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O Senso Comum e a História do Inconsciente

Doodle homenageando Sigmund Freud, mostrando seu rosto como se fosse a superfície de um iceberg.Hoje é o aniversário de Sigmund Freud. Há 160 anos – no dia 6 de maio de 1856 – nascia o homem que seria conhecido como sendo o pai da Psicanálise. Não só sua teoria, mas ele também são conhecidos por muitas ideias e muitos conceitos e, principalmente, muitas descobertas e invenções. A importância de Freud é tanta que até o Google o homenageou no dia de hoje, com o Doodle.

Freud é conhecido não só pela teoria psicanalítica, mas também pela prática psicoterapêutica associada com a psicanálise. Alguns dos conceitos que ele desenvolveu incluem o Narcisimo, o Complexo de Édipo, Recalque, a importância da sexualidade na vida do sujeito, Pulsões de Vida e de Morte, Id, Ego e Superego – conhecida como a segunda tópica – e até pela organização psíquica nas estruturas do Consciente, Pré-consciente e Inconsciente. Mas uma coisa que ele não fez foi sugerir o que chamamos de “Metáfora do Iceberg”, que compara o inconsciente à parte submersa de um iceberg. Quem fez isso foi Gustav Theodor Fechner.

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PsicoLog Podcast 08 – O Futuro da Psicologia: Como as abordagens se relacionam?

PsicoLog Podcast 08 - O Futuro da Psicologia: Como as abordagens se relacionam?No dia 09 de dezembro de 2014 proferi uma palestra no Evento do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Psicologia, a Semana do NEPPSI do curso de Psicologia da Faculdade Dom Bosco entitulado “O universo da psicologia no passado, presente e futuro: como as abordagens se relacionam?” Nessa palestra conversei sobre um problema que incomoda muito vários psicólogos e estudantes de psicologia: como lidar com as várias abordagens e teorias psicológicas, principalmente levando em consideração o futuro dessa disciplina?

Para quem não é da área e ou conhece pouco dos bastidores da psicologia, ela é uma ciência atípica pois não existe nenhum concenso com relação a qual é seu objeto de estudo e método preferencial. Apesar de se entitular uma ciência, ela se diferencia das demais ciências justamente por sua fraqueza nas definições de seus temas principais. Temos então várias propostas, chamadas genericamente de “abordagens teóricas” que são, como o nome sugere, formas de abordarmos esse problema. Infelizmente – ou felizmente, depende do ponto de vista – não temos uma perspectiva com relação à clareza dessa definição.

Nesta palestra eu converso um pouco sobre isso e exponho alguns arumentos históricos e epistemológicos a respeito disso, ilustrando como o passado dessa ciência consegue nos mostrar os motivos de termos nosso presente da forma como o temos. Ao mesmo tempo, podemos estudar tudo isso para tentarmos compreender o nosso futuro – e é essa a mensagem final que tento apresentar na palestra que trago aqui para o PsicoLog Podcast.

Duração: 53 minutos

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O Anacronismo das Ciências Humanas

O tempo passa, mas os pensamentos continuam os mesmos...Estudo e leciono história e epistemologia há alguns anos. E sinceramente, estou ficando cansado das teorias baseadas em pensamentos do século XIX regendo as práticas cotidianas, sociais e políticas do século XXI. Já progredimos e evoluímos muito desde essa época do início da revolução industrial, mas nossa filosofia, sociologia, psicologia e ciências humanas de forma geral ainda se baseiam em pensamentos dessa época. Muita coisa já mudou nas nossas organizações pessoais, já passamos por muitas crises e tivemos muitos experimentos para saber que esses modelos de ciências humanas também precisam passar pelos mesmos processos.

As ciências naturais conseguiram evoluir com suas pesquisas. A física de hoje já não é a mesma do século XIX. A biologia talvez seja a ciência que melhor conseguiu evoluir – talvez por usar a evolução como um dos mais importantes pressupostos. A química o tempo todo está fazendo novas descobertas e mudando até mesmo a forma de compreendermos a sociedade. E por que ainda queremos usar, para embasar as ciências humanas, as ideias do século XIX?

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Há 138 anos nascia Jung…

Carl Jung na revista TimeHá 138 anos, nascia o jovem Carl Gustav Jung, em 26 de julho de 1875, na cidade suiça de Kesswil, no cantão da Basiléia. De lá para cá, muita coisa mudou na história da psicologia e na história do mundo e muitas dessas mudanças foram graças a esse homem. Taxado como místico por muitos, ele buscou um pensamento científico diferente, olhando para as excessões mais do que para as regras, buscando integrar todas as experiências humanas, inclusive a espiritualidade e a arte.

Por muito tempo, a ciência se fechou para diversos fenômenos – ditos ocultos – e preferiu olhar para uma realidade mais material, paupável. Jung, ao contrário, reconhecia que existe uma dimensão metafísica da experiência humana e que até a materialidade do mundo é metafísica, pois a única natureza de experiência direta é a experiência da psique humana, de sua alma. Tanto a matéria quando o espírito nos são experiências mediadas e não imediatas. A matéria conhemos através das impressões dos cinco sentidos, enquanto o espírito só podemos conceber através da nossa razão. Ignorar um lado em detrimento do outro sempre pareceu para Jung como reduzir a experiência humana. E isso era algo que ele não concebia.

O mais interessante é que, para poder dar conta desses dois lados, Jung percebeu que a psique humana se utiliza das imagens e de processos criativos e espontâneos – os mesmos processos utilizados por artistas. Dessa forma, gosto de dizer que Jung – mais do que um cientísta – foi um grande artista da psique humana, sem nunca abrir mão de sua postura crítica, analítica e – principalmente – empírica.

Por conta de seu aniversário, encontrei este vídeo que resume bem os principais pontos de sua vida e sua obra. E quero compartilhá-lo aqui! Espero que assim consigamos aprender um pouco mais sobre esse pensador e sobre suas ideias…

Qualquer comentário, sintam-se à vontade para colocarem abaixo.

Homossexual… idade… ismo… o que é mesmo o sexo?

Homossexual... idade... ismo... o que é mesmo o sexo?Ouvindo e lendo pela internet várias opiniões sobre homoafetividade ou homoerotismo, me deparo com vários conceitos e desconceitos sobre o tema. Queria tentar abordar uma dessas questões sob o ponto de vista histórico e psicológico. É claro que não conseguirei esclarecer todas as dúvidas ou abordar todos os pontos sobre o assunto, mas tentarei ao menos esclarecer algumas questões. O que quero tratar é justamente é justamente a história por trás da homossexualidade e dos nomes que usamos para designar esse comportamento.

Homossexualidade ou Homossexualismo?

A primeira questão aqui é sobre o nome que damos para essa condição. Alguns dizem que o correto é falar “homossexualidade” porque “homossexualismo” seria doença. Outros não estão nem aí para isso, pois se assim fosse, cristianismo, espiritismo, capitalismo, marxismo, tudo isso também seria doença. Antes de dizermos o que é o correto, temos que compreender de onde vieram esses nomes?

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Uma breve história das doenças mentais*

Os transtornos mentais sempre acompanharam a humanidade.Desde que as pessoas se reconhecem enquanto pessoas, existe a percepção de comportamento normal, padrão e comportamento desviante. Em diferentes momentos da história, esses comportamentos desviantes receberam vários nomes e classificações.

Para os antigos, alguns desses comportamentos eram vistos como sinais de deuses, tanto positivos quanto negativos. Alguns casos de esquizofrenia, por exemplo eram vistos como sinais de profetas.

Com a influência do cristianismo na cultura ocidental, esses mesmos comportamentos passaram a ser vistos como sendo negativos e influenciados por demônios. A depressão, por exemplo, dizia-se que era influenciada pelo demônio do meio-dia. Como a Igreja tinha bastante influência na sociedade, essas pessoas eram ou abandonadas por estarem possuídas ou eram levadas a igrejas para serem exorcizadas.

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Hollywood não se cansa do Mito do Herói?

Semana passada assisti Força Policial, chamado aqui pelas distribuidoras como “A Tropa de Elite americana”. Pride and Glory, como é chamado em inglês, é pra ser um filme sobre a polícia de Nova York, mais especificamente sobre alguns policiais do 31º Distrito que se vêm envolvidos em uma crise de corrupção que está prestes a vir à tona. Se a história realmente seguisse a linha de Tropa de Elite e girasse em torno dessa trama principal, com o elenco que eles reuniram (que conta com nomes como Edward Norton e Colin Farrel) e com algumas cenas realmente muito boas que eles produziram, esse filme tinha de tudo pra ser um enorme sucesso. Mas acontece que Hollywood ainda insiste em usar o tão manjado Mito do Herói, que sempre funcionou e sempre vai funcionar. Mas chega uma hora que cansa, né?

Aos que me perguntam: mas o que raios é esse mito do herói que você tanto fala? Bom, vou tentar resumir bem resumidinho pra ver se faz algum sentido.

Um grande mitólogo chamado Joseph Campbell, junto (num mesmo momento, mas não juntos) com um psicólogo e psiquiatra chamado Carl G. Jung, desenvolveram uma teoria psicológica baseada no desenvolvimento dos mitos. Segundo eles, os mitos refletem padrões psicológicos típicos a todos os humanos, os Arquétipos. Esses arquétipos são padrões típicos de comportamento que falam das situações típicas da vida humana, como nascimento, morte, desfios, crise, maternidade, fome, desejo, depressão, alegria, entre vários outros. Na verdade, pra cada situação típica que você conseguir pensar, você consegue relacionar isso a um arquétipo. E pra cada arquétipo, existe um mito ou padrão mítico que fala sobre essa experiência. Esse padrão mítico é conhecido como mitologema.

Então podemos falar do mito de Hércules, de Aquiles, de Édipo, de Sansão, de Sigfried e de quem mais for. Todos esses mitos diferentes que contam histórias diferentes sobre pessoas ou personagens diferentes, todos eles seguem um mesmo mitologema ou tema mítico, o do herói. Esse mitologema tem uma estrutura muito semelhante, ele fala de uma jornada que necessariamente tem alguns passos a serem seguidos.

A começar, o herói tem algumas características. Uma delas é a do “duplo nascimento” ou da “dupla filiação”. Isso quer dizer que o herói necessariamente tem dois pais ou duas mães ou dois nascimentos. E isso pode se dar de várias formas. Hércules, por exemplo, é filho de Zeus com Alcmene, mas ele também tem um pai mortal, Anfitrião. O Super-Homen também tem isso, ele é filho do pai criptoniano Jor-El e do pai terreno Jonathan Kent. O mesmo acontece com Jesus de Nazaré, que é filho de Deus e de José. Além de ter dois pais (ou duas mães), o duplo nascimento pode acontecer por um segundo nascimento, devido a algum evento importante, como uma iniciação numa ordem secreta, ou sobreviver a um grave acidente, como aconteceu com o Batman, que viu seus pais serem assassinados na sua frente; esse evento traumático serviu como um segundo nascimento para Bruce Wayne. O duplo nascimento é o que diferencia o herói dos outros mortais, pois ele garante ao herói um status de quase-divindade. E é por isso que as histórias dos heróis são tão emocionantes pra nós, já que eles podem um pouco mais do que nós meros mortais e nos servem de exemplo.

Além de ter um nascimento diferente, o herói passa por uma jornada complicada. Ele inicialmente descobre que é diferente e por isso precisa trilhar um caminho diferente. É então que ele começa sua jornada enfrentando perigos que muitos não ousariam enfrentar. Estamos falando de monstros e vilões e bruxas e seres de outros planetas e cientistas malucos e demônios e coisas que nós meros mortais não enfrentamos. Acontecem muitas coisas em sua jornada e ao final acontece algo chamado de redenção do herói, que é quando ele percebe que ele chegou no seu ápice, já se mostrou maior que tudo e todos, mas que agora ele precisa voltar para a sociedade e devolver tudo aquilo que ou ele tirou dela ou ela deu a ele. É um momento onde o herói se descobre humilde e humano, como todos os outros e é então que ele se torna sábio. Muitas vezes, esse momento acontece na morte do herói, que é quando ele reconhece sua finitude, que ele chegou ao fim e que ele não é mais tão “super” quanto acreditava.

Se você parar pra pensar, essa é a estrutura básica de mais da metade das histórias que conhecemos, seja elas das HQs dos super-heróis, ou dos desenhos animados ou dos filmes de Hollywood. Até aí, tudo bem. Mas acontece que Hollywood já conseguiu mostrar que consegue fazer histórias muito boas sem precisar recorrer a esse mitologema, a essa estrutura típica. Aliás, o cinema mundial conseguiu mostrar isso. O próprio Tropa de Elite é um filme que mostra um herói decadente, que no final ele não se redime, no final ele se encontra dentro de sua própria força!

Existem vários outros modelos que só dependem da nossa imaginação. É claro que o mito do herói fala bastante para nós, pois ele fala da nossa condição humana, da construção da nossa identidade social. Mas, sinceramente, hoje em dia sabemos que nossa vida não se resume só à nossa identidade social. Nós temos nossas crises, nossos problemas, nossos conflitos internos, nossos sonhos e muito mais coisas que fogem do simples padrão do mito do herói. E acho que é isso que Hollywood não entendeu até agora.

O filme Pride and Glory conta, de novo, o mito do herói. Pra não soltar spoliers, basicamente o nosso herói (que tem duplo nascimento, pois seu pai, além de ser seu pai biológico, é policial, ou seja, ele nasceu para a vida e para a polícia) precisa enfrentar uma jornada onde ele se depara com a realidade de sua vida. E a jornada não é fácil, pois ele precisa fazer escolhas difícies, mas no final ele se redime e vai buscar justiça e não vingança. Justiça é a vingança para a sociedade e vingança é a justiça pessoal. Ou seja, nosso herói prefere se redimir para a sociedade do que buscar a glória pessoal. Novamente, Hollywood se utiliza da resolução do conflito do mito do herói e não consegue se renovar!

Eu poderia pensar em vários finais alternativos para a história, entre eles, do nosso herói bonzinho desde o começo perceber que a polícia é corrupta e que não existe redenção e se entregar à corrupção. Ou ainda, dele perceber isso e resolver se aposentar antes da hora. Ou ainda, de ele ser condenado por algo que ele não cometeu, pois ele, ao tentar ser bonzinho, os outros policiais acabam entregando o herói da história que não faz nada pra não incriminar seus amigos e parentes, ele vai pra cadeia e é morto pelos outros bandidos que pensam que foi ele quem matou ou foi responsável pela morte do vilão-mor. Então todos se esquecem desse herói perdido e a vida continua, pois a sociedade toda está corrupta e não adianta a ação de um herói solitário para redimi-la.

Essa mesma trama principal poderia ter seguido vários outros caminhos. E qualquer caminho que ela seguisse, com certeza teria sido muito melhor do que o rumo que ela seguiu. Esse filme foi muito ruim e muito fraco e não traz nada de novo para nenhum espectador ou para qualquer pessoa que pelo menos tem o costume de ler ou ver filmes de vez em quanto. Ou até mesmo pra quem se lembra dos contos-de-fadas que ouviam quando crianças! Assitam só se vocês quiserem ver algumas poucas cenas de ação e violência gratuita e uma cena de abertura de alguns minutos em take único sem cortes (esse foi o ponto alto da produção do filme). De resto, esqueçam Força Policial e assistam de novo Tropa de Elite. Capitão Nascimento deixa toda a polícia de Nova York no chinelo!

E espero que esse filme sirva pelo menos para percebermos que o mito do herói já não funciona mais como funcionou antigamente e que hoje precisamos procurar um novo mito para nossas vidas… mas que mito seria esse? Bem, isso é um assunto para um outro artigo…