Archives for : Opinião Pessoal

Uma breve reflexão sobre a dor e o sofrimento


Será que a dor é inevitável e o sofrimento, opcional?Como se trata de uma breve reflexão sobre a dor e o sofrimento, não vou entrar em grandes detalhes. Caso alguém tenha alguma questão ou pergunta que queira fazer, faça nos comentários que tentarei responder da melhor forma possível!

A diferença entre a dor física e a dor psicológica é gritante. Na dor física, o corpo emite uma série de neurotransmissores responsáveis por aliviar os impulsos nervosos da dor – que tem o objetivo de avisar que algo está errado naquele local e impede que você faça algo pior com ele. Assim, se seu pé doi por conta de uma torção, a dor física fará com que você use menos o pé, permitindo que ele se cure naturalmente, enquanto seu cérebro lança neurotransmissores para aliviar essa sensação. Dependendo da intensidade e frequência da dor física, ela até pode ser prazerosa (por conta desses mesmos neurotransmissores), como o prazer da dor do exercício, por exemplo, ou de uma massagem…

Já a dor psicológica provém de sentimentos profundos, de base não física. Sentimos essa dor também no corpo por conta de processos psicológicos como a memória que nos faz relembrar outros momentos onde sentimos dor e nos faz revivier essa dor. A dor psicológica não está associada a nenhum neurotransmissor de prazer, muito pelo contrário: ela está associada a uma diminuição considerável desses neurotransmissores (tanto é que a diminuição crônica deles é considerado critério diagnóstico de depressão).

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O Ponto de Encontro entre Trabalho, Educação, Tecnologia e Psicologia.


Seminários Epistemológicos UnicentroNo último dia 05 de novembro fiz uma palestra na UniCentro, em Irati, a convite do meu amigo César Rey Xavier em seu primeiro evento Seminários Epistemológicos Unicentro. O objetivo era falar sobre interdisciplinaridade e epistemologia, então preparei uma fala de 40 minutos sobre o tema, amarrando com os pontos que atualmente estou trabalhando: o mundo do trabalho, a educação, a tecnologia e a psicologia.  Para quem é leitor do meu blog, já deve saber mais ou menos o teor dessa conversa. Para quem ainda não conhece, coloco aqui o Prezi que utilizei na apresentação. Adoraria ter gravado ao menos o áudio para disponibilizá-lo aqui, mas estava sem esses recursos tecnológicos na hora. Mas ao menos as ideias estão compreensíveis na apresentação.

O ponto principal que estava defendendo é que não dá mais para percebermos esses campos como sendo isolados, mas sim que sejam híbridos, um misto de todos os campos que apresentam características novas. A interdisciplinaridade pode ser vista a partir das diferentes disciplinas ou então a partir do novo campo criado que é necessariamente híbrido.

Direitos Humanos, Testes em Animais e a Lei de Godwin


Cães como esses foram resgatados do Instituto Royal.Recentemente virou notícia a invasão ao Instituto Royal para o resgate de dezenas de cães da raça Beagle que eram utilizados como cobaias em experimentos científicos. Esses cães especificamente eram usados para testar níveis de toxicidade de medicamentos, entre outras pesquisas biomédicas. A alegação feita pelos manifestantes era que esses animais estavam sofrendo maus tratos e por isso o resgate foi necessário. Porém, tem muita coisa por trás dessa história que não estamos conseguindo perceber – que são muito mais perigosas do que maus tratos em animais.

Não quero aqui entrar especificamente na questão dos direitos dos animais – pois só isso daria um artigo inteiro. Mas vou falar sobre os direitos humanos, como base principal para a argumentação. Também vou falar sobre como funcionam os testes em animais e explicar algumas mentiras e mitos em volta deles. E para terminar, é interessante recorrer à Lei de Godwin, uma lei criada em tempos de cibercultura, para refletirmos um pouco sobre as nossas próprias argumentações – para vermos para onde estamos encaminhando quando agimos da forma como estamos fazendo.

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O Anacronismo das Ciências Humanas


O tempo passa, mas os pensamentos continuam os mesmos...Estudo e leciono história e epistemologia há alguns anos. E sinceramente, estou ficando cansado das teorias baseadas em pensamentos do século XIX regendo as práticas cotidianas, sociais e políticas do século XXI. Já progredimos e evoluímos muito desde essa época do início da revolução industrial, mas nossa filosofia, sociologia, psicologia e ciências humanas de forma geral ainda se baseiam em pensamentos dessa época. Muita coisa já mudou nas nossas organizações pessoais, já passamos por muitas crises e tivemos muitos experimentos para saber que esses modelos de ciências humanas também precisam passar pelos mesmos processos.

As ciências naturais conseguiram evoluir com suas pesquisas. A física de hoje já não é a mesma do século XIX. A biologia talvez seja a ciência que melhor conseguiu evoluir – talvez por usar a evolução como um dos mais importantes pressupostos. A química o tempo todo está fazendo novas descobertas e mudando até mesmo a forma de compreendermos a sociedade. E por que ainda queremos usar, para embasar as ciências humanas, as ideias do século XIX?

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Ainda estamos dormindo e não vamos acordar tão cedo…


Venha para o Brasil, disseram... Será legal, disseram...Com o risco de parecer conspiracionista, preciso esclarecer algumas questões que percebo do que vejo das recentes manifestações no Brasil. E aproveitar para fazer um breve resumo de tudo o que venho pensando ultimamente.

Admito que inicialmente via tudo isso como manifestações populares legítimas, baseadas em críticas reais sobre a forma como o Brasil estava sendo condizido. A final, eu também sou contra a realização da Copa do Mundo em 2014, considerando que não temos infra-estrutura social para isso. Eu também estou de saco cheio da roubalheira, da corrupção dos mandos e desmandos do governo e dos parlamentares.

E quando o povo começou a tomar as ruas incentivados pelo aumento do ônibus, eu achei uma iniciativa bem interessante. E quando a polícia começou a reagir com medo – pois aquelas agressões gratuitas que vimos só pode ser fruto do medo – eu vi legitimidade. Principalmente quando a bandeira levantada era “Não são só vinte centavos”.

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Os Bodes Expiatórios e os crimes da sociedade


Culpamos o bode pelos nossos errosOutro dia estava comentando em sala de aula que temos uma cultura do bode expiatório, onde queremos encontrar um culpado pessoal para os problemas da sociedade. Na tradição original do “bode expiatório” na grécia, os pharmakos eram pessoas escolhidas por uma cidade para que elas levassem consigo os crimes e pecados da cidade e eram castigadas com o pior dos castigos da época: o Ostracismo, ou seja, eram banidas da cidade, perdiam a cidadania e nunca mais podiam voltar.

Para entendermos o quão grave era isso para eles, naquela época, vida em cidade era mais importante que vida individual, tanto é que cidades inteiras eram castigadas, como aconteceu com Sodoma e Gomorra, na bíblia ou ainda no mito de Édipo com a cidade de Tebas. Viver sem cidade era viver sem identidade.

Na tradição bíblica, todo pecado – seja ele da cidade ou do indivíduo – precisava ser pago com a morte. Eles resolveram que, ao invés de matar o pecador, essa pessoa sacrificaria um bode que morreria pelo pecado da pessoa e assim o mandamento de que todo pecado seria pago com a morte estava sendo cumprido. O cristianismo modifica isso pois eles aceitam o sacrifício de Jesus como sendo o sacrifício definitivo para todo o pecado do mundo, então a partir daí, ninguém mais precisa morrer por conta do pecado.

Então temos aí um padrão mítico, do mito do bode expiatório, onde uma pessoa acaba se responsabilizando – ou levando a culpa – pelo grupo: uma pessoa pagando pelos crimes e erros de um grupo todo. E, por mais que isso pareça algo de uma mentalidade antiquada, esse é o padrão que eu mais vejo pelo mundo atualmente, o que nos diz que nós temos ainda uma mentalidade antiquada.

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Reflexões sobre Educação à Distância: O Fórum


Como funcionam os fóruns?Há anos trabalho como tutor de EAD e à anos participo de fóruns online dos mais diversos tipos. Uma coisa que percebo quando comparo o uso dos fóruns em EAD e os outros fóruns é que os outros fóruns são muito mais ricos e vivos do que os de EAD. Parece que os fóruns em EAD se limitam a um espaço onde os alunos postam suas opiniões, enquanto nos outros fóruns seus membros realmente criam novas ideias!

Lembro-me de várias discussões no finado Orkut onde realmente íamos muito além da postagem inicial e realmente construíamos coisas novas. Muitas dúvidas foram esclarecidas e muitas ideias novas nasceram por lá. E isso é totalmente capaz na EAD! Mas por que isso não acontece? Bem, eu tenho algumas hipóteses:

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O uso dos psicotrópicos e a sociedade


Charlie Brown reflete sobre os efeitos colaterais da felicidade... Os efeitos colaterais dos remédios não são os únicos nem os maiores problemas da medicalização. Na real, são várias as críticas sociais do uso de medicamentos de forma indiscriminada, que nos levam a questionar seu uso até de forma controlada. A final, qual é o nosso objetivo com a prescrição desses remédios? E o que estamos falando com tudo isso?

Primeiro, ao receitar remédios para os nossos sentimentos extremos, estamos dizendo que eles são doenças. Ou seja, nossa tristeza e melancolia profundas é um Transtorno Depressivo Maior, nosso medo de falar em público é um Transtorno de Ansiedade de Fobia Social, nossos momentos de descontrole e euforia é um Episódio Maníaco dentro de um Transtorno Bipolar, os adolescentes isolados em seus mundinhos têm Transtorno de Personalidade Esquizóide e as crianças que adoram brincar e não se interessam nos estudos sofrem de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, o famoso TDAH.

Mas será que é isso mesmo? Será que não estamos mascarando de doenças comportamentos que são simplesmente normais? A final, todos temos o direito de ficarmos tristes, até mesmo de passarmos muito tempo tristes – se o nosso sofrimento for muito grande. E, muitas vezes, para não ficarmos tão tristes, devido a uma exigência social, nos colocamos em uma situação extrema de euforia – que nada mais é do que a resposta a uma demanda social de produção constante.

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Os efeitos dos medicamentos na vida


Quadro de Van Gogh, ilustra uma pessoa triste Os psicofármacos, como todo remédio possui seus efeitos principais e seus efeitos colaterais. Os remédios antidepressivos possuem como efeitos principais o aumento da sensação de bem-estar e a diminuição de sentimentos relacionados à depressão como desesperança e inutilidade. Ao mesmo tempo, muitos desses remédios possuem efeitos colaterais como boca seca, baixa de apetite, disfunção sexual, insônia ou hipersonia, pensamentos de morte, ideiais e atos suicidas, diminuição do desejo sexual, entre muitos outros. O mais interessante é que muitos desses efeitos colaterais são justamente sintomas e critérios diagnósticos da própria depressão que esse remédio tenta curar!

Mas como separar então esses efeitos? A questão é que não se pode. Tanto os efeitos principais quanto os secundários são efeitos reais dessas drogas. Acontece que os efeitos principais são os desejados e os vendidos, os colaterais são os que o paciente leva de brinde mas ele não quer. Não existe diferença. Alguns médicos irão dizer que esses efeitos colaterais acontecem em casos raros, mas eles esquecem de dizer que muitas vezes os efeitos principais também acontecem com a mesma frequência e muitas vezes somente os efeitos colaterais acontecem e nenhum dos efeitos principais são sentidos.

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Uma breve história dos psicofármacos


Philippe Pinel ordena a retirada das correntes das pacientes internas em Salpêtrière. Clique para ver a imagem maior.Para compreender os efeitos da medicalização, precisamos compreender o que são e de ondem vêm os psicofármacos. Psicofármaco é um nome genérico que se dá a qualquer remédio que possui efeito exclusiva ou principalmente comportamental, um psicotrópico. Mas de onde veio a busca por remédios que têm esse efeito?

Tudo começa no século XIX. Na real, tudo começa antes, mas vamos olhar a partir dos anos de 1800. Nessa época, a ciência se consolidou como a ferramenta da busca da verdade e ela se consolida baseada em um paradigma naturalista e materialista, ou seja, a ciência trabalharia com áreas exclusivamente materiais e naturais, evitando questões filosóficas e espirituais, por exemplo. Isso acaba por fortalecer muitas áreas, como a física, biologia e até a medicina. Mas uma área da medicina não se fortalece tanto assim, a psiquiatria.

A psiquiatria, desde um século antes com Philippe Pinel, é a área da medicina que se preocupa em cuidar dos doentes mentais. Foi com Pinel que problemas relacionados à loucura passou a ser considerada doença, o que para a época foi um grande avanço, pois até então os loucos ou eram vistos como malandros ou como possuídos por demônios. De qualquer forma, eles deveriam ser deixados de lado e não socializados. A psiquiatria começou a reintegrá-los à atenção social, mostrando que a loucura era um problema de saúde.

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