Archives for : Tudo mais

Uma breve reflexão sobre as cotas


CotasDeixe começar dizendo que eu era contra cotas raciais justamente por acreditar na meritocracia. Achava que a questão da faculdade deveria ser centrada na produção de conhecimento e apenas os melhores – independente da origem – deveriam participar. O mesmo deveria servir para o mercado de trabalho, que só deveria selecionar os melhores para cada cargo ou posição. Estudei em colégio americano minha vida toda e aprendi sobre o sistema de cotas dos EUA e achava estranho as ações afirmativas e não via evidências de que elas funcionavam. Inclusive, vi casos de universidades que usavam de ações afirmativas e deixaram de usar, justamente porque não serviam ao propósito desejado. Na maioria das vezes as ações afirmativas acabavam servindo basicamente como publicidade para grupos minoritários, mas isso não refletia na qualidade do ensino.

Eu era contra as cotas. Estudei na UFPR, passei no vestibular por mérito, junto com outros colegas meus. Alguns passaram melhor, outros, pior. Eu cheguei até a passar acima da média, sendo aprovado em 28º de 80 vagas. Mas uma vez dentro da universidade, eu realmente não conseguia perceber a diferença entre o 1º e o 80º colocado no vestibular. Durante minha graduação eu estudei com pouquíssimos colegas negros – e isso que na minha sala não tinha nenhum, somente alguns poucos pardos. Mas ainda assim eu achava que ali estavam os melhores dos melhores. Até ver o resultado disso.

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O que Aprendemos com a Mentira


O que aprendemos com a mentira?Desde quado eu assisti ao filme “O Primeiro Mentiroso” (ou “A invenção da Mentira”, The Invention of Lying, 2009) do comediante inglês Ricky Gervais pela primeira vez, tenho pensado bastante sobre a mentira. Não só nas consequências danosas que percebemos quando nos deparamos com uma mentira, mas sim os motivos que levam as pessoas a mentirem. Em outras palavras, por que as pessoas mentem? O mais legal é que a resposta não é a que a gente mais imagina.

Se perguntarmos por aí “Por que as pessoas mentem?” a maioria das respostas que vão nos dar é “porque as pessoas querem enganar” ou “querem ganhar vantagem” ou até mesmo “porque não gostam de você” ou “porque são pessoas más”. Mas isso não são os motivos que levam as pessoas a mentirem. Isso é o que elas ganham ao mentirem. O motivo é outro e é muito mais simples: as pessoas mentem porque foram ensinadas a mentir. Simples assim.

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O Direito de Lutar pelo Direito do Outro, ou como falta empatia entre nós


minoriasNunca antes na história mundial, o problema dos direitos das minorias está tão em voga. Alguns dizem que é por conta das políticas sociais do atual governo. Outras, que é por conta da facilidade de comunicação nos tempos atuais, que permite maior visibilidade daqueles que antes estavam escondidos. Eu acredito mais nessa segunda alternativa, principalmente porque estamos tendo acesso aos dilemas de minorias de países que não possuem as mesmas políticas sociais que nós, como o problema dos refugiados na Europa.

O mais interessante é que ─ independente de qual minoria estamos falando ─ o debate sempre se polariza em dois lados: aqueles que são contra a minoria e aqueles que são à favor da minoria. Do lado dos que são contra, basicamente o argumento é sempre o mesmo: dar mais direitos para as minorias coloca em risco os direitos adquiridos da maioria. E do lado dos que são favoráveis, os argumentos sempre variam em torno do eixo humanitário, de ajuda daqueles que precisam ser ajudados. Mas esses dois lados quase sempre esquecem de perceber quais são as necessidades reais dessa minoria.

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Determinismo Biológico, Determinismo Social e o Poker


O poker será utilizado como metáfora, para compreendermos a relação entre biologia e sociedadeSemana passada participei de um Anticast sobre Determinismo Biológico X Determinismo Social onde conversei com um biólogo e um médico que defendiam o determinismo biológico e eu e uma arquiteta – junto com o host, um designer – que defendíamos o determinsimo social. Logo no começo da conversa eu disse que, para provocar mais, iria defender argumentos sobre o determinismo social, apesar de já ter defendido um ponto biológico sobre o comportamento humano logo no início. Devo dizer que meus argumentos não foram bem recebidos, talvez por não serem bem compreendidos. Mas também, para esclarecer, não concordo com a visão dicotomizada que apresentei – por mais que reconheça a necessidade de apreender esses argumentos para melhorarmos as nossas críticas.

A disputa entre essas duas visões é, de fato, complexa e controversa. Não existe nenhuma forma de determinarmos com clareza onde termina a influência da biologia e onde começa a da sociedade quando falamos sobre comportamento humano em suas mais variadas formas. Porém, já escrevi aqui a respeito do tema – ao falar sobre sexualidade – defendendo não um lado biológico ou cultural, mas sim uma perspectiva humana e subjetiva. Diante do debate feito no Anticast (que recomendo que ouçam, se possível), gostaria de retomar a discussão, mas desta vez, gostaria de fazê-lo através de uma metáfora, o poker. 

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A Culpa não é da Terceirização


Terceirização pode ser a solução e não o problema?E antes que me critiquem, já digo de quem é a culpa: das condições precárias de trabalho que temos – que independem de regime de contrato.

Temos problemas com a terceirização? Claro que sim. Mas temos problemas também com as contratações celetistas – com carteira assinada e todos os direitos garantidos por CLT e convenções sindicais. Mas, ultimamente, muito por conta do projeto de lei 4.330/204, a lei da terceirização, muitas críticas estão sendo feitas à terceirização em si, demonizando essa forma de contrato de trabalho – quando na verdade, o problema é que as condições de trabalho no Brasil e em boa parte do mundo não são as melhores possíveis.

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A Menina e os Sapos, ou O que os olhos não veem, o coração sente.


Era uma vez uma menina...Era uma vez uma menina. Todos diziam que ela precisava encontrar seu príncipe encantado. Ela então leu que alguns sapos, quando beijados, tornam-se príncipes encantados. Ela então resolveu procurar esses sapos.

Mas ao se aproximar dos batráquios, ela começou a observá-los, pois queria saber a melhor forma de convencer a um deles a se transformar em seu príncipe. Ela ficou durante um bom tempo à distância, só observando. E quanto mais observava, mais gostava dos sapos. Gostava tanto que não queria que eles se transformassem em príncipes. A menina queria que os sapos fossem o que são: sapos.

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A Psicologia Analítica e o Tratamento da Drogadição


Como lidar com as drogas, seus usuários e o mundo a sua volta?Recebi um email de um ex-aluno me fazendo uma pergunta muito bacana que gostaria de compartilhar aqui no blog – não só pelo interesse acadêmico da questão, mas também para que os leitores possam perceber que existem várias alternativas aos tratamentos dos problemas psicossociais. Reproduzo abaixo o email, com algumas ligeiras alterações:

Olá, professor,

Sou um ex aluno seu e trabalho com dependentes químicos. Gostaria de saber qual  o olhar da Psicologia Analítica para o ser humano dependente químico, a estrategia terapêutica, etc. Por exemplo, a Psicologia Comportamental vai olhar  as contingencias do sujeito, fazendo um analise do seu comportamento operante, quais os reforçadores que mantêm ou estingue comportamentos, etc… Em relação ao  terapeuta junguiano, o que ele deve olhar, como seria sua estrategia terapêutica?

Aprendi muito com você em sala de aula, imagino q vai poder me ajudar nessa também…

Abraços!

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O Valor de uma Psicoterapia: Teoria Vs. Prática – Resposta a Joustou


Qual seria a chave da compreensão da psicoterapia: a teoria ou a prática?Mais um comentário que traz um debate interessantíssimo e extremamente relevante para compreendermos as bases de uma prática psicoterapêutica. A final de contas, o que dá o valor a essa prática, sua base epistemológica ou seus resultados práticos? O leitor Joustou traz essa provocação no seguinte comentário:

Ao ler o post, mesmo sendo antigo, eu como estudante de psicologia tive um insight: a psicologia se importa mais com debates epistemológicos, isto é, uma posse do conhecimento sobre a subjetividade humana, do que nos seus resultados práticos. Se o terapeuta consegue auxiliar o indivíduo em seus problemas, o conduzir ao autoconhecimento e uma vida mental mais saudável, que diferença faz se o ser humano é determinado pelo ambiente, pelo inconsciente, pela cognição, se busca a autorrealização, se é produto de uma sociedade ou de um tempo histórico? A psicologia por ter como objeto de estudo a subjetividade humana, em suas discussões teóricas parecem mais com uma discussão filosófica, tal, como por exemplo, a natureza do ser, que é questionada desde os gregos, mas que de valor prático nada tem. Quando se pensa no valor prático da psicologia, seja na clinica, na empresa, seja na escola, as teorias devem tornar-se técnicas empregadas para o alcance de algum objetivo, e seja o seu teórico de referencia FREUD, JUNG, SKINNER, ROGERS, BECK, VIGOTSKY,PIAGET,o que importa sim é o resultado. São os resultados práticos que devem justificar a teoria explicativa, e não a teoria justificar o por que o seu emprego prático deve funcionar e as outras não.

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Direitos Iguais e a Transformação da Família


Direitos matrimoniais iguais é um movimento de escala mundial.Recentemente li um argumento bem interessante sobre o problema do casamento gay ou da “igualdade de direitos” para os homossexuais que realmente me fez pensar que ele é de fato um risco para a família tradicional. Infelizmente, não me lembro a fonte, mas tentarei reproduzir aqui as minhas reflexões a respeito desse argumento.

Durante muito tempo construímos uma imagem de sociedade tal que inclui não somente a visão da “família nuclear” pai-mãe-filho, mas também papéis sociais para pais e mães e filhos. Cada um tem sua responsabilidade não só na família, mas também na sociedade. Quando homossexuais exigem direito de casamento, eles exigem poder participar desses papéis sociais permitidos para as famílias heterossexuais. O problema é que eles não se encaixam. Se a família nuclear é pai-mãe-filho, quando dois homens se casam, teremos o que, pai-pai-filho, teremos uma família sem mãe? O mesmo quando duas mulheres se casam, teremos uma família com duas mães e sem pai? Ou será que uma dessas pessoas assumirá o papel oposto? 

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A Psicologia e os Modelos de Conhecimento: reflexões sobre depressão e farmacologia


Como será que diferentes pensamentos sobre psicologia podem conversar?Devo admitir que a repercusão de algumas ideias vai mais além do que imaginava, mas isso é algo bom! Algumas ideias realmente são difíceis de serem compreendidas e eu trabalho bastante com elas. Por muitas vezes meus alunos demonstram dificuldades em compreender algumas questões diferentes, justamente por partir de modelos de conhecimento que não estamos acostumados. E isso pode trazer vários problemas para a compreensão geral das discussões.

Trabalho com psicologia analítica, psicologia existencial e fenomenologia, além de estudos de fenomenologia da imaginação e estudos do imaginário, o que implicam em uma série de pensamentos e formas de pensar que diferem bastante das formas tradicionais de pensamento e de conhecimento. É isso que me refiro quando falo em um “modelo de conhecimento”. E existem vários modelos diferentes que pegamos de “empréstimo” para servir para a nossa forma de conhecer o mundo. 

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