Archives for : Psicopatologia

A Psicologia e os Modelos de Conhecimento: reflexões sobre depressão e farmacologia

Como será que diferentes pensamentos sobre psicologia podem conversar?Devo admitir que a repercusão de algumas ideias vai mais além do que imaginava, mas isso é algo bom! Algumas ideias realmente são difíceis de serem compreendidas e eu trabalho bastante com elas. Por muitas vezes meus alunos demonstram dificuldades em compreender algumas questões diferentes, justamente por partir de modelos de conhecimento que não estamos acostumados. E isso pode trazer vários problemas para a compreensão geral das discussões.

Trabalho com psicologia analítica, psicologia existencial e fenomenologia, além de estudos de fenomenologia da imaginação e estudos do imaginário, o que implicam em uma série de pensamentos e formas de pensar que diferem bastante das formas tradicionais de pensamento e de conhecimento. É isso que me refiro quando falo em um “modelo de conhecimento”. E existem vários modelos diferentes que pegamos de “empréstimo” para servir para a nossa forma de conhecer o mundo. 

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O Marketing da Loucura: Estaremos todos insanos?

Atualmente tomamos muitos medicamentos. Entenda aqui como isso aconteceu...Recentemente descobri um documentário que me deu muito o que pensar. Muito do que diz lá eu de certa forma já sabia, mas muitos argumentos são novos e assustadores. Trata-se de O Marketing da Loucura: Estaremos todos insanos?

O documentário trata principalmente sobre a relação da indústria do marketing com a indústria farmacêutica, de sua busca por lucros cada vez maiores e, principalmente de suas vítimas, os pacientes psiquiátricos. Alguma coisa sobre isso já foi dito aqui em diversos posts, mas talvez com este documentário os argumentos fiquem mais claros e evidentes. A final, são quase três horas de informação! Mas são três horas que realmente valem a pena…

Alguns dos pontos mais interessantes que o documentário mostra é o desenvolvimento histórico do uso dos medicamentos psicotrópicos, o motivo por trás disso e seu real funcionamento. O que me chamou bastante a atenção é a relação criada entre os medicamentos e as doenças, quase como se uma doença passasse a existir ou a ganhar reconhecimento não por sua gravidade ou seriedade mas sim porque existe um remédio no mercado para tratar a doença. Percebemos isso com a depressão, que só deixou de ser considerada “frescura” e ganhou status de doença mental na década de 80, com o lançamento do Prozac. Ou ainda o abuso do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, o TDAH, com as prescrições de Ritalina – um estimulante com o mesmo funcionamento da cocaína. O mais atual agora é o Transtorno Bipolar, um transtorno já discutido há algum tempo, mas agora com os novos medicamentos, praticamente todos são diagnosticados com esse transtorno, mesmo sem apresentar os sintomas…

Assita aqui o documentário inteiro!

Uma coisa que me chama a anteção é a seriedade com a qual a população trata algo que não é tão sério assim. As ditas “doenças mentais” são uma forma médica de compreensão do sofrimento humano. A humanidade sempre sofreu e sempre sofrerá, mas parece que cada vez mais não podemos passar por isso. Medicalizamos o sofrimento e transformamos isso em doença tratável. Mas, qual é o problema em sofrer? Não posso mais ficar triste? Desde quando tristeza, mesmo a profunda, é doença?

São várias perguntas que, quando conhecemos os fatos por trás, nos deixam de cabelo em pé. E percebemos que existem muito mais questões junto a essas. É claro que o documentário apresenta várias restrições, principalmente com relação à fundação dos argumentos, por exemplo, os profissionais consultados não são apresentados com suas filiações acadêmicas e também ao final de todo o problema ser apresentado, o documentário não mostra uma solução possível além da divulgação do mesmo documentário. Mas mesmo assim, os argumentos nos dão muito o que pensar e bastante material para refletir. Não sei se alguns desses dados conferem, mas mesmo assim vale a pena refletir sobre isso. Gostaria de iniciar uma discussão por aqui. Assista ao vídeo e deixe sua opinião!

Problemas Conceituais da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)

Qual o risco das psicoterapias cognitivo-comportamentais?Mais um tema polêmico, mas essa é uma questão que vem surgindo repetidas vezes com meus alunos. Não posso deixar passar. Quem já me ouviu falando sobre isso sabe que eu tenho uma opinião clara sobre isso e até agora não conheci argumentos que pudessem me convencer do contrário. Existem algumas psicoterapias baseadas em aglomerações de técnicas sem fundamento teórico-epistemológico que genericamente são chamadas de “Terapias cognitivo-comportamentias”, que acabam criando uma image distorcida das terapias e teorias cognitivas e comportamentais. Sou contra essa ecletização e aqui poderei expor por quê. Antes de começar a falar, já adianto que sei que haverão muitas críticas dos defensores dessa “pseudoabordagem”, mas já adianto que tentarei responder a essas críticas antes que elas sejam feitas aqui. Outra coisa que devo acrescentar antes de prosseguir é que meu fundamento para tal posicionamento está em questões epistemológicas, metodológicas e políticas relacionadas à psicologia e espero que, caso eu venha a ser criticado, que essas críticas sejam no mesmo nível. Não estou aqui menosprezando nenhum psicólogo específico, muito menos seus pacientes. Somente quero alertar meus leitores para os riscos dessa prática, riscos esses que poucos – ou quase ninguém – conhecem.

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Quem observa os observadores: Mídia e Psicopatologia

Quem observa os observadores?Faz um tempo tenho observado algumas propagandas e como elas vendem seus produtos. É claro que é objetivo do publicitário ao produzir essas campanhas de vender a imagem do produto, mas acredito que muitas vezes eles pegam um pouco pesado. Eles acabam vendendo algo que não precisaria vender e criam necessidades desnecessárias.

O que mais me chama a atenção é o excesso de propagandas que vendem a felicidade. Sejamos sinceros: ninguém consegue vender felicidade porque, como diz o clichê ditado pupoplar, dinheiro não compra felicidade! Isso porque felicidade é um sentimento que temos ao alcançarmos objetivos de vida, sejam eles simples ou complexos. A felicidade que temos ao comprar vem do fato de a compra ser um objetivo que alcançamos. Mas felicidade mesmo não pode ser comprada ou vendida ou mensurada ou feito nada com ela além de ser sentida e vivida.

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Uma breve história das doenças mentais*

Os transtornos mentais sempre acompanharam a humanidade.Desde que as pessoas se reconhecem enquanto pessoas, existe a percepção de comportamento normal, padrão e comportamento desviante. Em diferentes momentos da história, esses comportamentos desviantes receberam vários nomes e classificações.

Para os antigos, alguns desses comportamentos eram vistos como sinais de deuses, tanto positivos quanto negativos. Alguns casos de esquizofrenia, por exemplo eram vistos como sinais de profetas.

Com a influência do cristianismo na cultura ocidental, esses mesmos comportamentos passaram a ser vistos como sendo negativos e influenciados por demônios. A depressão, por exemplo, dizia-se que era influenciada pelo demônio do meio-dia. Como a Igreja tinha bastante influência na sociedade, essas pessoas eram ou abandonadas por estarem possuídas ou eram levadas a igrejas para serem exorcizadas.

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