para tratar a doença. Percebemos isso com a depressão, que só deixou de ser considerada “frescura” e ganhou status de doença mental na década de 80, com o lançamento do Prozac. Ou ainda o abuso do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, o TDAH, com as prescrições de Ritalina – um estimulante com o mesmo funcionamento da cocaína. O mais atual agora é o Transtorno Bipolar, um transtorno já discutido há algum tempo, mas agora com os novos medicamentos, praticamente todos são diagnosticados com esse transtorno, mesmo sem apresentar os sintomas…

Assita aqui o documentário inteiro!

Uma coisa que me chama a anteção é a seriedade com a qual a população trata algo que não é tão sério assim. As ditas “doenças mentais” são uma forma médica de compreensão do sofrimento humano. A humanidade sempre sofreu e sempre sofrerá, mas parece que cada vez mais não podemos passar por isso. Medicalizamos o sofrimento e transformamos isso em doença tratável. Mas, qual é o problema em sofrer? Não posso mais ficar triste? Desde quando tristeza, mesmo a profunda, é doença?

São várias perguntas que, quando conhecemos os fatos por trás, nos deixam de cabelo em pé. E percebemos que existem muito mais questões junto a essas. É claro que o documentário apresenta várias restrições, principalmente com relação à fundação dos argumentos, por exemplo, os profissionais consultados não são apresentados com suas filiações acadêmicas e também ao final de todo o problema ser apresentado, o documentário não mostra uma solução possível além da divulgação do mesmo documentário. Mas mesmo assim, os argumentos nos dão muito o que pensar e bastante material para refletir. Não sei se alguns desses dados conferem, mas mesmo assim vale a pena refletir sobre isso. Gostaria de iniciar uma discussão por aqui. Assista ao vídeo e deixe sua opinião!

Ainda um pouco mais sobre bullying


O problema do bullying nunca é só o bully...Bullying é um tema controverso, polêmico e atual, tanto é que fui convidado pelo pessoal do Papo de Gordo para gravar um podcast sobre bullying! A conversa foi muito bacana e foi muito bem recebida. Porém, como todo papo polêmico, teve bastantes controversas. Caso queira ouvir o cast original, sigam este link. E neste, vocês poderão acessar o episódio onde foi lido alguns comentários sobre o episódio de Bullying.

Como toda boa conversa, esse cast sobre bullying rendeu muita conversa e repercussão… Esperava que fossem repercussões positivas e criativas, mas infelizmente percebo que houve mais desinformação do que diversão. Só lembrando que, por mais que o tema do cast seja sério, a proposta sempre foi ver as coisas por um lado mais leve – ao menos a minha proposta ao participar do programa era mostrar que, por mais sério que seja um problema, podemos aprender a ver as coisas por outros ângulos.

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Esteróides e outras drogas


Qual a verdade dos esteróides e outras drogas?Recentemente me deparei com um documentário no Youtube sobre esteróides anabolizantes. De cara, o tema não me interessou, pois o universo dos anabolizantes não é próximo ao meu. Porém, percebi que o documentário na realidade se tratava da cultura dos Estados Unidos, que centrava em torno da força e do poder e que os anabolizantes eram somente um fator envolvido. Então resolvi assistir.

E de cara, me deparei com questionamentos não só sobre a supervalorização do corpo perfeito ou dos excessos, mas também sobre a hipocrisia do uso de modificadores ou otimizadores corporais, que eles chamam de “enhancers”. Basicamente, a cultura daquele país – que acaba moldando muito da cultura do nosso também – valoriza o uso de produtos químicos para melhorar ou otimizar o trabalho. Um deles são os anabolizantes. Outros incluem os psicofármacos. E aqui começa o meu verdadeiro interesse.

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Medo, Fobia e Pânico


Você tem medo de quê?Ouvindo mais um podcast, desta vez do amigo Eduardo Sales Filho, o Papo de Gordo, com o tema de sustos, medos e fobias, me deparo com uma pergunta direcionada a mim! O objetivo deles não era definir ou dar explicações precisas sobre o que são medos e fobias, mas invariavelmente eles precisaram falar sobre o conceito. Então eles tocam no assunto do pânico e querem saber o que é isso, já que popularmente refere-se ao pânico como um medo enorme. É então que eles citam o meu nome e pedem para que eu explique. Pois bem, aqui vai a explicação: (caso você queira ouvir o episódio antes e ouvir a pergunta, clique aqui)

Basicamente, medo é uma reação natural do organismo a coisas que nos ameaçam. Faz parte do nosso instinto de sobrevivência e pode ser relacionado inclusive ao instinto de agressividade. Geralmente, diante de ameaças ou nós atacamos ou fugimos, ou somos agressivos ou temos medo. Tanto o medo quanto a agressividade são regidos neurologicamente por um gânglio cerebral chamado de amídala. E, psicologicamente, a diferença entre os dois é bem sutil, ao ponto de você poder pensar que uma pessoa agressiva também tem bastante medo (lembrando até o que o nosso amigo Vanassi relatou no podcast de ele ficar agressivo quando leva sustos).

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Chapeuzinho Vermelho, os Atalhos da Vida e o Lobo Mau


Lobo MauContos de fadas não são só histórias para crianças. Elas trazem noções universais sobre o ser humano e nossa condição de vida que valem para todas as pessoas em todas as épocas e todos os tempos. Não é à toa que grande parte dos contos de fadas sobrevive há séculos entre nós. Não vou entrar aqui no mérito dos “contos de fadas politicamente corretos” – ainda – pois esse não é o nosso foco no momento. O que quero mostrar é o valor que essas histórias – em seu original – têm para nossas vidas.

Os contos trazem, representados em seus personagens, valores e atitudes humanas. Elas trazem noções arquetípicas, ou seja, apresentam padrões de comportamento universais e atemporais. De certa forma, elas funcionam muito como mitos ao fazerem isso (para mais sobre mitos e mitologia, aconselho ouvirem o Papo Lendário).

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Quem observa os observadores: Mídia e Psicopatologia


Quem observa os observadores?Faz um tempo tenho observado algumas propagandas e como elas vendem seus produtos. É claro que é objetivo do publicitário ao produzir essas campanhas de vender a imagem do produto, mas acredito que muitas vezes eles pegam um pouco pesado. Eles acabam vendendo algo que não precisaria vender e criam necessidades desnecessárias.

O que mais me chama a atenção é o excesso de propagandas que vendem a felicidade. Sejamos sinceros: ninguém consegue vender felicidade porque, como diz o clichê ditado pupoplar, dinheiro não compra felicidade! Isso porque felicidade é um sentimento que temos ao alcançarmos objetivos de vida, sejam eles simples ou complexos. A felicidade que temos ao comprar vem do fato de a compra ser um objetivo que alcançamos. Mas felicidade mesmo não pode ser comprada ou vendida ou mensurada ou feito nada com ela além de ser sentida e vivida.

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Quem observa os observadores? Uma Introdução


Who watches the WatchmenQuis Custodiet Ipso Custodet” é uma frase muito antiga do poeta romano Juvenal que quer dizer literalmente “Quem vai guardar aqueles que guardam” ou às vezes, “quem observa os observadores”. Essa frase, para quem assistiu ao filme Watchmen ou leu a graphic novel, sabe que essa frase aparece algumas vezes como forma de protesto contra os heróis mascarados. O engraçado é que em nenhum momento da história eles são chamados de Watchmen (ao menos no original do Alan Moore), mas esse nome vem justamente da referência a essa frase.

Mas, independente de Alan Moore, essa frase reflete um pouco em como pode ser nossa vida na internet. Quem possui vida online é constantemente observado. Ao mesmo tempo, também observa. Vale ver como funciona, por exemplo, o Orkut. Lá, cada vez que olhamos o perfil de alguém, o sistema avisa o observado quem o observou. Somos constantemente vigiados.

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Uma breve história das doenças mentais*


Os transtornos mentais sempre acompanharam a humanidade.Desde que as pessoas se reconhecem enquanto pessoas, existe a percepção de comportamento normal, padrão e comportamento desviante. Em diferentes momentos da história, esses comportamentos desviantes receberam vários nomes e classificações.

Para os antigos, alguns desses comportamentos eram vistos como sinais de deuses, tanto positivos quanto negativos. Alguns casos de esquizofrenia, por exemplo eram vistos como sinais de profetas.

Com a influência do cristianismo na cultura ocidental, esses mesmos comportamentos passaram a ser vistos como sendo negativos e influenciados por demônios. A depressão, por exemplo, dizia-se que era influenciada pelo demônio do meio-dia. Como a Igreja tinha bastante influência na sociedade, essas pessoas eram ou abandonadas por estarem possuídas ou eram levadas a igrejas para serem exorcizadas.

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