Archives for : Contos e Ensaios

A Menina e os Sapos, ou O que os olhos não veem, o coração sente.


Era uma vez uma menina...Era uma vez uma menina. Todos diziam que ela precisava encontrar seu príncipe encantado. Ela então leu que alguns sapos, quando beijados, tornam-se príncipes encantados. Ela então resolveu procurar esses sapos.

Mas ao se aproximar dos batráquios, ela começou a observá-los, pois queria saber a melhor forma de convencer a um deles a se transformar em seu príncipe. Ela ficou durante um bom tempo à distância, só observando. E quanto mais observava, mais gostava dos sapos. Gostava tanto que não queria que eles se transformassem em príncipes. A menina queria que os sapos fossem o que são: sapos.

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Um primeiro contato com o outro lado: um ensaio de um conto em primeira pessoa


Um primeiro contato com o outro lado...Então, faz um tempo estou ensaiando voltar a escrever contos para praticar um pouco mais para eventualmente escrever algo mais complexo. Tenho escrito basicamente artigos e textos acadêmicos nos últimos anos e gostaria de variar um pouco. Então, no início desta semana escrevi um conto-ensaio que chamei de “Um primeiro contato com o outro lado”. É relativamente curto e simples, mas meu foco é ensaiar o estilo narrativo em primeira pessoa no presente, como se o leitor estivesse ouvindo os pensamentos do narrador e só isso. Quero testar com outras histórias depois e ver como funciona. É claro que esse estilo tem tudo a ver com psicologia, já que o foco da narração não é o evento narrado, mas sim o pensamento e sentimento do narrador-personagem. Se alguém tiver alguma opinião a dar sobre o conto, sinta-se à vontade!

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Fantasmas na escada


Fantasmas...Não é um conto, não é uma história, mas é baseado em fatos reais. Este foi um sonho que eu tive faz muitos e muitos anos. Eu devia ter no máximo seis anos de idade. Mas é um sonho que me persegue até hoje. Depois que o sonhei, nunca mais voltei a sonhá-lo, mas nunca mais me esqueci desse sonho…

Não sei se é o sonho mais antigo que tive do qual me lembro, pois tenho lembranças de outros sonhos da mesma época. Mas esses outros sonhos não voltam em diferentes formas para me assombrar. De certa forma, isso pode ser bastante comum, pois os sonhos revelam muito da nossa personalidade e da nossa vida, não só do que estamos vivemos ou do que vivemos antes, mas também do que podemos e vamos viver. Não estou aqui fazendo referência aos sonhos premonitórios, mas sim aos sonhos prospectivos.

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Ensáios sobre Bistromática 1: A vida, o universo e tudo mais!


A vida, o universo e tudo maisÉ incrível como algumas coisas na vida nos fazem pensar em quão irracionais e não-absolutos são os números e o comportamento humano. Vendo alguns eventos recentes com alguns amigos e pensando sobre alguns planos pessoais sobre novos podcasts que não sei se terei tempo em realizar, percebi que Douglas Adams já falou sobre um possível caminho para resolver alguns desses problemas. É claro que a aplicação apresentada para esse caminho era a propulsão de naves transgaláticas (ou seja, capazes de atravessar a galáxia), mas talvez isso possa ser aplicado ao estudo do comportamento humano. Estou falando sobre a Bistromática.

Segundo o autor (em livre tradução minha), no livro A Vida, o Universo e Tudo Mais:

Bistromática é, em si, uma nova e revolucionária forma de compreender o comportamento dos números. Assim como a teoria da relatividade geral de Albert Einstein observou que o espaço não é um absoluto e depende do movimento do observador no tempo e que o tempo não é um absoluto e depende do movimento do observador no espaço, assim agora também percebe-se que os números não são absolutos, mas dependem do movimento do observador em restaurantes.

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O tempo que não tenho


Passei os últimos dias enrolados com coisas e projetos e trabalhos e coisas a fazer. Queria ter mais tempo pra me dedicar ao blog, mas acabo me enrolando com outras coisas e não escrevo tanto quanto gostaria! Às vezes acho que me falta disciplina mais do que tempo…

Disciplina é a chave para a liberdade. As pessoas acham que liberdade é fazer o que quiser quando quiser e que isso não requer disciplina. Mas se não temos disciplina, dificilmente seremos livres para fazer qualquer coisa! Sem disciplina nos perdemos nos nossos afazeres, nos distraímos por qualquer coisa e não conseguimos fazer o que queremos. Disciplina é respeito pela escolha e respeito pelo tempo. O fazer precisa de um certo tempo para ser feito e se não temos disciplina, não respeitamos esse tempo. E sinceramente, sem respeito não temos responsabilidade e não temos liberdade.

O tempo que não tenho diz muito a respeito não do que não consigo fazer pois tenho muitos afazeres que me prendem e não me deixam escolher. O tempo que não tenho diz mais sobre o respeito e a responsabilidade que dedico ao tempo para aí sim fazer as coisas que quero.

Não preciso então procurar o tempo que não tenho, pois esse tempo está e sempre esteve aqui. Mas para que eu possa ter este tempo eu preciso me dedicar mais a ele, preciso ter mais disciplina, ser um pouco mais responsável com ele. Preciso me dedicar às coisas que eu preciso fazer para terminá-las e aí sim ter tempo para fazer as coisas que quero. Ser livre não é só fazer o que queremos, mas sim fazer o que precisamos. Como uma vez disse um grande pensador, “liberdade é fazer bem feito o que precisa ser feito” e não só fazermos o que gostamos, o que queremos. Precisamos fazer o que não gostamos também e realizar aquilo que precisa ser realizado, mas fazer bem feito tudo isso! Mesmo que isso signifique sermos mais disciplinados com o tempo que não temos…

Desejo…


Fazia tempos que não chovia tanto assim. De certa forma, a chuva era reconfortante. Enchia todos os ambientes de som e um cheiro gostoso de chuva. No campo tudo fica mais gostoso. A única coisa que não era bom era sua solidão.

Estava sozinho. Estava se dedicando ao seu livro e por isso queria solidão. O livro estava saindo melhor do que se estivesse na cidade, mas mesmo assim ele sentia falta de uma companhia, uma outra pessoa que fosse, nem que fosse só para olhar e admirar. Por isso gostava muito de dormir. Em seus sonhos ele era visitado por todo tipo de pessoas e isso ao menos o confortava.


Ele preparou uma caneca de chocolate quente e foi até a varanda admirar a chuva caindo na grama e formar pequenas poças de água. As goteiras eram ritmadas e vê-las e ouvi-las lhe era muito bom. Pareciam o galopar de uma tropa de cavalos, mas não em qualquer lugar, mas sim na praia, com as ondas quebrando a seus pés. Ele podia vê-los correndo, sem dono, sem destino. Era só fechar seus olhos.

Mas nisso ele também a via. Não conseguia ver seu rosto, mas sabia que era ela. Ela chorava, ou não. Era difícil saber quando se está sonhando. Mas parecia um anjo. Tudo o que ele queria era estar com ela, mas estavam longe. Por isso gostava de sonhar, pois nos sonhos ele podia ao menos a ver. Nunca sabia o que dizer. Para ele era estranho isso, pois estava escrevendo um livro, um romance, repleto de personagens e histórias de amor. Mas quando isso falava sobre sua própria vida, ele não sabia o que dizer. A única coisa que sabia fazer era olhar e admirar, mesmo em seus sonhos.

Fazia quase uma semana que chovia direto. Mas era uma chuva fraca e de vez em quando parava por alguns minutos. Pareciam lágrimas do céu lavando a terra. Quando acabou seu chocolate quente, ele voltou para dentro e pensou consigo mesmo por que será que ela sempre estava triste em seus sonhos? Ela não tinha motivos para isso, a final, ela era amada por ele e era tão linda. Mas mesmo assim estava triste. Mas quem tinha motivos para estar triste era ele que estava sozinho naquela casa afastada de todos, inclusive dela. Mas ela também estava sem ele. Então ele percebeu que ela também poderia estar triste, que ela também poderia desejá-la.

Correu para o telefone que estava desligado desde o dia em que chegara. O colocou na tomada e discou seu número. Não sabia o que iria falar, mas ele precisava ao menos mostrar que também a amava, que não havia se esquecido dela. Amar em segredo é fácil pois não se cai em erros. O difícil é quando precisamos mostrar isso. E a beleza está justamente na possibilidade de errar…

Originalmente publicado em: 08/07/2007

Eternidade…


O asfalto estava especialmente cinza aquela noite. Seus sapatos faziam um som típico quase inaudível mas para ela extremamente perceptível. Foram dados de presente em 1832 pelo duque de qualquer coisa ela não se lembrava mais já fazia muito tempo. Sua única companheira era a lua na verdade a única companheira que ela tinha havia muito tempo. Um dia ela amou.
Mas já faz tanto tempo também. Mas isso ela não esquece foi quando ela sentiu mais calor em seu coração frio e duro. Ele a amava também. Ela nunca imaginou ser possível sentir algo assim principalmente porque ela estava condenada a não amar. Ao menos agora isso é certo.

Ela vê um cartaz num poste anunciando um filme passa rápidamente os olhos e continua. Ela poderia fazer esse caminho de olhos fechados já tantas vezes por ele caminhado. O frio incomodaria as outras pessoas mas não ela já que ela era frio. Sentia sede.

Não havia mais ninguém nas ruas. A final não é seguro caminhar às 4 da manhã nas ruas do centro da cidade. Nunca se sabe quem pode aparecer de surpresa nunca se sabe o que pode acontecer de surpresa. Mas nada mais a surpreendia. O vento soprava e balançava seus longos cabelos negros que acariciavam seu pálido rosto. Delicado. O vento parecia seu amante. Frio e delicado. Ela sentia o vento beijar os seus lábios.

Seus lábios só sentiam algum calor quando ela matava sua sede. Fazia tempo que ela não beijava assim. Ela não sabia mais o que era amor nem calor. Não que ela sentisse falta. Ela sentia sede. Ela queria amar novamente.

Ela já estava sozinha há muito tempo. Não que isso a incomodasse em sua condição é melhor estar só do que ser perseguida constantemente. Praticamente ninguém a entendia mal aqueles que compartilhavam de sua condição. O ritmo de seus passos diminuiu enquanto chegava perto de uma praça. Ela tirou o casaco de seus ombros e jogou-o sobre um banco. Sentou-se ao lado e ficou olhando o céu as estrelas estavam especialmente brilhantes aquela noite sem núvem alguma. Ela conseguia ver através das luzes da cidade. Fazia tempos que ela não via o sol.

Ficou sozinha na praça algum tempo até que avistou ao longe uma menina solitária caminhando a passos rápidos pela calçada. A menina parecia sentir frio e medo aproximando-se da praça viu a linda mulher sentada no banco acalmou-se. Se nada aconteceu com ela não aconteceria com a menina também. Uma sorriu para a outra. A sede aumentou.

A mulher se levanta do banco da praça e caminha em direção à menina. Um sorriso esboça seus lábios mas não é nem um sorriso de alegria muito menos de alívio. Ela queria matar a sua sede já vivera tempo demais para saber como tudo funcionava. Tempos demais. A noite esconderia o que estava começando que logo iria terminar.

O vento sopra mais frio agora que o sol está para nascer. A menina foi deitada atrás do banco da praça protegida dos olhos curiosos que passarão em breve pelas ruas. A linda mulher sentiu novamente o calor em seus lábios por um momento pensou que poderia amar novamente. Era só sua sede sendo saciada. A menina irá viver.

Ela veste novamente seu casaco e caminha para casa. Ela tem pouco tempo. Passos calmos e leves como se flutuasse no ar. O som dos seus sapatos na calçada inaudível. A sombra de uma esquina a cobre.

Originalmente publicado em:  06/06/07

Liberdade…


escolhas… estamos repletos delas… escolhemos o tempo todo mesmo que não queiramos, pois isso em si já é uma escolha!

liberdade… já disseram que isso é uma condenação… a única escolha que não temos é se podemos ou não escolher, porque todos somos condenados a fazer escolhas… nos enganamos quando acreditamos que liberdade é fazer o que queremos, porque não é… quando fazemos o que queremos não estamos sendo livres, estamos sendo escravos dos nossos desejos… eles mandam, e nós obedecemos… escolher é poder dizer não a isso, é ver uma opção, se responsabilizar por ela e tê-la como sua…

parece fácil, mas é o mais difícil para todos nós… se responsabilizar por uma escolha livre é extremamente angustiante, por isso a grande maioria prefere não escolher, ou prefere não se responsabilizar… daí escolhem culpados ou bodes-espiatórios para livrar-los das responsabilidade e com isso livrar-los da angústia inerente às escolhas…

o que poucos percebem é que é justamente essa angústia que nos move como indivíduos, como sujeitos conscientes e criadores, sujeitos criativos…. de um tempo pra cá, com toda essa cultura da culpa, deixamos de crescer como sujeitos, pois tudo passa a ser culpa do outro, do grande inimigo… guerras idiotas são travadas por culpa do outro, batalhas infindáveis que não levam a nada continuam a existir tudo porque não conseguimos perceber que tudo é responsabilidade nossa, nossos atos e inclusive nossas omissões…

mas fazer o que, né? eu vou fazendo a minha parte nesse jogo…

Originalmente publicado em: 04/06/07

A força mais fraca e o sabor da vida…


Quantas vezes a gente não fica insistindo com a vida que tem q ser do nosso jeito? E a gente briga achando que nós sabemos mais do que a natureza, achando que a natureza é burra e erra o tempo todo… tsc tsc…

Vejam a ciência médica por exemplo, que acha q sintomas psicológicos são sinais de doenças que precisam ser eliminados. Fazem remédios para “consertar” a natureza mas não percebem que esses mesmos sintomas são a forma que a natureza tem para consertar o que nós em nossa enorme arrogância, que só não é maior do que a nossa ignorância, estragamos.

Tudo tem que ser feito do nosso jeito e na nossa hora e esquecemos que nós só estamos aqui há pouquíssimo tempo e que a natureza e a vida está aqui há muitíssimo mais… Novamente isso tem a ver com as necessidades que criamos mas que não precisamos… Dizem que é preciso ter diploma antes dos 25 anos para poder entrar no mercado de trabalho. Dizem que é preciso engressar no mercado de trabalho para poder trabalhar e ganhar dinheiro. Dizem que é preciso ganhar dinheiro para poder sobreviver. E dizem que é mais importante sobreviver do que saber viver! Savoir vivre, como diriam os franceses…

Saber viver, é esse o segredo… Saber tem a mesma origem de Sabor… Saber viver é saber saborear a vida também! Sentir seu gosto, perceber o que a vida tem a nos oferecer… Quantos aqui conseguem fazer isso? Quantos aqui saberiam dizer qual sabor tem sua vida? Será q tem sabor de sangue, suor e lágrimas? Ou tem sabor de damasco com chocolate? Ou será que tem sabor de um bom e refinado vinho tinto ou rum ouro enquanto observa da sacada da sua casa ou do convés de um barco as ondas do mar batendo nas pedras? Ou sua vida tem o sabor da bebida púrpura (cf. O Dia do Curinga, de Jostein Gaarder)?!

Mas a gente só vai poder saber qual o sabor da nossa vida se a gente se deixar levar por ela e não tentar domesticá-la… A vida não é nenhum bichinho de estimação que pode ser domesticado através do noss intelecto! Nosso intelecto vai até os limites da nossa razão. A natureza e a vida vão muito, mas muito mais além disso, vão para regiões completamente desconhecidas por nossa razão… E só quando nós nos deixamos nos levar pela vida é que a gente pode experimentar esses novos e maravilhosos sabores da vida!

Originalmente publicado em: 03/06/2007

Alquimias da vida…


Escrevo isto numa primeira tentativa de diário. Então desde já peço perdão por qualquer imprecisão, ou até mesmo pelo grande tamanho do texto, pois afinal, é meu primeiro e uma verborragia inicial é sempre esperada. Realmente preciso começar a escrever. Tenho muita coisa presa que precisa se expressar…

Comecei a fazer isso no meu fotolog, mas lá tenho uma dificuldade que é encontrar imagens apropriadas para as palavras que quero escrever. Se eu tivesse uma máquina digital, tudo seria muito diferente… E aqui achei que pudesse ser um bom espaço, e estou adorando escrever com essa fonte, que me lembra as antigas máquinas de escrever. Ainda vou ter uma dessas, que ficará ao lado da minha pena, tinteiro e mata-borrão.

Não tenho onde nem como expressar muita coisa, mas tentarei começar por algum lugar.

A confusão é um lugar interessante para se começar. A dúvida, a desconfiança, o desespero, a angústia, o sofrimento, a dor… são todos ótimos pontos de partida. Já se perguntaram porque escritores e poetas e pintores e artistas em geral escrevem ou cantam ou pintam (vocês entenderam) sobre isso? Porque isso é um excelente ponto de partida. O erro está quando isso se torna o objetivo.

Quero fazer uma revelação, embora algumas pessoas já saibam disto. Não, por mais que me chamem de Neruda, eu não sou poeta. Falta muito para eu poder ser poeta. Escrever versos não faz de mim um poeta. Ser poeta é algo mais do que isso. Eu sou um Alquimista. Eu trabalho com a matéria, com a transformação. Minha meta é a metamorfose, a transformação das substâncias, da matéria. Tudo bem que eu trabalho com a matéria dos Sonhos, então posso me considerar um alquimista dos sonhos, ou como ouvi recentemente num filme, talvez um orinonauta (navegador dos sonhos).

A idéia do mar e das navegações sempre me encantou. As fantasias sobre tudo isso me são extremamente fascinantes. Querem me surpreender, criem ou me mostrem alguma criação que misture Sonhos, Fantasia e o Mar que vocês terão minha atenção. Quando vi Mestre dos Mares eu me imaginava lá com eles, indo para Galápagos e descobrindo novas coisas. Quando assisto a Jornada nas Estrelas eu me vejo na Enterprise navegando pelos astros. O mar para mim é mais do que um monte de água. O mar para mim são todas as possibilidades…

Explorar o mar é explorar as possibilidades, os limites da fantasia… Durante muito tempo (talvez até circa 1492 AD), o limite do homem era o Mar. Chegou a época das viagens marítimas e das grandes conquistas além-mar, mas a fantasia continuava. Até então, o mar representava o limite das possibilidades, o Fim do Mundo estava lá, depois dos mares. Mas viemos a perceber que o mar não era tão assustador assim, então o mistério e a fantasia passou a ser as terras além-mar! América não colonizada, os nativos, as florestas, até mesmo a própria África, o continente negro.

(um pequeno parêntesis: isto me lembra de uma frase de Shakespeare em Hamlet: “a morte – o país desconhecido de cujas fronteiras viajante nenhum jamais retorna”)

Mas quando esses territórios já foram conhecidos, passamos a enxergar outros limites, que passamos a chamar de Espaço Sideral (sideral de sideris, estrela, o espaço das estrelas). Temos hoje em dia tantas fantasias sobre o Espaço como nossos ancestrais tinham sobre o mar, pois o Espaço Sideral herdou do Mar essas fantasias, herdou o limite das nossas possibilidades.

Mas o Limite das Possibilidades, antigas ou novas, pessoais ou coletivas, são fantasias também, pois o real limite do humano não está no mar nem no espaço, mas sim nos seus Sonhos… Ouvi um poeta dizer há algum tempo que somos feito não do pó da terra, nem da água do mar, muito menos da poeira estelar, mas da matéria dos sonhos… “Somos todos feitos da matéria dos sonhos”, foram as palavras desse poeta. Então, para mim, a verdadeira possibilidade não é navegar no mar nem navegar no espaço, mas sim navegar nos Sonhos!

Navegar os sonhos é navegar nas nossas reais possibilidades. Navegar os sonhos é encontrar nossas reais limitações. Navegar os sonhos é encarar todas as nossas maiores fantasias!

Mas não sou um navegador… Ainda não, pelo menos… Ainda não tenho minha nau, não tenho minha tripulação, ainda não sou um capitão como Jack Sparrow ou Jean-Luc Picard, os maiores capitães que jamais existiram na realidade, mas que vivem continuamente nos sonhos! Por isso sou um alquimista.

É através da alquimia que navego os sonhos. É através da alquimia que trabalho com a matéria dos sonhos, a mesma matéria que nos faz sermos quem somos. Alquimia, que vem do árabe Al-kimia ou ‘A pedra filosofal’, e isto vem do antigo grego khemia, o nome que eles davam à alquimia, que vem de uma antiga prática egípcia de transmutação de elementos que eles chamavam de Kh’mia que significa ‘Terra Negra’. Ao olharmos para o passado da palavra Alquimia, vemos como ela também transmutou da ‘Terra Negra’ para a ‘Pedra Filosofal’, saiu do Egito e foi parar nas mãos dos árabes, seus maiores mestres.

Hoje em dia é dessa Terra Negra que retiro a matéria prima do trabalho meu alquímico. Toda terra negra é composta principalmente de materiais em decomposição, de coisas podres, mas que são ao mesmo tempo extremamente férteis… Percebem o paradoxo? Aquilo que é podre, que é morto e indica a morte também é a fonte de toda a vida, é de onde começa todo o trabalho do alquimista, pois é aí que começam as transformações, as transmutações…

Todo artífice tem suas ferramentas. Como eu trabalho com sonhos, minha ferramenta é a Fantasia. Fantasia, do grego phantasien que significa ‘mostrar’ ou ‘fazer aparecer’. A fantasia é o que eu utilizo para trabalhar os sonhos, que todos sabem são extremamente escorregadios e tendem a escapar dos nossos dedos. E como faço mostrar esses sonhos? Usando a Arte. Pintura, escultura, desenho, fotografia, vídeos, filmes, cinema, música, poesia, contos, novelas, culinária, e a lista continua. Outro dia eu falo sobre a Arte. Mas minha principal ferramenta de Arte é justamente a Palavra. Talvez por isso me chamem de Poeta, pois tento extrair das palavras suas almas. Não que eu consiga, mas tento, pois a transformação da obra alquímica é justamente encontrar a essência no meio da aparência, é encontrar a substância no meio do acidente.

Foi o que fiz aqui. Saí de um ponto para retornar a ele, usando as palavras. Dei a volta ao mundo, pois ele se apresentou redondo. Naveguei entre as possibilidades, entre as fantasias das palavras, extraí delas sua essência para mostrar a vocês um pouco do que sou: um alquimista dos sonhos…

Então enquanto ainda não tenho minha tripulação, não sou capitão da minha nau, eu trabalho como alquimista. Mas quem sabe um dia não possa começar, além de transmutar, a navegar esses sonhos todos que nos rodeiam?

Texto originalmente escrito em 30/05/2007